Em 2005, quando o found footage ainda não tinha estourado e os filmes de zumbi ainda eram algumas dezenas, chegava aos cinemas O Abismo do Medo (The Descent, 2005). Segundo longa-metragem do diretor britânico Neil Marshall, a obra tem como protagonistas um grupo de mulheres que, durante uma exploração de cavernas subterrâneas, são atacadas por estranhas criaturas humanóides.
Figura fácil em listas de melhores títulos de horror da década passada, o longa-metragem se tornou cultuado pela capacidade de condensar sustos a um enredo emocionalmente denso. Mais da metade do filme é gasto com o relacionamento das personagens, marcado pelo trauma de uma delas.
Sarah (Shauna Macdonald) reencontra as amigas um ano depois de perder a família em um acidente de carro. A líder do grupo é Juno (Natalie Mendoza), que havia sido amante do marido de Sarah. A tensão toda é mostrada logo nos primeiros minutos da trama, mas nada é dito pelas personagens. Marshall mostra isso ao público por meio da câmera.
O luto acaba sendo um tema que permeia toda a narrativa. Embora a tradução brasileira perca um pouco do duplo sentido da original, a tal descida também serve como uma interpretação para a insanidade da protagonista, que ouve a filha rindo, tem pesadelos com o acidente e imagina barulhos na escuridão.
Se o cinema é um homem, branco, heterossexual e cristão, Neil Marshall faz o que pode para fugir dos estereótipos femininos em O Abismo do Medo.
Um dos temas mais discutidos sobre O Abismo do Medo é o tratamento dado às personagens femininas. Como praticamente todo o elenco é formado por mulheres por opção de Marshall, que contrariou os planos originais do estúdio, o olhar parece bem menos machista do que em outros exemplares do gênero.
Se o cinema é um homem, branco, heterossexual e cristão (leia mais), o diretor fez o que pode para fugir dos estereótipos na representação de Sarah, Juno e o resto do grupo. Relatos dos bastidores revelam que o cineasta chegou a pedir indicações de amigas para trabalhar as cenas de enclausuramento das exploradoras sem parecer masculino demais.

O design da produção é um show à parte. As criaturas, montadas com efeitos visuais práticos, são assustadoras. A caverna, toda construída em estúdio, é bastante claustrofóbica. E a câmera de Marshall parece sempre estar no lugar certo para manipular o público. Como os monstros só aparecem na metade do filme, é possível encontrar inúmeras referências e aparições fora de foco das ameaças quando as personagens ainda estão discutindo uma saída para o novo ambiente.
Sem dar spoilers, mas o final de O Abismo do Medo também merece um comentário. Como o diretor não sabia como encerrar a obra, ele fez dois cortes. Um deles mais otimista e o outro, que está na versão em home vídeo no Brasil, mais aberto a interpretações mirabolantes. Uma pena que a sequência de 2009, que não é horrível, tenha estragado as ambiguidades do original.