• Sobre
  • Apoie
  • Política de Privacidade
  • Contato
Escotilha
Sem Resultados
Veja Todos Resultados
  • Reportagem
  • Política
  • Cinema
  • Televisão
  • Literatura
  • Música
  • Teatro
  • Artes Visuais
  • Reportagem
  • Política
  • Cinema
  • Televisão
  • Literatura
  • Música
  • Teatro
  • Artes Visuais
Escotilha
Home Crônicas Henrique Fendrich

Silêncio de igreja

porHenrique Fendrich
30 de março de 2016
em Henrique Fendrich
A A
"Silêncio de igreja", crônica de Henrique Fendrich.

Imagem: Reprodução.

Envie pelo WhatsAppCompartilhe no LinkedInCompartilhe no FacebookCompartilhe no Twitter

Houve um tempo em que éramos católicos, apostólicos e romanos, e num dia como hoje, uma Sexta-Feira Santa, guardávamos não apenas o jejum das carnes, mas sobretudo o do barulho. Era, afinal, o dia em que o Cristo morria e, em consideração ao seu sofrimento, deveríamos sustentar um silêncio pesado e reverente, falar apenas o indispensável, sempre em voz baixa. Não se cogitava que, em dia tão triste, distraíssemos-nos ouvindo música – e, para evitar que caíssemos em tentação, a própria rádio da cidade deixava de funcionar. Mesmo as brincadeiras que fazíamos enquanto crianças possuíam certo ar de solenidade, temerosos que estávamos de desrespeitar um preceito sagrado e atrair sobre nós o castigo dos céus. Transportávamos, em suma, para dentro de casa o mesmo ambiente que nos envolvia quando íamos à igreja.

Com isso tudo, esperava-se que refletíssemos sobre os mistérios da paixão do Senhor, coisa que sabidamente teríamos dificuldade de fazer se nos deixávamos envolver pelos sons que o mundo oferece. Não sei como as coisas acontecem hoje em dia, talvez já seja possível ser católico sem dedicar um dia inteiro à memória da sua morte. É possível que já cause estranheza recomendações como a do padre Antônio Vieira, que dizia para dedicarmos todo dia um tempo para pensarmos em nossa própria morte. É que já não estamos dedicando um tempo para pensar em coisa alguma, tão mergulhados estamos nas distrações do nosso tempo, algumas até silenciosas, mas que inquietam o nosso espírito, que dirá pensar em coisas tão aborrecidas quanto a nossa finitude ou a salvação da nossa alma.

Mas resiste, até onde eu sei, o silêncio do interior de uma igreja, e eu mesmo, sempre que posso, entro em uma delas para melhor usufruí-lo. Ah, quantas decisões eu não haveria de tomar, quantas ideias não haveriam de me surgir, a que conclusões eu não conseguiria chegar, se tivesse a chance de experimentar, todos os dias, o silêncio do interior de uma igreja.

Ah, quantas decisões eu não haveria de tomar, quantas ideias não haveriam de me surgir, a que conclusões eu não conseguiria chegar, se tivesse a chance de experimentar, todos os dias, o silêncio do interior de uma igreja.

Fomos desacostumados a parar para pensar, desaprendemos a refletir, a procurar verdades dentro de nós mesmos, fomos deseducados na arte de contemplar, a inútil arte de contemplar, que não nos traz dinheiro, nem prestígio, e que, no entanto, até pode ser que nos traga alguma paz. Olhamos ao redor e vemos placas, outdoors, teletelas como as que o Orwell previu, e tudo nos informa do que acontece no mundo, e em toda parte é possível ficar conectado, online, disponível, mas tudo isso, no fim das contas, também adia o nosso terrível encontro conosco mesmo. A ele dedicamos, como já não vamos à igreja, apenas os momentos que passamos embaixo do chuveiro e aqueles em que, deitados e semiconscientes, aguardamos a chegada do sono reparador.

Escrevo isso perto das três da tarde, hora simbólica em que o Cristo expirou, o sol escureceu, a terra tremeu, fenderam-se as pedras e os sepulcros se abriram – foi uma confusão dos diabos. Era quando, em criança, eu sentia o maior pesar, como se ele estivesse morrendo de novo, no exato momento em que eu olhava no relógio: três horas! Morreu para a salvação de muitos, embora também muitos sejam os que já se consideram satisfeitos por ter esta morte rendido mais um feriado.

Tags: CrônicaSexta-feira Santasilêncio

VEJA TAMBÉM

"Drama da mulher que briga com o ex", crônica de Henrique Fendrich.
Henrique Fendrich

Drama da mulher que briga com o ex

24 de novembro de 2021
"A vó do meu vô", crônica de Henrique Fendrich
Henrique Fendrich

A vó do meu vô

17 de novembro de 2021
Please login to join discussion

FIQUE POR DENTRO

Timothée Chalamet está indicado ao Oscar de melhor ator por sua interpretação de Marty Mauser. Imagem: A24 / Divulgação.

‘Marty Supreme’ expõe o mito da autoconfiança americana

5 de fevereiro de 2026
'Guerreiras do K-Pop' desponta como favorito na categoria de melhor canção original no Oscar 2026. Imagem: Sony Pictures Animation / Divulgação.

O fenômeno ‘Guerreiras do K-Pop’

4 de fevereiro de 2026
Rhea Seehorn encarna Carol Sturka diante de um mundo em uma violenta transformação. Imagem: High Bridge Productions / Divulgação.

‘Pluribus’ faz da felicidade obrigatória uma forma de violência

3 de fevereiro de 2026
A escritora argentina Samanta Schweblin. Imagem: Alejandra Lopez / Divulgação.

Em ‘O Bom Mal’, Samanta Schweblin mostra que o horror mora ao lado

30 de janeiro de 2026
Instagram Twitter Facebook YouTube TikTok
Escotilha

  • Sobre
  • Apoie
  • Política de Privacidade
  • Contato
  • Agenda
  • Artes Visuais
  • Colunas
  • Cinema
  • Entrevistas
  • Literatura
  • Crônicas
  • Música
  • Teatro
  • Política
  • Reportagem
  • Televisão

© 2015-2023 Escotilha - Cultura, diálogo e informação.

Sem Resultados
Veja Todos Resultados
  • Reportagem
  • Política
  • Cinema
  • Televisão
  • Literatura
  • Música
  • Teatro
  • Artes Visuais
  • Sobre a Escotilha
  • Contato

© 2015-2023 Escotilha - Cultura, diálogo e informação.