• Sobre
  • Apoie
  • Política de Privacidade
  • Contato
Escotilha
Sem Resultados
Veja Todos Resultados
  • Reportagem
  • Política
  • Cinema
  • Televisão
  • Literatura
  • Música
  • Teatro
  • Artes Visuais
  • Reportagem
  • Política
  • Cinema
  • Televisão
  • Literatura
  • Música
  • Teatro
  • Artes Visuais
Escotilha
Home Crônicas Henrique Fendrich

Augusta, de noite

porHenrique Fendrich
15 de fevereiro de 2017
em Henrique Fendrich
A A
augusta, de noite

Rua Augusta à noite. Foto: Reprodução.

Envie pelo WhatsAppCompartilhe no LinkedInCompartilhe no FacebookCompartilhe no Twitter

Caminhava à noite pela Augusta, que até então eu só conhecia pelo Banco Imobiliário. Voltávamos de uma espécie de barzinho, eu e duas amigas, mais paulistas que o Mário de Andrade, e elas me explicavam o que era cada coisa na rua, e eu me admirava que tanta coisa pudesse conviver no mesmo espaço. Esta São Paulo, são tantas cidades! Já eram três ou quatro dias que eu estava ali, e não cansava de me espantar: eu me sentia bem! Cheguei até a achar que se tratava apenas de uma Curitiba mais crescidinha. Devo ser a única pessoa a enxergar na cidade um certo ar provinciano. Que é a Augusta senão aquele lugar para onde todo mundo vai, aquela avenida de toda cidadezinha do interior onde se concentram os divertimentos noturnos? Era sábado à noite, caminhava pela Augusta.

No dia seguinte eu iria à feira da Liberdade, no dia seguinte um rapaz me abordaria na rua, diria que o Senhor tem planos para mim e quer que eu volte aos seus caminhos. Era São Paulo, e aquele bem poderia ter sido o meu caminho de Damasco, mas qual, sou um miserável pecador, fiz de conta que não era comigo, e continuei o meu passeio, fui até a Praça da Sé. O marco zero de São Paulo! Sou um quatrocentão, descendente dos primeiros paulistas, gente que convivia com o Anchieta, gente que recebia milagres do Anchieta, gente que tinha um dente do Anchieta como amuleto. Deve ser a genética que reverbera em mim, alguma coisa acontece no meu coração.

Que é a Augusta senão aquele lugar para onde todo mundo vai, aquela avenida de toda cidadezinha do interior onde se concentram os divertimentos noturnos?

Seria a manhã de um domingo de sol, o Museu da Caixa Econômica estaria vazio, e da janela do sexto andar haveria um segurança olhando para baixo, de onde poderia enxergar a catedral em que o Dom Odilo, quase-papa, ministrava uma missa, mas sua atenção não estaria voltada para lá, e sim para um grupo de forró que tocava na praça, e em pouco tempo o segurança estaria cantando animadamente, até ser surpreendido por nós, visitantes do museu, e se desculpar dizendo que, se não fosse assim, morreria de tédio ali em cima. São Paulo, domingo. E esses prédios históricos, justo diante de mim? Covardia.

Mas, no sábado, nós ainda estávamos na Augusta, e era como se estivéssemos em uma rua qualquer, uma rua de uma cidade pequena onde não houvesse nenhuma possibilidade de violência, caminhávamos despreocupados, cantando e tudo mais, eu e duas moças, ou seja, três moças, pois não imagino que levassem a minha presença em consideração caso decidissem nos assaltar. Dizem que o número de boates tem diminuído, mas eu ainda achei que eram muitas. Havia também uma faculdade. Estudar na Augusta! E eu que na minha inocência nunca havia visto uma prostituta de perto, tive a oportunidade de ver várias, e quase tomei por uma delas a mulher bem produzida que vinha na direção contrária e nos abordou.

Ela disse que não era dali e estava achando aquela rua meio esquisita, cheia de pessoas estranhas, e queria saber se as casas de show por ali eram seguras. Minhas amigas disseram alguma coisa que a tranquilizou, e ela então seguiu o seu caminho e nós o nosso. Hoje eu posso dizer que, caminhando à noite pela Augusta, faço parte das pessoas consideradas normais e que podem ser abordadas por quem precisa de uma informação qualquer.

Tags: CrônicaPraça da SéRua AugustaSão Paulo

VEJA TAMBÉM

"Drama da mulher que briga com o ex", crônica de Henrique Fendrich.
Henrique Fendrich

Drama da mulher que briga com o ex

24 de novembro de 2021
"A vó do meu vô", crônica de Henrique Fendrich
Henrique Fendrich

A vó do meu vô

17 de novembro de 2021
Please login to join discussion

FIQUE POR DENTRO

Timothée Chalamet está indicado ao Oscar de melhor ator por sua interpretação de Marty Mauser. Imagem: A24 / Divulgação.

‘Marty Supreme’ expõe o mito da autoconfiança americana

5 de fevereiro de 2026
'Guerreiras do K-Pop' desponta como favorito na categoria de melhor canção original no Oscar 2026. Imagem: Sony Pictures Animation / Divulgação.

O fenômeno ‘Guerreiras do K-Pop’

4 de fevereiro de 2026
Rhea Seehorn encarna Carol Sturka diante de um mundo em uma violenta transformação. Imagem: High Bridge Productions / Divulgação.

‘Pluribus’ faz da felicidade obrigatória uma forma de violência

3 de fevereiro de 2026
A escritora argentina Samanta Schweblin. Imagem: Alejandra Lopez / Divulgação.

Em ‘O Bom Mal’, Samanta Schweblin mostra que o horror mora ao lado

30 de janeiro de 2026
Instagram Twitter Facebook YouTube TikTok
Escotilha

  • Sobre
  • Apoie
  • Política de Privacidade
  • Contato
  • Agenda
  • Artes Visuais
  • Colunas
  • Cinema
  • Entrevistas
  • Literatura
  • Crônicas
  • Música
  • Teatro
  • Política
  • Reportagem
  • Televisão

© 2015-2023 Escotilha - Cultura, diálogo e informação.

Sem Resultados
Veja Todos Resultados
  • Reportagem
  • Política
  • Cinema
  • Televisão
  • Literatura
  • Música
  • Teatro
  • Artes Visuais
  • Sobre a Escotilha
  • Contato

© 2015-2023 Escotilha - Cultura, diálogo e informação.