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‘Garota sobre Garota’ mostra como a cultura pop traiu as mulheres nos anos 2000

Ensaio da jornalista Sophie Gilbert, 'Garota sobre Garota' evidencia as maneiras pelas quais a cultura pop ajudou a espalhar a misoginia e a rivalidade entre as mulheres.

porMaura Martins
18 de junho de 2026
em Literatura
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A jornalista inglesa Sophie Gilbert. Imagem: Urszula Soltys / Divulgação.

A jornalista inglesa Sophie Gilbert. Imagem: Urszula Soltys / Divulgação.

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Uma das cenas mais icônicas da cultura pop do começo do século aconteceu em 2007. Passando por problemas enormes, como a perda da guarda dos filhos, a cantora Britney Spears havia raspado totalmente a cabeça e sofria com a pressão da mídia para registrar sua decadência. Em certo dia, ao ser cercada pelos paparazzi, Britney desceu do carro e bateu em um dos fotógrafos com um guarda-chuva. Seu ataque de fúria foi flagrado pelo profissional, que declarou debochado: aquele tinha sido um péssimo dia para ela, mas ótimo para ele.

O episódio, que é citado em Garota sobre Garota: Como a cultura pop colocou uma geração de mulheres contra si mesma (editora Todavia, 2026; tradução de Emanuela Siqueira), da jornalista inglesa Sophie Gilbert, é um excelente exemplo do argumento defendido no livro: de que a cultura pop, no fim dos anos 1990 e início dos anos 2000, foi extremamente nociva para as mulheres. As formas pelas quais fomos tratadas (e espelhadas nas maneiras em que as celebridades eram retratadas) ajudaram a sedimentar uma misoginia (por vezes velada, por vezes bem explícita) que servia como reação aos avanços conquistados pelas mulheres.

Gilbert explicita justamente o backlash que tende a ocorrer cada vez que a situação melhora. Se, no início dos anos 1990, as supermodelos, como Linda Evangelista e Cindy Crawford, que pareciam “amazonas poderosas”, mandavam no mundo da moda, angariando um poder nunca visto, logo o padrão começou a ser substituído por corpos frágeis, quase infantis, como o de Kate Moss. Da mesma forma, o movimento das riot grrrls na música, destacando figuras raivosas como Kathleen Hanna e Courtney Love, perdeu espaço para um grupo fabricado chamado Spice Girls, que chupinharam um slogan de “girl power”, domesticando o feminismo que se prenunciava.

Como a cultura pop conspira contra as mulheres

Capa da edição brasileira de ‘Garota Sobre Garota’. Imagem: Todavia / Divulgação / Montagem: Escotilha.

Ao longo de 10 capítulos repletos de exemplos, revelando uma imensa pesquisa, Sophie Gilbert vai convencendo seus leitores de sua tese – o que, de certa forma, desfaz um pouco a memória afetiva que muita gente tem com os produtos culturais dessa época. O início do século, conforme vai evidenciando, alimentou publicamente um ódio às mulheres que, sutilmente ou não, estimulava também o desprezo das mulheres entre elas mesmas.

Foi a época, por exemplo, da ascensão do rap misógino e das comédias que cultuavam a amizade masculina e reduziam as mulheres a objetos sexuais sem grande agência, mas às quais eles tinham direito (é o que se vê nas franquias American Pie e Se Beber, Não Case!, ou em obras satíricas como Todo Mundo em Pânico)

O pior, no entanto, estava nos produtos revestidos da promessa de empoderamento feminino. Um exemplo talvez seja a icônica Sex and The City, que colocava as personagens como predadoras sexuais aos moldes masculinos, ao mesmo tempo que elas seguiam bem adaptadas aos desejos dos machos. Nas palavras de Gilbert, séries como essa sustentavam uma “fantasia perene dos homens por uma mulher emocionalmente descomplicada e sexualmente disponível”.

O ódio também se instalou na cultura pelos meios que talvez sejam menos óbvios. A pornografia, argumenta a jornalista, se espalhou como um padrão na estética, mas sempre condicionando-se à ideia de que pertencia ao gênero masculino. Por essa razão, imagens de mulheres sofrendo e sendo humilhadas tornaram-se corriqueiras e invadiram o universo da moda, dando vazão a obras de artistas como o fotógrafo Terry Richardson, cujas fotos mimetizavam o explícito do pornô com boas camadas de agressividade.

Ao tentar se inserir na política nacional estadunidense, a conservadora Sarah Palin foi esculhambada inclusive por outras mulheres – como Tina Fey. Imagem: Reprodução.

Não por acaso, os anos 1990 também nos apresentaram a estética heroin chic, que celebrava a imagem das mulheres cada vez mais frágeis e vulneráveis, e sempre muito magras – como se estivessem prestes a ter uma overdose, em cenários decadentes. Mais uma vez, elas iam perdendo poder de todas as maneiras, e as estrelas que pareciam estar no controle de sua sexualidade e sua carreira (como Madonna) eram cada vez mais a exceção.

Mas o escárnio contra o feminino sempre encontra novas maneiras para se manifestar. A ascensão de uma visibilidade onipresentes, proporcionado pela popularização das câmeras portáteis, levou à era dos reality shows. A exposição da intimidade se tornou um produto de consumo, cujas pessoas mais escrutinadas e julgadas, mais uma vez, são as mulheres.

O escárnio contra o feminino sempre encontra novas maneiras para se manifestar.

Com isso, novas hordas de subcelebridades surgiram para o bel prazer do espectador que analisa e avalia suas personalidades e seus corpos. Mas Sophie Gilbert alerta que o objetivo de Garota sobre Garota é observar sobretudo o que essa cultura transformou dentro de nós, “meros espectadores: curiosos e até invejosos das estrelas cuja degradação nos foi oferecida como entretenimento emocionante, perpétuo e sem consequências. Como isso nos condicionou a nos enxergarmos? E, talvez ainda mais importante, como isso nos condicionou a pensar sobre outras mulheres e do que elas seriam capazes?”

A obra termina de forma pessimista ao observar o quanto as mulheres no poder – essencialmente, quando se inserem no contexto da política – continuam sendo reduzidas a partir de leituras sexuais degradantes, ou enquadradas como pessoas essencialmente incompetentes ou oportunistas, como Selina Meyer, em Veep. Em tempos recentes, de Hillary Clinton a Kamala Harris, a misoginia segue operando como ferramenta para apontá-las como indesejáveis em lugares importantes.

Em pleno 2026, quando a era Trump conspira para que as mulheres percam mais direitos, Garota sobre Garota aparece como um livro obrigatório para nos revelar como o machismo se esconde e se espalha a partir do entretenimento.

GAROTA SOBRE GAROTA: COMO A CULTURA POP COLOCOU UMA GERAÇÃO DE MULHERES CONTRA SI MESMA | Sophie Gilbert

Editora: Todavia;
Tradução: Emanuela Siqueira;
Tamanho: 416 págs.;
Lançamento: Fevereiro, 2026.

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Tags: FeminismoGarota sobre garotaGarota sobre garota: Como a cultura pop colocou uma geração de mulheres contra si mesmaLiteraturaSophie GilbertTodavia

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