Em certo momento de Retiro: A Casa dos Artistas, dos diretores Roberto Berliner e Pedro Bronz, um entrevistado diz que não há uma vez em que pegue um táxi que não ouça o questionamento sobre o que aqueles artistas fizeram para terem perdido tudo e por fim parado naquela pequena vila de casas. Afinal, subentende-se, artistas bem sucedidos jamais teriam que ir para aquele local que, conforme a imprensa recorrentemente conta, é o espaço para os que sobraram.
O objetivo do documentário – que faz parte da mostra competitiva de longas da 31ª edição do É Tudo Verdade – parece ser o de justamente desfazer essa ideia. Quase como se fosse um assunto natural, vários dos moradores remetem suas falas a esse tema, antes de contar detalhes de suas carreiras e vidas pregressas.
E, de fato, vamos entendendo que qualquer um pode ir para lá (as condições para isso, contudo, não são esclarecidas). Entre os habitantes da Casa dos Artistas, há de tudo: escritores, atores e atrizes, pintores, circenses, maestros, vedetes, astrólogos, produtores culturais, músicos renomados internacionalmente.
Ao optar pelo formato de um documentário de escuta – uma vez que os documentaristas não reservam muito espaço para discussões sobre como a vila se sustenta ou se os moradores têm alguma participação nos custos – aos poucos vamos nos aproximando das histórias de gente que quer se narrar. E narrar-se, nesse caso, tem a ver com passar pela própria carreira e pelos feitos mágicos inevitáveis de quem viveu para a arte.
Assim, vamos cruzando com personagens cativantes, como a atriz Claire Digon, que dá um show na frente da câmera indo do riso ao choro em poucos segundos. Ou com o lendário percussionista Robertinho Silva, que participou do disco Clube da Esquina, e que em vários momentos aparece tocando seus instrumentos.
Mas esse deslumbre perante essas pessoas talentosas se esmaece diante de algumas constatações: a de que, já idosos, mas ainda produtivos, quase não recebem propostas profissionais. O percussionista Carlinhos Pandeiro de Ouro, que tem tripla cidadania, diz em certo momento que planeja voltar para os Estados Unidos, já que nos seus oito anos de Brasil só conseguiu fazer um trabalho.
Um documentário de escuta
Em suas escolhas estéticas, Retiro: A Casa dos Artistas parece muito próximo do clássico Edifício Master, de Eduardo Coutinho, à medida que opta por uma espécie de “franciscanismo” cinematográfico. Roberto Berliner e Pedro Bronz estão mais interessados nas histórias, nas estratégias usadas por aqueles personagens em se narrar, sem grandes intenções de confrontá-los.
Isso não configura como um problema, muito pelo contrário. Ao deixar que as personagens falem soltas e teçam seus fios narrativos, somos confrontados com pequenas pérolas que saem das bocas daqueles idosos incomuns, que optaram por abraçar a grande musa e viver uma vida fora da curva.
Retiro: A Casa dos Artistas parece muito próximo do clássico Edifício Master, de Eduardo Coutinho, à medida que opta por uma espécie de “franciscanismo” cinematográfico.
O preço a ser pago é alto, é o que vamos captando, mas também recompensador. O que também se esclarece é que há muitas carreiras artísticas que permanecem em um limbo mesmo entre a classe. A produtora cultural Rita Maia, por exemplo, abre seu depoimento dizendo o quanto a sua profissão é pouco reconhecida dentro desse metiê, sendo que são os produtores, na verdade, que fazem a mágica acontecer. Em alguns anos de sua carreira, uma de suas responsabilidades era manter Tim Maia longe das drogas antes de encarar um show.
Diferente do documentário de Coutinho, contudo, há alguns excessos e descuidos que demandariam um tempo maior de pós-produção. A edição opta por incluir vários momentos em que os documentaristas e a equipe técnica aparecem em cena. Mas antes de parecer uma escolha estética estratégica, há trechos em que isso se compreende mais como desatenção. Da mesma forma, certos depoimentos são excessivamente longos e provocam algum prejuízo no ritmo do filme.
Estes detalhes, entretanto, não tiram a beleza de Retiro: A Casa dos Artistas, que cumpre seu objetivo de nos mostrar o quanto a presença da cultura, expressa em todos os personagens do filme, é o que mantém o país pulsando. É o que separa o viver do mero sobreviver. Como encerra o escritor Marco Antônio Coutinho, um dos entrevistados: “não existe sociedade sem o artista. E uma das funções dele é dar o dedo do meio para a sociedade”.
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