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Home Literatura

Seja marginal: a redescoberta da literatura de mimeógrafo

porJonatan Silva
8 de julho de 2016
em Literatura
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destino poesia record
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Contradizendo a si mesma, a poesia marginal se tornou parte do establishment literário brasileiro. Primeiro foi o lançamento de Toda Poesia, do curitibano Paulo Leminski (1944 – 1989), em 2013. Na esteira vieram também novas edições de Ana Cristina Cesar (1952 – 1983), Torquato Neto (1944 – 1972) e Waly Salmão (1943 – 2003). Neste ano, Ana C. foi também a homenageada da Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), coroando a literatura de mimeógrafo como um importante movimento artístico do século XX.

Refazendo a trajetória dessa trupe, o pesquisador Ítalo Moriconi selecionou os trabalhos dos quatro poetas e também de Cacaso (1944 – 1987), o único ainda não redescoberto, para a antologia Destino: Poesia (Record, 157 págs.). O livro, uma espécie de caleidoscópio de uma geração, é um importante documento para que se compreenda não apenas a literatura brasileira, mas também o contexto político em que os movimentos estão inseridos.

A poesia marginal é uma resposta à contracultura, que pedia uma posição e o engajamento dos artistas brasileiros, desembocando no tropicalismo que funcionou também como uma ruptura aos costumes pequeno-burgueses da sociedade dos anos 70. Por outro lado, havia a repressão dos anos de chumbo, a caça aos comunistas e a dificuldade de se publicar um livro. Essa combinação, que mais parece uma receita, permitiu que a literatura – assim como a música, as artes plásticas e o cinema – se reinventassem e ressurgissem como uma mobilização contra o status quo.

Se há algo que os nossos “marginais” nos ensinaram foi a driblar o que é imposto, atirado goela abaixo.

“Um poema só sobrevive se consegue afetar leitores de épocas que já nada têm a ver com seu momento de origem”, explica Moriconi na apresentação do livro. À exceção de Ana C., todos os outros poetas tiveram uma passagem como letristas. Leminski foi parceiro de Gil e Caetano, Torquato Neto também – e acabou eternizado em “Go Back”, musicada pelos Titãs. Waly Salomão teve seus poemas cantados pelos tropicalistas e pelos Paralamas do Sucesso e Lulu Santos. Cacaso colaborou com Francis Hime, Edu Lobo, Tom Jobim, Djavan e outros. E que maneira, senão a música, de se eternizar – e popularizar, sem pejorativos – um poema?

Marginais?

Não existe mal nenhum em ver a contracultura ser assimilada, devorada pelas massas. Não seria uma questão de tempo – e uma questão óbvia de sistemática – que ela retorne com novos moldes? É preciso reascender a chama do atrevimento que a poesia marginal despertou. Hoje não se usam mais os mimeógrafos… E os e-books? Não simbolizam o mesmo? (Ao menos até certo ponto.) Moriconi foi sábio nas escolhas dos poemas e de seus autores. Sem dúvida, Cacaso é a surpresa mais grata, já que estava escondido – Lero-Lero, sua obra completa, saiu pela Cosac Naify em 2002, mas está fora de catálogo.

Se há algo que os nossos “marginais” nos ensinaram foi a driblar o que é imposto, atirado goela abaixo. Destino: Poesia cumpre seu papel de apresentar ao leitor novato um belíssimo e rico panorama do que foi a década de 1970 e como ela ainda reverbera nas veias culturais, veias ainda abertas.

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Tags: Ana Cristina CésarCacasoCríticaDestino: PoesiaDitadura MilitarÍtalo MoriconiLiteratura de MimeógrafoLiteratura MarginalPaulo Leminskipoesia marginalRecordTorquato NetoTropicáliaTropicalismoWaly Salomão

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