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Home Crônicas Helena Perdiz

Desculpas

porHelena Perdiz
21 de janeiro de 2016
em Helena Perdiz
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"Desculpas", crônica de Helena Perdiz.

Imagem: Reprodução.

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“Eu preciso ir até em casa imediatamente porque deixei o rádio ligado na Antena 1 e meu cachorro odeia Adele”, “as vozes estão me chamando e eu devo atendê-las”, “o planeta está em perigo, preciso me esconder”, “tem alguém precisando de mim com urgência, mas eu não posso contar quem, porque a pessoa é famosa”, “tenho um minuto para sair daqui, ou todo mundo vai morrer”, “preciso entrar agora na fila da Mega Liquidação Casas Bahia pra não perder os melhores descontos”. Essas desculpas eram tudo o que vinha na minha cabeça enquanto aquele cara falava sem parar – eu não tinha interesse nenhum no que ele dizia e, pra falar a verdade, já não estava mais prestando atenção há alguns minutos, já que era mais importante usar meu cérebro para conseguir formular uma frase de impacto que me possibilitasse sair correndo daquela sala e nunca mais voltar.

Toda manhã de segunda-feira era assim: o Valdemar, meu querido colega de trabalho que eu mal conhecia, me chamava na sala dele para mostrar as fotos que havia tirado no fim de semana e contar como foram maravilhosos os últimos dias na praia, na balada, na casa da prima do amigo da vizinha, no trio elétrico, na rua, na chuva, na fazenda, em cima do morro, dentro do bueiro ou onde quer que fosse. E eu, com toda a minha educação, observava as fotografias e ouvia as histórias com um sorriso no rosto, seguido de comentários genéricos, como “que legal”, “muito bom” e “olha só”. Mas, por dentro, eu estava dizendo “bela bosta”, “é? Foda-se” ou “eu realmente não me importo” e, no fundo, queria dizer tudo isso em voz alta – mas meu bom coração não permitia.

Sempre atraí esse tipo de gente que me escolhe para contar sobre a própria vida sem que eu tenha demonstrado algum interesse. Talvez por eu ser uma pessoa de poucas palavras, talvez por ter cara de idiota, ou simplesmente por não conseguir ter a frieza de dar um chega pra lá logo de cara. Que fique claro: quando alguém vem fazer um desabafo porque precisa de um ombro amigo, eu fico feliz em ajudar, mesmo no caso de se tratar de um total desconhecido. Mas se a pessoa quer simplesmente mostrar que é dona dos momentos mais interessantes sem que eu tenha perguntado, eu só consigo pensar em desculpas esfarrapadas para fugir da situação ou imaginar as frases que eu poderia usar se não me importasse com os sentimentos alheios; uma vez, no elevador, uma senhora (inicialmente identificada como “velhinha fofa”) olhou para mim de repente e disse: “meu filho mora num prédio muito mais alto que este. Bem mais alto. E na cobertura, porque ele é rico” – a partir daquela frase, ela passou de “velhinha fofa” para “velha morfética” na minha cabeça, mas eu só consegui sorrir; outro dia, no Pronto Atendimento, falei ao enfermeiro sobre a dor que estava sentindo e ele começou a dizer que sentia uma dor bem maior, que era a dor de corno – e passou a discorrer sobre a sensação de ter sido deixado por uma mulher 20 anos antes; um dia, o carteiro veio entregar as correspondências e passou duas horas no sol, encostado no portão, contando pra mim como as coisas mudaram pra melhor depois que ele adotou um texugo.

Sempre atraí esse tipo de gente que me escolhe para contar sobre a própria vida sem que eu tenha demonstrado algum interesse. Talvez por eu ser uma pessoa de poucas palavras, talvez por ter cara de idiota, ou simplesmente por não conseguir ter a frieza de dar um chega pra lá logo de cara.

Mas naquela manhã de segunda-feira, eu tinha toda a determinação comigo e ia colocar um ponto final nas histórias do Valdemar (pelo menos por um dia). “A verdade é que eu sou surda e finjo ouvir o que você diz”, “vou embora porque está na hora do meu ritual Wicca”, “aprendi uma mágica de desaparecimento com o Mister M, observe”, “se eu não apertar o botão vermelho do corredor agora, o Brasil vai começar a derreter”, “meus pais me proibiram de levar essa conversa até o fim”, “ouvi alguém gritando o meu nome lá fora e eu acho que é Deus” – essas foram as melhores desculpas que eu consegui inventar, mas nenhuma delas seria suficiente para fazer aquele cara parar de falar.

Até que uma ideia veio até mim como uma visão. Era perfeita, era linda, era tudo o que eu precisava. Me preparei mentalmente, levei uma mão até o peito e a coloquei em ação: simulei um desmaio.

Tags: AdeleAntena 1Casas BahiaCrônicaDesculpasMister M

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