• Sobre
  • Apoie
  • Política de Privacidade
  • Contato
Escotilha
Sem Resultados
Veja Todos Resultados
  • Reportagem
  • Política
  • Cinema
  • Televisão
  • Literatura
  • Música
  • Teatro
  • Artes Visuais
  • Reportagem
  • Política
  • Cinema
  • Televisão
  • Literatura
  • Música
  • Teatro
  • Artes Visuais
Escotilha
Home Crônicas Yuri Al'Hanati

A velha pele

porYuri Al'Hanati
3 de julho de 2017
em Yuri Al'Hanati
A A
Crônica - A Velha Pele

Vista aérea de Resende. Foto: Reprodução.

Envie pelo WhatsAppCompartilhe no LinkedInCompartilhe no FacebookCompartilhe no Twitter

A cronista Marleth Silva disse uma vez que mudar de cidade é como trocar de pele. Especialmente, mudar para uma cidade maior traz a alegoria para mais perto da realidade. Ou pelo menos assim queremos: a vila-exoesqueleto que deixamos para trás ainda pode servir para o corpo dos que ficam, a incerteza de se estar grande para ela até o derradeiro mistério da saída. Do mesmo modo, voltar à cidade que um dia foi tão familiar quanto a própria vida causa um efeito contrário: experimentamos uma roupa que não cresceu como nós. Detalhes que mudam numa paisagem para sempre estática.

Uma rua que muda de sentido, um novo barzinho moderno, o mesmo pé-sujo em frente à mesma igreja. Abriram um shopping novo, mas já não deu certo. A pracinha onde continuam dando os primeiros beijos muitos anos depois da minha partida. Milhares de rostos desconhecidos passando por ruas que posso cruzar de olhos fechados. A normalidade da paisagem estática, os problemas do dia a dia que não precisam mais da minha atenção.

Do mesmo modo, voltar à cidade que um dia foi tão familiar quanto a própria vida causa um efeito contrário: experimentamos uma roupa que não cresceu como nós. Detalhes que mudam numa paisagem para sempre estática.

Em sua tetralogia Napolitana, a escritora italiana Elena Ferrante faz sua narradora, Lenu, sair de sua pequena vila em Nápoles para estudar em Pisa. A personagem então passa boa parte de sua nova vida preocupada em ser identificada como provinciana, pelo dialeto que não pode abandonar por completo, ao mesmo tempo em que procura demonstrar para seus conterrâneos que se tornou uma mulher cosmopolita e bem-sucedida. Enfim, Lenu anseia para que a experiência da mudança transpareça em todos os seus gestos. Deseja distinguir-se de um povo diluído na normalidade para mergulhar em outra diluição, enfim, quando sabe que não será nem mais nem menos do que é: uma mulher do interior morando na cidade grande.

Há, portanto, um deslocamento da própria identidade em uma transação como essa. Comigo a coisa acontece da mesma forma. Volto a visitar as ruas da cidade de onde morei rezando com toda a fé de que disponho para que Heráclito ainda faça sentido. Que Deus não me permita ser o mesmo me banhando nesse rio pela segunda vez. Mas com a minha pele nova, contemplo a velha. Está gasta pelo tempo, mas ainda guarda o meu formato, minhas imperfeições, meus traumas e minha teogonia. Difícil ser turista na própria cidade, mais difícil ainda na cidade onde já morou. Tudo crava referência no passado. Melhor assim, penso. Antes revisitar o nó da estagnação do que perder a referência de vez. Essa rua já foi a minha.

Tags: cidadeCrônicaElena FerranteMarleth SilvamudançaPeléresende

VEJA TAMBÉM

James Gandolfini em Família Soprano
Yuri Al'Hanati

O mistério da morte

5 de abril de 2021
Wood Naipaul
Yuri Al'Hanati

Aprender a ser Biswas

29 de março de 2021
Please login to join discussion

FIQUE POR DENTRO

No documentário de Alain Berliner e Elora Thevenet, Brigitte Bardot aparece de costas, em sua fazenda. Imagem: Timpel Pictures / Divulgação.

‘Bardot’ perde a oportunidade de revelar a musa francesa – É Tudo Verdade

7 de maio de 2026
O pianista Mauro Continentino é um dos entrevistados de 'Retiro: A Casa dos Artistas'. Imagem: Reprodução.

‘Retiro: A Casa dos Artistas’ emociona ao dar protagonismo e voz aos moradores – É Tudo Verdade

6 de maio de 2026
Meryl Streep, Anne Hathaway e Stanley Tucci retornam a seus papeis na sequência dirigida por David Frankel. Imagem: 20th Century Studios / Divulgação.

‘O Diabo Veste Prada 2’ e a crise no jornalismo

6 de maio de 2026
Sobrinho do músico, Jaafar Jackson interpreta o tio na cinebiografia dirigida por Fuqua. Imagem: Lionsgate / Divulgação.

‘Michael’ aposta na memória e desvia do conflito

5 de maio de 2026
Instagram Twitter Facebook YouTube TikTok
Escotilha

  • Sobre
  • Apoie
  • Política de Privacidade
  • Contato
  • Agenda
  • Artes Visuais
  • Colunas
  • Cinema
  • Entrevistas
  • Literatura
  • Crônicas
  • Música
  • Teatro
  • Política
  • Reportagem
  • Televisão

© 2015-2023 Escotilha - Cultura, diálogo e informação.

Sem Resultados
Veja Todos Resultados
  • Reportagem
  • Política
  • Cinema
  • Televisão
  • Literatura
  • Música
  • Teatro
  • Artes Visuais
  • Sobre a Escotilha
  • Contato

© 2015-2023 Escotilha - Cultura, diálogo e informação.