• Sobre
  • Apoie
  • Política de Privacidade
  • Contato
Escotilha
Sem Resultados
Veja Todos Resultados
  • Reportagem
  • Política
  • Cinema
  • Televisão
  • Literatura
  • Música
  • Teatro
  • Artes Visuais
  • Reportagem
  • Política
  • Cinema
  • Televisão
  • Literatura
  • Música
  • Teatro
  • Artes Visuais
Escotilha
Home Crônicas Henrique Fendrich

Esta coluna não está em greve

porHenrique Fendrich
11 de novembro de 2015
em Henrique Fendrich
A A
"Esta coluna não está em greve", crônica de Henrique Fendrich

Imagem: Reprodução.

Envie pelo WhatsAppCompartilhe no LinkedInCompartilhe no FacebookCompartilhe no Twitter

Foi quando a crise atingiu a mim, eu digo, atingiu MESMO a mim, no meu ponto fraco, nevrálgico, e eu logo acusei o golpe, fiquei atônito, aturdido, sem saber o que fazer da minha vida dali para frente. Havia passado pelo aumento das passagens de ônibus com relativa tranquilidade, e este foi o meu mal, pois achei que nada de pior podia me acontecer. Mas eis que de repente eu me deparo com a porta da biblioteca fechada, escandalosamente fechada, e isso bem no dia em que eu precisava emprestar algum livro, porque já havia lido tudo o que havia para se ler na minha casa. E me veio então uma terrível imagem: eu, naquela noite, tendo que dormir sem nada para ler. Ah, meus amigos, nunca a minha consciência política bateu tão forte e, houvesse dois ou três ali comigo, eu teria começado alguma revolução. Fiquei, no entanto, desorientado, diante do cartaz que anunciava a paralisação.

A biblioteca estava fechada, e ainda está, porque os servidores estão em greve. Os servidores estão em greve porque ainda não receberam o dinheiro que cabe a eles. O dinheiro que cabe a eles ainda não foi pago porque o governo não tem dinheiro para pagar. O governo não tem dinheiro para pagar porque… ora, o diabo sabe por que é que o governo não tem dinheiro pagar. Tudo o que sei é que, em consequência disso, a porta da biblioteca está fechada, o que me impede de emprestar livros e adquirir conhecimento para que, quem sabe, um dia não haja mais tantos motivos para tudo entrar em greve.

E, se for ver, é tudo mesmo, é difícil o dia em que não haja pelo menos uma grevezinha atravancando a vida por aí. Se não são os servidores são os bancários, são os professores, são os carteiros, são os motoristas de ônibus, são os caminhoneiros… Sempre que muitas greves começam a pipocar ao mesmo tempo eu lembro de um livro do Anthony Burgess chamado 1985. Sim, tem um livro chamado 1985 e, sim, ele tem relação com o 1984 do Orwell. E digo mais, o 1985 está muito mais próximo de acontecer do que o 1984. Porque ele fala justamente sobre um aumento sem precedentes no número de greves. A coisa chega ao ponto de os bombeiros entrarem em greve e por isso não atenderem o chamado para apagar o incêndio de um hospital. O prédio é todo destruído e morre todo mundo que estava lá. E assim muitas outras greves acontecendo ao mesmo tempo, em todos os setores, e que acabam fazendo do governo um mero fantoche.

Mas eis que de repente eu me deparo com a porta da biblioteca fechada, escandalosamente fechada, e isso bem no dia em que eu precisava emprestar algum livro.

Sei lá, não me parece que estamos longe disso. E não se pense com isso que essa grevaiada toda não possa ser justa – normalmente é. Mas é preocupante, sem dúvida é preocupante quando um cidadão de bem não consegue arrumar um livro para ler antes de dormir. E como não parece que essa crise vai passar tão cedo, gostaria de tranquilizar os meus quatro ou cinco leitores e garantir que não pretendo privá-los dessa coluna, por mais justas que sejam as reivindicações e por mais necessária que pareça uma paralisação do setor. Resistirei ainda que o Sindicato dos Cronistas me ameace com a desfiliação. Não decorre daí que eu não tenha espírito de classe, mas unicamente que não consigo ficar muito tempo sem escrever.

Dito isso, consolemo-nos mutuamente e sigamos em frente.

Tags: Anthony BurgessCriseCrônicagreveparalisação

VEJA TAMBÉM

"Drama da mulher que briga com o ex", crônica de Henrique Fendrich.
Henrique Fendrich

Drama da mulher que briga com o ex

24 de novembro de 2021
"A vó do meu vô", crônica de Henrique Fendrich
Henrique Fendrich

A vó do meu vô

17 de novembro de 2021
Please login to join discussion

FIQUE POR DENTRO

Timothée Chalamet está indicado ao Oscar de melhor ator por sua interpretação de Marty Mauser. Imagem: A24 / Divulgação.

‘Marty Supreme’ expõe o mito da autoconfiança americana

5 de fevereiro de 2026
'Guerreiras do K-Pop' desponta como favorito na categoria de melhor canção original no Oscar 2026. Imagem: Sony Pictures Animation / Divulgação.

O fenômeno ‘Guerreiras do K-Pop’

4 de fevereiro de 2026
Rhea Seehorn encarna Carol Sturka diante de um mundo em uma violenta transformação. Imagem: High Bridge Productions / Divulgação.

‘Pluribus’ faz da felicidade obrigatória uma forma de violência

3 de fevereiro de 2026
A escritora argentina Samanta Schweblin. Imagem: Alejandra Lopez / Divulgação.

Em ‘O Bom Mal’, Samanta Schweblin mostra que o horror mora ao lado

30 de janeiro de 2026
Instagram Twitter Facebook YouTube TikTok
Escotilha

  • Sobre
  • Apoie
  • Política de Privacidade
  • Contato
  • Agenda
  • Artes Visuais
  • Colunas
  • Cinema
  • Entrevistas
  • Literatura
  • Crônicas
  • Música
  • Teatro
  • Política
  • Reportagem
  • Televisão

© 2015-2023 Escotilha - Cultura, diálogo e informação.

Sem Resultados
Veja Todos Resultados
  • Reportagem
  • Política
  • Cinema
  • Televisão
  • Literatura
  • Música
  • Teatro
  • Artes Visuais
  • Sobre a Escotilha
  • Contato

© 2015-2023 Escotilha - Cultura, diálogo e informação.