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Sigrid Nunez dá voz à macaquinha de Virginia Woolf em biografia ficcional

Em 'Mitz: A sagui que não teve medo de Virginia Woolf', biografia imaginária fundamentada em documentos, Sigrid Nunez joga luzes sobre Virginia Woolf e o grupo de Bloomsbury.

porMaura Martins
11 de fevereiro de 2026
em Literatura
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Sigrid Nunez com seu gato durante a década de 1980. Imagem: Reprodução.

Sigrid Nunez com seu gato durante a década de 1980. Imagem: Reprodução.

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Leitores no mundo todo nutrem fascínio pelo chamado grupo de Bloomsbury, nome dado a um círculo de intelectuais que se juntou em Londres, no bairro de mesmo nome, no início do século XX. Faz-se referência aqui a pessoas como o casal de escritores e editores Virginia e Leonard Woolf, o economista John Maynard Keynes, o escritor E.M. Forster e os pintores Duncan Grant e Vanessa Bell, pensadores cujas ideias e reflexões sobre vários temas repercutem até hoje.

E talvez nenhum deles tenha atraído tantos admiradores e admiradoras quanto Virginia Woolf, cuja obra ainda não está totalmente traduzida no Brasil. A escritora inglesa – que enfrentou episódios de depressão ao longo da vida e se suicidou em 1941 – é tida como um ícone da literatura feminista, com muito ainda a ser decifrado. Não por acaso, o imaginário em torno dela é riquíssimo, e ganhou um capítulo especial quando, em 1998, a escritora estadunidense Sigrid Nunez lançou Mitz: A sagui que não teve medo de Virginia Woolf (editora Instante, 2025; tradução de Carla Fortino), recentemente editado no Brasil.

Surgido a partir de um convite para um livro infantil, a pequena obra parte de documentos históricos (como os diários e cartas de Virginia Woolf, a autobiografia de Leonard Woolf, e livros sobre Bloomsbury) para imaginar uma biografia de um personagem inusitado: a pequena sagui de origem latino-americana que, em certo momento, foi adotada pelo casal Woolf. Mitz aparece em vários momentos da história dessa família e coroa a afeição que eles, sobretudo Leonard, tinham pelos animais – o mais famoso deles sendo Pinka, uma cocker spaniel cuja morte devastou Virginia.

O adorável livro de Sigrid Nunez encanta pela capacidade da escritora de partir de um episódio central (como o falecimento de alguém próximo, em O Amigo) para tecer considerações sobre a vida e seus dilemas diversos. Em Mitz, a pequena macaquinha ganha personalidade própria, mas também serve como um mote literário para documentar e imaginar a convivência entre os ilustres intelectuais. Contudo, acima de tudo, o livro fala sobre a parceria compartilhada entre este cultuado casal.

A biografia imaginada de uma sagui

Capa da edição brasileira de ‘Mitz’. Imagem: Editora Instante / Arte: Escotilha.

Sigrid Nunez declarou em entrevista que há muito mais não ficção em seu livro do que ficção. Há vários fatos que podem ser verificados, claro, como a própria origem de Mitz na família Woolf. Já passados dos quarenta anos, o casal Virginia e Leonard, que não tinha filhos, “herda” por acaso a sagui quando visitam, em 1934, seu amigo Victor Rothschild. Ele havia comprado a desnutrida macaquinha em um brechó para presentear sua esposa Barbara, que então estava grávida.

Leonard, que era conhecido pelo seu jeito com os animais, oferece-se para cuidar dela enquanto a bichinha se recupera. A herança se torna definitiva, e Mitz acaba fazendo parte da família e participando do círculo de Bloomsbury. Tratada com esmero pelos dois, Mitz parece ser tão apaixonada por Leonard quanto Virginia, que se regozija pela dedicação integral do marido a ela ao longo dos anos em que convalescia por doenças.

Leonard Woolf com a sagui Mitz em 1932. Imagem: Divulgação.

Nas mãos e na mente de Sigrid Nunez, a sagui se torna um recurso imaginativo poderoso para articular os seus personagens reais. Ela serve para que Virginia reflita sobre como seria a existência de um animal. O que os seus olhos revelam? Será que ela é acometida por sentimentos comuns aos humanos? Aqui, Sigrid empresta elementos de um dos livros mais conhecidos de Virginia, Flush: Uma Biografia, no qual elabora uma biografia imaginária do cocker spaniel da poetisa vitoriana Elizabeth Barrett Browning.

O que testemunhamos então é uma rica declaração de Sigrid à história de amor dos Woolf, que ela documenta e inventa ao mesmo tempo. Temos aqui uma dupla que foi casada por 29 anos, até a morte da Virginia, que, ao encerrar a própria vida, deixou ao marido uma carta que terminava dizendo: “Não creio que tenham existido duas pessoas mais felizes do que nós”.

O que testemunhamos aqui é uma rica declaração de Sigrid Nunez à história de amor dos Woolf, que ela documenta e inventa ao mesmo tempo.

Mas a escritora estadunidense não está apenas registrando um casal, mas também o momento histórico tenso em que eles existiam. Entendemos no livro que muitos dos sofrimentos de Virginia Woolf eram intensificados pelas tensões que se acirravam na Europa com a ascensão do nazismo e a iminência de uma nova guerra. No círculo de Bloomsbury, discutia-se sobre a proximidade dos homens da violência e do belicismo. Enquanto isso, os Woolf eram visitados por novas tragédias, como a morte de Julian Bell, sobrinho de Virginia e filho de Vanessa Bell, que havia se voluntariado para lutar na guerra civil espanhola, gerando uma profunda incompreensão em sua família.

Em meio à turbulência, a pequena primata participa de cenas inusitadas. A mais marcante, e que parte da imaginação de Sigrid Nunez, se dá quando os Woolf passam pela cidade alemã de Bonn e cruzam com um desfile militar em homenagem a Hermann Göring, líder do Partido Nacional-Socialista dos Trabalhadores Alemães. Eles são abordados por um soldado nazista, e há uma tensão pelo medo de que ele se dê conta de que Leonard é judeu. Mas os alemães adoram os macacos e Mitz conquista todos que estão naquele momento na rua, fazendo com que os escritores transitem com tranquilidade nas ruas.

Ainda que haja aqui a densidade de todo o contexto psiquiátrico que cercou a vida de Virginia Woolf, Mitz: A sagui que não teve medo de Virginia Woolf é uma visita leve ao universo que se engendrava ao seu entorno. Algo que só uma escritora da estirpe de Sigrid Nunez – com o auxílio de uma pequena macaquinha – poderia nos proporcionar.

MITZ: A SAGUI QUE NÃO TEVE MEDO DE VIRGINIA WOOLF | Sigrid Nunez

Editora: Instante;
Tradução: Carla Fortino;
Tamanho: 112 págs.;
Lançamento: Julho, 2025.

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Tags: BloomsburyEditora InstanteLiteraturaMitz: A sagui que não teve medo de Virginia WoolfSigrid NunezVirginia Woolf

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