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Home Crônicas Yuri Al'Hanati

A boa telefonista

porYuri Al'Hanati
8 de agosto de 2016
em Yuri Al'Hanati
A A
"A boa telefonista", crônica de Yuri Al'Hanati.

Imagem: Reprodução.

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A telefonista foi mandada embora. De acordo com a rádio peão, foi porque ela se metia demais na vida das pessoas. Poderia ter usado umas aspas aqui, para separar o discurso indireto livre, mas não. De fato ela se metia demais na vida das pessoas, e por vezes tentou resolver ela mesma o problema de alguns clientes irados que deveriam tratar dos assuntos com a gerência. Sei por mim também. Eu, que deixava minha bolsa no armarinho em sua saleta, nunca deixei o recinto sem que ela arrancasse de mim duas ou três respostas sobre aleatoriedades da minha vida. Desde minha biografia, como o lugar onde nasci, até fatos corriqueiros, como o que eu trouxe para o almoço.

Curiosamente, ela não deixava transparecer muito sobre sua própria vida. Talvez conhecesse a fome de fofoca que lhe consome por dentro, mas tirando seus hobbies – tricotar e colecionar estátuas africanas, que ela chama de “meus negrinhos” — não se sabe muito sobre sua própria vida. Por isso não sei bem como ela reagiu à notícia. Na última semana, falou pouco e se preocupou mais em não perder o sorriso e a simpatia que, ela acreditava, eram essenciais na carreira de telefonista. Vivia contando histórias de empresas que pegaram telefonistas sem experiência e que tiveram problemas incrivelmente desproporcionais, e acreditava no sindicato de classe para resolver os problemas maiores, como o salário e a carga horária semanal. Provavelmente era uma dessas pessoas que acreditava que o trabalho a definia, portanto. Se orgulhava de atender o telefone e passar recados a tal ponto que toda sua fala ficou caracterizada pela entonação típica das telefonistas, que pergunta de maneira cantada e responde como se fosse uma pergunta.

Curiosamente, ela não deixava transparecer muito sobre sua própria vida. Talvez conhecesse a fome de fofoca que lhe consome por dentro, mas tirando seus hobbies – tricotar e colecionar estátuas africanas, que ela chama de ‘meus negrinhos’ – não se sabe muito sobre sua própria vida. Por isso não sei bem como ela reagiu à notícia.

É a segunda telefonista que vejo ser mandada embora. Com a primeira não sei o que houve. Era muito macabra e gostava de falar sobre morte de maneira insistentemente inadequada. Gostava muito dos que tinham morrido e especulava sobre sua própria desencarnação.

A nova telefonista não trabalha com a porta aberta. Deixa a saleta fechada e não se mete na vida de ninguém nem passa tempo demais na copa comendo bolacha e tomando café. Já ligou três vezes pro gerente para perguntar o ramal de outro gerente. Já faz um tempo que não sabe quem é quem. A chefia se refere a ela como “fora da casinha” — marcado aqui com aspas que, quiçá o tempo há de dissolver.

Tags: Crônicadescriçãoescritóriofofocaperfiltelefonetelefonistavida interna

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