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‘Branco Sai, Preto Fica’ discute com potência violência policial e racismo em uma Brasília distópica

'Branco Sai, Preto Fica', primeiro longa-metragem do cineasta Adirley Queirós, mistura documentário e ficção científica em uma obra original e perturbadora.

porPaulo Camargo
1 de abril de 2015
em Cinema
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'Branco Sai, Preto Fica'

Marquim protagoniza o filme de Queiroz. Imagem: Divulgação.

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Em uma noite quente de 1986, possivelmente no mês de março, uma multidão dançava e se divertia em um baile black em Ceilândia, Região Administrativa do Distrito Federal, situada a 40 quilômetros de Brasília. Filhos da classe trabalhadora, muitos deles negros, descendentes diretos de homens e mulheres que ajudaram a erguer Brasília, receberam a visita indesejada da polícia militar, que, em uma ação de violência deliberada, partiu para cima da rapaziada com ferocidade. Não foi nem a primeira nem a última vez que isso ocorreu, mas aquela madrugada nunca foi esquecida, e se transformou, com o decorrer dos anos, em uma lenda compartilhada pelos habitantes da localidade.

Branco Sai, Preto Fica, longa-metragem do cineasta Adirley Queirós, em cartaz nos cinemas brasileiros, nasceu no papel com a proposta de ser um documentário mais convencional, que resgataria os fatos daquela noite, a partir de depoimentos de personagens que não apenas estavam presentes no baile, mas que sofreram ferimentos graves e traumas emocionais.

Queirós contou a este jornalista que, ao conversar com os possíveis personagens, sobretudo com o DJ e hoje ator Marquim, que ficou paraplégico em decorrência de ferimentos sofridos naquela noite de 1986, percebeu que não havia entre eles o interesse de relembrar e falar sobre tudo o que viveram. Entusiasmaram-se, contudo, em participar de um projeto que, de forma indireta, mas não menos contundente, abordasse o ocorrido, que, segundo o diretor, já faz parte do inconsciente coletivo da cidade satélite.

Com o término das obras de construção de Brasília, muitos dos homens e mulheres que nela trabalharam permaneceram no Distrito Federal, mas, ao enfrentar dificuldades para encontrar empregos e moradia, aos poucos foram ocupando áreas próximas ao aeroporto, onde brotaram indesejadas favelas.

Para melhor compreender o que se tornou Branco Sai, Preto Fica, um híbrido de documentário e ficção científica, grande vencedor do Festival de Brasília de 2014 e premiado na Mostra de Tiradentes, é importante, antes, saber um pouco das origens de Ceilândia, que nasceu no início da década de 1970, como resultado de uma operação de remanejamento populacional, chamada por Queirós de “aborto territorial”.

Com o término das obras de construção de Brasília, muitos dos homens e mulheres que nela trabalharam permaneceram no Distrito Federal, mas, ao enfrentar dificuldades para encontrar empregos e moradia, aos poucos foram ocupando áreas próximas ao aeroporto, onde brotaram indesejadas favelas, que acabavam sendo a primeira paisagem ao alcance dos olhos de quem desembarcasse na visionária capital do país.

A solução acabou sendo transferir em torno de 80 mil famílias para uma região localizada a cerca de 40 quilômetros, dentro do que foi batizado de Campanha de Erradicação das Invasões, que é o marco fundador de Ceilândia, que já nasceu de um processo sistematizado de exclusão populacional.

Os bailes blacks, que misturavam ritmos negros norte-americanos, como o soul e o funk, à música brasileira de raízes afro, surgem em Ceilândia espontaneamente no início dos anos 80, atraindo um número crescente de pessoas, em grande parte adolescentes e jovens que se mudaram na primeira infância para a região com seus pais e avós. Marquim, que protagoniza o filme de Queirós, é um deles.

Hoje aos 45 anos, ele tinha 18, 19 anos quando, naquela noite de 1986, sofreu graves agressões da tropa de choque da polícia militar, que, ao chegar aos bailes, sob o pretexto de impedir a ação de traficantes de drogas, e também de conter a violência que, de fato, por vezes eclodia entre os participantes, tinham, como uma de suas frases de intimidação, “Branco sai, preto fica”, título do longa. Sabiam que a maioria dos frequentadores era negra. “Era uma ação fascista, opressora, típica daqueles tempos de pós-ditadura”, conta Queirós, que também foi a muitas dessas festas populares.

No filme, a ação, em vez de se passar em 1986, é transposta para 2076, noventa anos mais tarde. “A história de Brasília é pontuada por essas datas redondas: os 50 anos em cinco, mote do governo Juscelino Kubitschek, a inauguração em 1960, os 50 anos da cidade, celebrados em 2010”, explica o diretor. No filme, Ceilândia tem, neste futuro distópico, a sua condição de gueto oficializada: para entrar na Capital Federal, é exigido dos moradores da periferia um passaporte.

Queirós conta que, embora o substrato de Branco Sai, Preto Fica sejam os acontecimentos de 1986, a histórias verdadeiras de Marquim e de outro personagem, Sartana (vivido por Shokito), um homem que perdeu a perna no conflito, são “fabuladas”, adentrando o território da ficção científica, em uma ambientação influenciada, segundo ele, por Blade Runner – O Caçador de Andoides, de Ridley Scott, porém muito mais próxima da realidade do que, talvez, ele conseguisse chegar com um documentário de perfil mais convencional. O que ele faz é uma obra original, potente, nem sempre fácil de assistir, mas da qual não se consegue sair ileso.

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Tags: Adirley QueirósBlade RunnerBranco Sai Preto FicaCinemaCinema BrasileiroCinema NacionalFestival de BrasíliaMostra de TiradentesRidley Scott

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