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‘Pé no Chão’, de Rodrigo Ogi: demônios, passagens e o vício em escrever

porRômulo Candal
26 de outubro de 2017
em Música
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Viver de texto não é fácil. O ofício da escrita é semelhante a lidar com demônios — é penoso, dá um puta trabalho, exige uma dedicação intensa e quase nunca é valorizado e remunerado na mesma medida. Isso vale para os mais diversos formatos e meios: crítica musical na internet, jornalismo factual nos jornais impressos, literatura em blogs, poesia em discos de rap. Por isso, abro essa resenha com as palavras de João Antônio, laureado escritor e jornalista brasileiro:

“É preciso realmente acreditar em escrever. Eu acredito que vale a pena escrever, como vale a pena viver. […] Eu não sei como é que eu viveria sem escrever. Aliás, só vale viver escrevendo. Se eu não estiver escrevendo, a minha vida vai muito mal.”

E é o áudio dessa mesma entrevista que Rodrigo Hayashi (ou Rodrigo Ogi, ou Vovô) usa para abrir seu novo trabalho: Pé no Chão. Lançado no dia do aniversário de seu filho e produzido pelo próprio Ogi em parceria com o beatmaker Nave, Pé no Chão traz sete faixas e apresenta ao ouvinte um lado diferente do rapper: um peso mais introspectivo que parece novo a um MC tão costumeiramente afeito a falar do externo, daquilo que vê.

Capa de 'Pé no Chão' de Rodrigo Ogi
Capa de ‘Pé no Chão’ de Rodrigo Ogi. Foto: Reprodução.

Esse Ogi autobiográfico já abre o EP com “Anjo Caído”, boombap pesado que trata de um tema sensível e conhecido por muitos: os perigos do hedonismo, as armadilhas ardilosas que a vida noturna prepara para fisgar seus frequentadores. “Mas o bar é como um mar pra quem não sabe nadar/Acha que dá pé e, quando vê, não dá”, rima Ogi, explicativo. E aí sobram considerações sobre o mal e suas encarnações — do título (“anjo caído” é uma das representações de Lúcifer, a serpente tentadora que caiu do Paraíso) até versos como “Roubei a Winchester 22 de Pablo antes de chegar a Santo Cristo/Dei quatro tiros em Mefisto”, em clara referência a “Faroeste Caboclo”, da Legião Urbana.

[highlight color=”yellow”]A história da própria vida é tema para Ogi em mais vários momentos[/highlight], como na belíssima “Nuvens”, a segunda faixa do EP. Com participação de Marcela Maita (filha do tecladista Marcelo Maita, do seminal grupo de rap Região Abissal e, por consequência, neta de Amado Maita, o responsável por esse discão aqui) e sua marcante interpretação, “Nuvens” fala sobre a infância sofrida de quem cresce sem a figura paterna e se apoia no amor da mãe, mas também termina por perdê-lo alguns anos mais tarde. A canção, emotiva, desemboca no reencontro de Ogi com a alegria e o amor, na figura de seu filho: “E até montanhas movo, amor louco/É óbvio, é outro nível e cai feito um dilúvio/E se eu troco a minha vida pra poder te proteger?/A resposta é previsível: I love you“.

No repertório de temas de Ogi, ainda acabam sobrando críticas à relação entre a humanidade e a tecnologia, em “Redenção”, trap que traz algumas referências sagazes (“Máquina que move o homem pateta/Isaac Asimov agora é um profeta/Entre os mortos vivos, tô vivão, ouvi voz/Que vem ecoando do universo em casca de noz”), e cobranças explícitas a devedores na quase-gangsta “Orrevua” (com jogos de palavras interessantíssimos, como no trecho “Penso que sou Frida Kahlo, sofrido me calo e nisso me inspiro/Pra desenhar sua imagem mil vezes e vender ali num estande de tiro”).

No repertório de temas de Ogi, ainda acabam sobrando críticas à relação entre a humanidade e a tecnologia.

