O cinema que vemos em Sirât, do diretor franco-espanhol Oliver Laxe, não aposta na exposição didática nem na narrativa explicativa. É um filme de atmosfera e experiência sensorial, construído a partir de imagens áridas, som pulsante e uma dramaturgia minimalista. Indicado ao Oscar de melhor filme internacional e som, o longa confirma o reconhecimento internacional ao trabalho rigoroso do cineasta.
A premissa do roteiro é simples: um pai, Luis, vivido pelo excelente Sergi Lopez (de O Labirinto do Fauno), atravessa uma região desértica do Marrocos ao lado do filho em busca da filha desaparecida. O enredo, porém, funciona apenas como eixo estrutural. O que interessa a Laxe é o espaço onde essa busca se dá — um território marcado por tensões invisíveis, por vestígios de conflito e por comunidades provisórias que sobrevivem à margem.
Em meio à paisagem árida, festas clandestinas reúnem jovens que dançam como forma de resistência. A música eletrônica criada por Kangding Ray, mais do que trilha, é elemento dramático central. O desenho de som — um dos pontos altos do filme e justificativa evidente para sua indicação à Academia — trabalha frequências graves e vibrações físicas que deslocam a experiência do campo intelectual para o corporal. O som antecede o sentido e faz o corpo do espectador tremer.
Visualmente, Laxe constrói planos que valorizam a escala do deserto e a fragilidade humana diante de sua vastidão. As vans que cruzam a paisagem parecem organismos precários tentando sobreviver em um ambiente exaurido. A guerra nunca é mostrada frontalmente; surge como rumor distante, como ameaça permanente.
Visualmente, Laxe constrói planos que valorizam a escala do deserto e a fragilidade humana diante de sua vastidão.
A narrativa evita resoluções convencionais. O sofrimento irrompe de forma abrupta, sem preparação melodramática. A jornada de Luis deixa de ser apenas uma busca concreta e se transforma em deslocamento interior. O filme sugere um mundo em colapso silencioso, onde personagens seguem dançando enquanto estruturas antigas desmoronam. Mais contemporâneo impossível.
Na sequência final, quando a música volta a ocupar o espaço do deserto e envolve o corpo do protagonista, e o nosso, a catarse não é discursiva. Não há explicação, apenas entrega física. Sirât encerra reafirmando sua proposta estética: menos interpretação, mais experiência. Um cinema que se sente antes de se compreender.
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