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‘Madame’ brinca com ‘Cinderela’ e apresenta humor agridoce

'Madame' mostra serviçal alçada compulsória e falsamente ao nível da nobreza num filme que, em meio aos risos, critica o preconceito de classe social.

porTiago Bubniak
10 de setembro de 2019
em Cinema
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Madame, de Amanda Sthers

Maria (Rossy de Palma) e David Morgan (Michael Smiley): mulher de origem humilde encanta homem da nobreza. Imagem: Divulgação.

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Anne (Toni Collette) é aquele tipo de mulher que, de tão supersticiosa, não pensa muito antes de pedir para que sua empregada passe a integrar a lista de convidados do jantar de luxo que está organizando só porque um comparecimento de última hora fez o número inicial de presentes pular de 12 para 13 pessoas. A décima quarta é Maria (Rossy de Palma), transformada por sua patroa em uma falsa convidada rica vinda da Espanha. Apesar de suas negativas, Maria é inserida no seleto grupo e, espirituosa, termina conquistando David Morgan (Michael Smiley), um comerciante de arte britânico. É sobre essa espécie de brincadeira com o clássico Cinderela, no qual o homem vindo da nobreza se encanta pela mulher de origem humilde, que se estrutura Madame (2017), da diretora Amanda Sthers.

É verdade que o início da produção arrasta-se e o filme tem, aqui e ali, cenas desnecessárias. Mas isso não compromete o conjunto. O ponto alto da comédia está na presença de Rossy de Palma, uma das musas de Pedro Almodóvar. Os diálogos e situações confiados a Maria estimulam o espectador a rir com a simples aparição da atriz responsável por encarnar a serviçal que “limpa a roupa de baixo e o banheiro” dos patrões, conforme a própria personagem destaca em um momento que é tão engraçado quanto incômodo para Anne. Quase sempre que Maria surge, o cômico dá o ar da graça.

Os diálogos e situações confiados a Maria estimulam o espectador a rir com a simples aparição da atriz responsável por encarnar a serviçal que “limpa a roupa de baixo e o banheiro” dos patrões.

Toni Collette também tem seus momentos inspirados interpretando a arrogante senhora com um ciúme tão intenso do sucesso amoroso da empregada, mas tão intenso, que beira o patológico. Um dos sinais dessa preocupação doentia é o fato de Anne acabar fazendo uma videoconferência com seu terapeuta direto da própria cama, mesmo diante da indiscrição de ter o marido ao lado. O descontentamento e o desconforto de sua personagem são tão grandes perante os rumos que toma a vida de sua empregada que, ao ver Maria com David em um jantar, chega a externar, sem pudor, a seguinte definição: “É como um desastre em câmera lenta”.

Do humor baseado em estereótipos (“irlandeses bebem demais, franceses são adúlteros e americanos transam como se estivessem invadindo um país de terceiro mundo sem ter que pagar por isso”) à sutileza das interpretações de Toni Collette e Rossy de Palma, Madame resulta em algo agridoce. O riso estimulado pelas situações inusitadas é parceiro do desconforto das cenas que alfinetam o preconceito de classe social. Além disso, há tímidas (mas irônicas e pertinentes) reflexões sobre o conceito de final feliz nas obras de ficção.

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Tags: Amanda SthersCinemaCríticaCrítica CinematográficaCrítica de CinemaMadameMichael SmileyResenhaRossy de PalmaToni Collette

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