Mas é depois de “Orrevua” que vem o momento mais aguardado pelos fãs de rap: “Insomnia 2”. Continuação de “Insomnia”, faixa de 2014 que marcou época, com Ogi e Emicida produzidos pelo DJ Caíque. Dessa vez, porém, os dois MCs não estão sozinhos, pois Rodrigo convocou mais dois rappers de destaque na nova geração para rimarem com eles: Diomedes Chinaski e Coruja BC1. E cada um dos quatro entregou o que se esperava, do seu jeito: se Chinaski veio tranquilo, apesar de trazer a qualidade costumeira, entregando reverências a seus colegas de faixa (“Botei a veracidade do mercado em xeque/Hoje tô com os ídolos na mesma track”), Coruja aparece na sequência de uma forma totalmente diferente.

Em uma de suas melhores aparições até aqui, Coruja evita a metralhadora de referências que lhe é característica e prefere comentar as críticas feitas a ele, como a comparação frequente a rappers como Emicida e Projota (“Toquei tanto o terror/Que a crítica maior dos hater é me comparar com vencedor”). Depois do refrão, cantado novamente por Marcela Maita, é a vez de Ogi apresentar seu verso, falando sobre os MCs que “assassinou” na cena e trazendo novamente alguma representação de demônio para o EP (“Lá no inferno eu sou visto como Constantine/O diabo inveja o jeito de rimar sublime”). E, por fim, quem acaba roubando a cena é um Emicida full pistola — como diz a gíria —, rimando com uma agressividade que há tempos não se via em seu trabalho. “Pipoca faz piada com abusar da empregada/Isso não choca o movimento que luta pela quebrada/’Não pega nada’, sério? Desisto, irmão/E a quem duvidou de Moisés, boa sorte no debate com o centurião”, vocifera, em cima de mais um beat pesado de Nave.

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Leia também
» Sobre Emicida, Brasil e lições para a sociedade
» A evolução de Rodrigo Ogi

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Aliás, se Rodrigo Ogi continua se destacando em flow e letras, o produtor — nascido Vinícius em Florianópolis e radicado Nave Beatz em Curitiba —, é um dos grandes destaques de Pé no Chão. Cada vez mais consolidado como um dos maiores produtores da história do hip-hop nacional, ele passeia com facilidade entre os variados estilos do hip-hop e sempre traz para o seu trabalho algumas sonoridades de ritmos brasileiros, como a percussão e levadas de samba ou funk carioca. Não à toa, já trabalhou com Rashid, Edi Rock, Emicida, Criolo e vários outros grandes nomes do gênero, com Marcelo D2 — cujo trabalho rendeu uma indicação ao Grammy Latino.

Depois de “Insomnia 2”, ainda há espaço para um encerramento mais cadenciado. Em “Passagem”, Ogi versa sobre mudanças, fins e inícios de ciclos. “Mais um menino nasceu/Outro menino que morreu/E assim como o tempo flui/Um menino eu também fui/E nem precisa ser muito profundo/Pra saber que o mundo mudou há um segundo”, raciocina, com a tranquilidade de um MC que conhece o caminho, sabe de onde veio e onde quer chegar. Menos cronista e mais autobiográfico do que nunca.

Rodrigo Ogi prometeu um LP para o ano que vem e, a julgar pela qualidade de Pé no Chão, dá pra esperar a vinda de algo importante em 2018. Numa entrevista para a Noisey, ele explica que Pé no Chão foi preparado com alguns objetivos: servir como comemoração dupla (para marcar o aniversário de seu filho e o lançamento de um tênis em parceria com a marca de skate ÖUS) e como uma forma de “aquecer [seu] nome no mercado”. Mas a impressão que fica, ao final, é a de que o EP foi lançado porque o Vovô não pode parar de escrever. Se ele não estiver escrevendo, sua vida vai muito mal.

Ouça ‘Pé no Chão’ na íntegra no Spotify

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Tags: boombapcorujaCoruja BC1Crítica MusicalDiomedes ChinaskiEmicidaHip-HopMarcela MaitaMúsicaNaveNave BeatzOgiPé no ChãoRapRap NacionalResenhaRodrigo OgitrapVovô

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