Há décadas, Guillermo del Toro carrega Frankenstein como quem carrega um fantasma íntimo. Não é apenas uma referência literária, mas uma ferida que nunca cicatrizou — uma ideia fixa, tecida de amor, espanto e vergonha diante da própria humanidade. Em sua adaptação sonhada durante quase 25 anos, Del Toro retorna à obra de Mary Shelley como quem volta ao corpo de um mito para procurar nele novos pulsos, novas cicatrizes e uma nova forma de falar sobre monstros que não nascem maus, mas se tornam monstruosos porque são negados.
A escolha de abrir o filme com a frase que ele próprio considera o coração do romance — “Há em mim um amor como você mal poderia imaginar e uma fúria como jamais acreditaria” — é mais do que um gesto de admiração. É o mapa emocional de sua leitura. Ao longo do filme, essa tensão entre amor impossível e raiva acumulada costura cada cena, como se o monstro fosse a própria alma humana exposta ao frio do mundo.
Visualmente, o filme é um espetáculo meticulosamente lapidado. Dan Laustsen assina uma cinematografia que parece respirar: a luz se espalha como poeira dourada sobre a neve, a escuridão vibra como um organismo vivo, e cada quadro comporta a sensação de que algo ancestral está prestes a emergir. Os figurinos de Kate Hawley completam o ritual visual — opulentos, decadentes, quase litúrgicos, carregando nas texturas a erosão do tempo e da culpa.
Jacob Elordi entrega ao monstro uma presença que impressiona não tanto pela brutalidade, mas pela dimensão emocional.
Jacob Elordi entrega ao monstro uma presença que impressiona não tanto pela brutalidade, mas pela dimensão emocional. Na cena inicial, quando avança sobre o gelo como um presságio, ele já carrega no corpo a tragédia de alguém que não pediu para existir. A violência que executa contra os soldados não soa como ódio puro — é um gesto desesperado de autodefesa, de reação aos gritos do mundo que o rejeita antes de entendê-lo.
Resgatado pelo capitão interpretado por Lars Mikkelsen, Victor Frankenstein (Oscar Isaac) começa a reconstruir sua trajetória. E Del Toro, ao contrário do que tantas adaptações fizeram, se detém longamente no criador antes de acionar o nascimento da criatura. A infância sob o peso do pai cirurgião, a marca da morte da mãe, o laço tenso com o irmão William (Felix Kammerer) e o amor interditado por Elizabeth (Mia Goth) formam um mosaico emocional que explica, sem justificar, a obsessão de Victor pela vida que se pode fabricar — e pela morte que se tenta derrotar.
Quando finalmente passamos para a perspectiva do monstro, Frankenstein se alarga. É nesse ponto que Del Toro demonstra seu maior talento: olhar para o que é considerado aberrante e revelar nele a humanidade que ninguém quis ver. A criatura aprende a sobreviver pela violência porque não lhe ensinaram outra linguagem. Aprende a desejar afeto porque o mundo o nega. Aprende a transformar dor em fúria porque é a única saída que lhe sobra. Em sua jornada, há um luto contínuo — não apenas pelo que ele perdeu, mas pelo que nunca lhe permitiram ser.
A relação entre Victor e sua criação se torna o eixo moral de Frankenstein. Del Toro não pinta nenhum dos lados com simplicidade. Victor, consumido pela arrogância, enxerga o monstro como falha e ameaça. A criatura, abandonada, vê no criador a origem de sua miséria. Entre ambos, forma-se um laço perverso: uma paternidade distorcida, um espelho rachado no qual nenhum dos dois pode se reconhecer integralmente.
O resultado é uma fábula sombria sobre ambição desmedida — e, sobretudo, sobre a compaixão que se perde quando o desejo de ultrapassar limites se torna maior do que a responsabilidade de cuidar. Por isso a frase de Elizabeth, lançada como acusação e profecia, ecoa como linha de força do filme: “Só monstros brincam de ser Deus.”
Del Toro entrega, enfim, não apenas uma adaptação, mas uma confissão artística: um filme que olha para o passado com reverência e para o presente com inquietação, perguntando até onde vamos quando confundimos criação com poder, e até quem estamos dispostos a ferir para não encarar a nossa própria fragilidade.
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