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‘Michael’ aposta na memória e desvia do conflito

'Michael', de Antoine Fuqua, empolga nas cenas musicais e no apelo afetivo, mas evita encarar as zonas de sombra do ícone.

porPaulo Camargo
5 de maio de 2026
em Cinema
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Sobrinho do músico, Jaafar Jackson interpreta o tio na cinebiografia dirigida por Fuqua. Imagem: Lionsgate / Divulgação.

Sobrinho do músico, Jaafar Jackson interpreta o tio na cinebiografia dirigida por Fuqua. Imagem: Lionsgate / Divulgação.

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Há algo de calculado no modo como Michael organiza sua narrativa. Não apenas no que mostra, mas sobretudo no que decide não mostrar. O filme de Antoine Fuqua acompanha a formação de Michael Jackson a partir de um eixo conhecido: infância sob o comando duro do pai, o sucesso precoce com o Jackson Five, a consolidação de uma carreira solo que redefine a indústria. Tudo isso está lá, com a fluidez esperada de uma produção que sabe exatamente onde quer chegar. Mas o que chama atenção é outra coisa.

Há uma recusa em tensionar a imagem. O filme contorna, com cuidado, tudo aquilo que poderia deslocar o personagem de seu lugar confortável no imaginário popular. As acusações que marcaram sua trajetória simplesmente não entram em cena. Não como ausência acidental, mas como escolha de construção. E isso altera tudo.

Sem conflito, Michael se torna mais legível . O que vemos é um corpo que performa, um talento que se impõe, uma engrenagem que funciona. Falta, no entanto, aquilo que escapa ao controle. A dimensão contraditória, aquilo que não se resolve em coreografia.

Ainda assim, mesmo com fragilidades evidentes de roteiro, o filme encontra um modo de envolver. As sequências musicais têm força própria, e não dependem inteiramente da dramaturgia para funcionar. Há ali uma energia que atravessa a encenação e alcança algo mais direto, mais imediato.

Em parte, isso se explica pela maneira como o filme aciona uma memória afetiva coletiva. As canções, os gestos, a iconografia. Tudo isso já está inscrito no espectador antes mesmo da primeira cena. O filme reconhece esse repertório e se apoia nele. E, quando faz isso, empolga.

Em parte, isso se explica pela maneira como o filme aciona uma memória afetiva coletiva. As canções, os gestos, a iconografia. Tudo isso já está inscrito no espectador antes mesmo da primeira cena.

Há momentos em que se aproxima de algo mais vivo, sobretudo quando a presença de Jaafar Jackson ganha autonomia e o gesto parece existir por si. É ali que surge um vestígio de experiência, algo que não depende da narrativa para se sustentar. Fora disso, tudo parece excessivamente alinhado.

Ao encerrar sua trajetória ainda nos anos 1980, antes que qualquer fissura se torne incontornável, Michael preserva uma imagem. Não a interroga. Há, nisso, uma espécie de pacto silencioso: o de contar apenas o que pode ser organizado, editado, entregue. O problema não está no recorte. Está no modo como ele se fecha. Ao evitar o que desestabiliza, o filme não apenas simplifica seu personagem. E talvez seja isso que reste: um filme que entende o espetáculo, mas não se dispõe a atravessá-lo.

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Tags: Antoine FuquaCinemaJaafar JacksonMichaelMichael Jackson

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