• Sobre
  • Apoie
  • Política de Privacidade
  • Contato
Escotilha
Sem Resultados
Veja Todos Resultados
  • Reportagem
  • Política
  • Cinema
  • Televisão
  • Literatura
  • Música
  • Teatro
  • Artes Visuais
  • Reportagem
  • Política
  • Cinema
  • Televisão
  • Literatura
  • Música
  • Teatro
  • Artes Visuais
Escotilha
Home Crônicas Henrique Fendrich

No dia dos meus anos

porHenrique Fendrich
15 de julho de 2015
em Henrique Fendrich
A A
"No dia dos meus anos", crônica de Henrique Fendrich

Imagem: Reprodução.

Envie pelo WhatsAppCompartilhe no LinkedInCompartilhe no FacebookCompartilhe no Twitter

No dia dos meus anos, eu achei que merecia jantar. Conhecia um restaurante barato e ia para lá sempre que sobrava algum dinheiro ou me sentisse especialmente feliz. Nessa época eu andava sempre sozinho e já havia me acostumado com a ideia de passar também o aniversário assim. Escurecia, e já não eram muitas as pessoas que eu encontrava na calçada. Mas um homem vinha na minha direção e me abordou. Pedia dinheiro. Menti que não tinha e, como para provar minhas palavras, bati com a mão no bolso. Minhas chaves estalaram e tive certeza que o homem achou que fossem moedas. Mostrei-me espantado com a descoberta de moedas no meu bolso e resolvi dar a ele algumas que realmente trazia comigo. Mas o homem achou pouco: não era suficiente para comprar o pacote de fraldas das suas crianças. E foi andando ao meu lado, tentando me convencer a dar pelo menos dez reais. Argumentou que preferia pedir a roubar e assegurou que Deus iria me abençoar. “Não tenho trocado”, menti.

Chegávamos a uma parte perigosa da cidade. Havia três ou quatro botecos ali perto com alguns tipos suspeitos à entrada. O homem sugeriu que fôssemos até um deles para trocar o meu dinheiro. Perguntei se não seria melhor procurar uma farmácia, onde eu mesmo poderia comprar o pacote de fraldas, mas ele fez de conta que não me ouviu. Insisti na pergunta e ele respondeu que não, que o melhor era dar o dinheiro, porque aí ele compraria as fraldas perto de sua casa, onde era mais barato. Não acreditei. Ele começou a falar nos filhos, gêmeos, enquanto caminhávamos até um dos botecos, em busca de um trocado que eu já tinha comigo.

“Foi quando eu e o homem das fraldas notamos que o sujeito começava a se afastar. Antes que ficássemos sem a nota, corremos atrás.”

Foi o próprio homem que tomou a iniciativa de perguntar ao atendente se ele trocava nota de 50. Mas não trocava, nem ele nem nenhum atendente dos outros botecos do lugar. Um dos tipos suspeitos se aproximou e ofereceu ajuda. Disse que sabia onde trocar. “Me dê a nota”, pediu. Eu dei, e vimos o homem ir perguntar no mesmo boteco em que já havíamos perguntado. Também ele, é claro, não teve sucesso. Foi quando eu e o homem das fraldas notamos que o sujeito começava a se afastar. Antes que ficássemos sem a nota, corremos atrás.

O sujeito se mostrou surpreso por pensarmos que tentaria fugir. “Eu sou bastante conhecido por aqui”, explicou. “Esse aqui eu conheço há muito tempo, não é não?”, disse ao segurança de um prédio por onde passávamos. O rapaz se atrapalhou e respondeu: “O senhor deve estar me confundindo…”. Eu já não tirava os olhos do sujeito quando ele se virou para mim e quis saber: “És brasileiro?”. Devo ter a ingenuidade de um turista. Respondi, seco: “Sim”. Ele se divertiu muito com a minha resposta e passou a me imitar: “Sim. Sim”.

Chegamos a mais um barzinho. Também ali não trocavam, mas o sujeito conseguiu a ajuda de um senhorzinho que bebia. Ele tirou um maço de notas do bolso e trocou a minha. O sujeito recebeu o dinheiro e o passou às minhas mãos. Para a minha surpresa, sem pedir comissão. O homem das fraldas é que me chamou de lado e pediu os seus dez reais. Paguei como se fosse uma dívida. Ele me aconselhou a sair dali o mais rápido possível, de preferência por outro caminho. Foi o que fiz. Eu ainda precisava jantar, aquele era o dia dos meus anos.

Tags: botecosCrônicanoitepedintesuspeitostrocar dinheiro

VEJA TAMBÉM

"Drama da mulher que briga com o ex", crônica de Henrique Fendrich.
Henrique Fendrich

Drama da mulher que briga com o ex

24 de novembro de 2021
"A vó do meu vô", crônica de Henrique Fendrich
Henrique Fendrich

A vó do meu vô

17 de novembro de 2021
Please login to join discussion

FIQUE POR DENTRO

Timothée Chalamet está indicado ao Oscar de melhor ator por sua interpretação de Marty Mauser. Imagem: A24 / Divulgação.

‘Marty Supreme’ expõe o mito da autoconfiança americana

5 de fevereiro de 2026
'Guerreiras do K-Pop' desponta como favorito na categoria de melhor canção original no Oscar 2026. Imagem: Sony Pictures Animation / Divulgação.

O fenômeno ‘Guerreiras do K-Pop’

4 de fevereiro de 2026
Rhea Seehorn encarna Carol Sturka diante de um mundo em uma violenta transformação. Imagem: High Bridge Productions / Divulgação.

‘Pluribus’ faz da felicidade obrigatória uma forma de violência

3 de fevereiro de 2026
A escritora argentina Samanta Schweblin. Imagem: Alejandra Lopez / Divulgação.

Em ‘O Bom Mal’, Samanta Schweblin mostra que o horror mora ao lado

30 de janeiro de 2026
Instagram Twitter Facebook YouTube TikTok
Escotilha

  • Sobre
  • Apoie
  • Política de Privacidade
  • Contato
  • Agenda
  • Artes Visuais
  • Colunas
  • Cinema
  • Entrevistas
  • Literatura
  • Crônicas
  • Música
  • Teatro
  • Política
  • Reportagem
  • Televisão

© 2015-2023 Escotilha - Cultura, diálogo e informação.

Sem Resultados
Veja Todos Resultados
  • Reportagem
  • Política
  • Cinema
  • Televisão
  • Literatura
  • Música
  • Teatro
  • Artes Visuais
  • Sobre a Escotilha
  • Contato

© 2015-2023 Escotilha - Cultura, diálogo e informação.