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‘Exorcismos, Amores e uma Dose de Blues’: cadê minhas luvas de exorcista?

A ficção de Eric Novello em 'Exorcismos, Amores e uma Dose de Blues' une o nosso mundo "real" e uma dose de magia, tudo embalado por um blues.

porWalter Bach
7 de abril de 2016
em Literatura
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'Exorcismos, Amores e uma Dose de Blues': cadê minhas luvas de exorcista?

Imagem: Reprodução.

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Uma dose forte de melancolia é sussurrada na história, daquelas fortes que só um blues proporciona. A sigla de algumas palavras do nome do livro dá uma pista: Exorcismos, Amores e uma Dose de Blues, um EADB, quase afinação alternativa de um baixo, trocando apenas o G (Sol) da primeira corda por um B (Si). O romance de Eric Novello, lançado pela editora Gutenberg, passeia por esse tom de blues, um clima boêmio e doses de magia que nem a sobriedade ou a falta dela conseguem explicar.

O protagonista Tiago Boanerges já teve dias melhores. O graduado mago exorcista levou um chute da agência onde trabalhava graças ao profundo envolvimento em um caso antigo, que parece ter acontecido no dia anterior ao da narrativa de tão presente que é. Não foi apenas o fator profissional que pesou, a questão é que Boanerges deu o coração para resolver o caso – literalmente, como aprendemos ao longo da história, embora isso pareça uma nota suspeita e incômoda para ele.

Tiago teve que aprender a se virar como freelance no Entremundos, o que inclui lidar com seres às vezes mais horríveis que as entidades possessivas de outra época. Até aí tudo mais ou menos bem para ele, salvo conflitos de vez em quando – o difícil é cruzar de vez a fronteira para fora do passado e deixá-lo por lá. Mas as pessoas daquele tempo o procuram, e ele mal sabe em quem pode confiar, se considera odiado por uns; tem amizade com uma banda, ou parte dela – se dá bem com a garota e tolera os demais, talvez a mesma sensação do outro lado; até velhos conhecidos, nem todos amigos ou parceiros, o buscam porque ele se torna necessário. Ele também não pode se dar ao luxo de abandonar a velha carreira como se não tivesse acontecido. Em um diálogo, ele ouve de um capanga que é visto como um sujeito diferenciado por muitos alguéns, e devolve:

Tiago Boanerges embarca porque precisa – não pode recusar dinheiro – e também porque não tem o que perder.

“ – E seu chefe é um desses alguéns.
Caner assentiu discretamente.
O argumento por trás do discurso elogioso fazia sentido. Ter trabalhado no Conselho de Hórus atestava a sua experiência, ter enfrentado uma musa, o seu diferencial, ter sido expulso, o preço baixo” (p.51)

Tiago Boanerges embarca porque precisa – não pode recusar dinheiro – e também porque não tem o que perder. Lidar com gente disposta a receber espíritos e até a ter relações sexuais com eles, exorcizar entidades irresponsáveis de corpos humanos ainda mais irresponsáveis, desconfiar de rivais próximos e até de amigos e amigas mais próximas ainda, tudo é risco. Há pausas musicais na história, desde o começo e fim de hábitos do protagonista, o velho vício de cigarro e seu templo particular de blues na sala, e o agito da cena que contém o nome do livro.

Exorcismos, Amores e uma Dose de Blues pode lembrar alguma ficção do Neil Gaiman ou elementos de RPGs devido à coleção de elementos fantasiosos, ou um pouco de Constantine, graças ao seu protagonista, um sujeito tão poderoso quanto besta, cujos piores demônios custam o próprio coração.

EXORCISMOS, AMORES E UMA DOSE DE BLUES | Eric Novello

Editora: Gutenberg;
Tamanho: 336 págs.;
Lançamento: Julho, 2014.

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Tags: bluesContracapaCrítica LiteráriaEditora GutenbergEric NovelloExorcismos Amores e uma Dose de BluesFantasiaficçãoLiteraturaLiteratura BrasileiraLiteratura Brasileira Contemporânea

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