• Sobre
  • Apoie
  • Política de Privacidade
  • Contato
Escotilha
Sem Resultados
Veja Todos Resultados
  • Reportagem
  • Política
  • Cinema
  • Televisão
  • Literatura
  • Música
  • Teatro
  • Artes Visuais
  • Reportagem
  • Política
  • Cinema
  • Televisão
  • Literatura
  • Música
  • Teatro
  • Artes Visuais
Escotilha
Home Crônicas Alejandro Mercado

A Minolta do meu pai

porAlejandro Mercado
2 de outubro de 2015
em Alejandro Mercado
A A
"A Minolta do meu pai", crônica de Alejandro Mercado

Imagem: Reprodução.

Envie pelo WhatsAppCompartilhe no LinkedInCompartilhe no FacebookCompartilhe no Twitter

Fotografias antigas guardam muitas doses de saudosismo. Em alguns casos, carregam consigo, também, tristezas, mágoas e um certo rancor. Muito provavelmente seja este o motivo para que algumas pessoas guardem fotos de infância e juventude em gavetas sob forte proteção. Em casa, a relação com a fotografia sempre foi algo próximo. Também pudera, as relações entre fotógrafo, fotografados e fotografia eram diferentes. Não havia esta efemeridade de hoje. As câmeras não eram digitais, necessitavam de filmes fotográficos e, após capturadas, o rolo deveria ser revelado em um estúdio. Como não havia muita certeza do resultado – olhos fechados, chifrinhos de crianças, alguém olhando para o lado e tantas outras coisas eram comuns – o ato fotográfico era uma espécie de ritual.

Com cerca de quatro, cinco anos, chorei muito ao tirar uma fotografia, pois meu pai insistia que em um certo lugar a disposição da luz era melhor e permitiria um retrato mais artístico. Ele só não sabia que meu pé havia ficado estrategicamente posicionado sob um formigueiro, o que me custou algumas mordidas e umas lágrimas, rapidamente secadas na minha camisa Topper da seleção brasileira de 1982, aquela com a taça Jules Rimet no escudo, três estrelas verdes sobre ele e um ramo de café ao lado da taça – numa manobra ousada da CBF e da estatal Instituto Brasileiro do Café (IBC). O que três milhõezinhos de dólares não fazem, não é?

Papai tinha uma câmera Minolta, que à época eu pouco sabia se era boa, ruim ou chinfrim. Mas ficava fascinado com aquele corpo preto, robusto, finalizado com um aço escovado. Uma capa de couro preto a revestia, uma forma de proteger a lente do contato de dedos infantis, tais como os meus. O jogo ficava completo com um flash que, confesso, não me recordo de tê-lo visto sendo usado. Mas foi essa pequena máquina a responsável por boa parte dos registros feitos por minha família. Não que eu queira parecer demasiadamente saudosista, mas aquelas 12 ou 24 poses tinham lá seu charme. Para o bem ou para o mal, eram garantias de álbuns fotográficos que congelavam pequenos momentos, que não apenas não voltam, mas são esquecidos, afinal, a memória nos trai com o passar dos anos.

Sempre que chega o aniversário de alguma de minhas irmãs, rola um aperto no coração por não poder publicar uma foto antiga. Uma se achava feia, a outra também. Elogiá-las, bem, era motivo para ganhar um “ah, como você é falso, irmão”. Resultado: precisei aprender a compensar a ausência visual com um texto profundo e sincero. “Parabéns, muitos anos de vida. Saúde, paz e amor” para alguém da família sempre soou muito impessoal.

Eram garantias de álbuns fotográficos que congelavam pequenos momentos, que não apenas não voltam, mas são esquecidos, afinal, a memória nos trai com o passar dos anos.

Acabou que minha memória ficou com espaços vagos, um buraco que deveria ser preenchido com as lembranças dos aniversários das manas. Como sou o mais novo, caberiam a estas fotos o surgimento de registros sentimentais que nunca verdadeiramente vivenciei. Contudo, pouco vi dos aniversários delas, mesmo em fotos. Por sorte, as fotos juntas, nós três, estas eu tenho muitas. Guardo-as para mim, num acordo extraoficial que fiz com ambas de nunca as tornar públicas.

Nunca tive muitos problemas com meus registros. Gostava de vê-los e, em algumas ocasiões, roubá-los para um arquivo pessoal. Quase todas as cópias eram duplicadas, então imaginava que não dariam falta. As fotos eram guardadas em uma caixa, dessas de livros, sapatos – ok, não sei do que eram as caixas, mas isso é irrelevante para a história. Era um outro momento na vida de meus pais. Os parentes eram mais próximos, os amigos também. A família estava junta, crescendo, prosperando, sorrindo e chorando.

As dificuldades vividas entre os anos 1970 e início dos 1980, eu dificilmente me lembro, a não ser pelas histórias contadas, muitas delas entre fotos vistas, lidas com os olhos e os trechos de memória, que ainda tentam pregar peças em nossas verdades. No fim, construímos uma narrativa que nos importe, que faça sentido. Tristeza não é algo que fica bem em foto, mas vira história, para ser contada assim, para vocês – e para mim, oras.

Tags: CrônicafamíliaFotografiafotos

VEJA TAMBÉM

"A louca da casa", crônica de Alejandro Mercado.
Alejandro Mercado

A louca da casa

29 de setembro de 2017
"A eternidade de Dona Sebastiana", crônica de Alejandro Mercado.
Alejandro Mercado

A eternidade de Dona Sebastiana

15 de setembro de 2017
Please login to join discussion

FIQUE POR DENTRO

Timothée Chalamet está indicado ao Oscar de melhor ator por sua interpretação de Marty Mauser. Imagem: A24 / Divulgação.

‘Marty Supreme’ expõe o mito da autoconfiança americana

5 de fevereiro de 2026
'Guerreiras do K-Pop' desponta como favorito na categoria de melhor canção original no Oscar 2026. Imagem: Sony Pictures Animation / Divulgação.

O fenômeno ‘Guerreiras do K-Pop’

4 de fevereiro de 2026
Rhea Seehorn encarna Carol Sturka diante de um mundo em uma violenta transformação. Imagem: High Bridge Productions / Divulgação.

‘Pluribus’ faz da felicidade obrigatória uma forma de violência

3 de fevereiro de 2026
A escritora argentina Samanta Schweblin. Imagem: Alejandra Lopez / Divulgação.

Em ‘O Bom Mal’, Samanta Schweblin mostra que o horror mora ao lado

30 de janeiro de 2026
Instagram Twitter Facebook YouTube TikTok
Escotilha

  • Sobre
  • Apoie
  • Política de Privacidade
  • Contato
  • Agenda
  • Artes Visuais
  • Colunas
  • Cinema
  • Entrevistas
  • Literatura
  • Crônicas
  • Música
  • Teatro
  • Política
  • Reportagem
  • Televisão

© 2015-2023 Escotilha - Cultura, diálogo e informação.

Sem Resultados
Veja Todos Resultados
  • Reportagem
  • Política
  • Cinema
  • Televisão
  • Literatura
  • Música
  • Teatro
  • Artes Visuais
  • Sobre a Escotilha
  • Contato

© 2015-2023 Escotilha - Cultura, diálogo e informação.