Luís Henrique Pellanda, com sua pena afiada e olhar sensível, e por vezes implacável, transforma o isolamento em literatura e desafia o leitor a enxergar o que talvez preferisse ignorar. Em A Crônica Não Mata- Notas do Isolamento (editora Arquipélago, 2025), obra escrita durante o período da pandemia de Covid-19, o autor não apenas observa, mas disseca a solidão imposta a sua Curitiba, revelando suas contradições mais cruas. O flâneur cede lugar ao prisioneiro, e a cidade, antes vasta e imprevisível, torna-se um palco de ausências e espectros.
As “notas do isolamento” registram a quarentena falando de leituras, sonhos, noites de insônia e notícias, com aforismos e reflexões sobre a cidade esvaziada. Quando o cronista retoma seus trabalhos e passeios, não está mais no cenário que se habituou a retratar em sua literatura, mas em um espaço novo, com pessoas transformadas, ao mesmo tempo familiares e estranhas. Os textos, mesmo fragmentados, aos pedaços, convidam os leitores para uma mergulho muito pessoal na subjetividade do autor, suas referências literárias, suas idiossincrasias e, por meio de seu olhar um tanto seu, descobrir uma cidade reinventada.
A Curitiba dessas páginas não é apenas uma cidade esvaziada; é um organismo ferido, um espaço onde o silêncio grita e os rostos desaparecem antes mesmo de serem vistos.
A Curitiba dessas páginas não é apenas uma cidade esvaziada; é um organismo ferido, um espaço onde o silêncio grita e os rostos desaparecem antes mesmo de serem vistos. Da sacada de seu apartamento na Rua Amintas de Barros, Pellanda se torna um voyeur involuntário, astuto, porém vulnerável, da ruína e da espera.
O mundo ao seu redor se fragmenta, e ele, em resposta, remonta os cacos com palavras — afiadas, certeiras, incômodas. Seu olhar não se contenta com a superfície; ele perfura o cotidiano, expondo os gestos automáticos, os rituais vazios, as esperanças puídas pelo tédio e pelo medo.
Escreve que, durante suas madrugadas insones, as paredes de seu apartamento ficam mais finas, permitindo que ouça gritos, sussurros, choros, soluções, gemidos. Suas gatas passam a segui-lo, acreditando que que ele e elas são iguais.
A escrita de Pellanda é mais que um testemunho; é uma denúncia da nossa incapacidade de lidar com o incontrolável. A impotência do cronista, como ele mesmo sugere, está em não poder matar ou salvar seus personagens — mas e se a própria literatura for uma forma de condenação?

As crônicas aqui reunidas não buscam conforto, mas inquietação, melancolia. Elas se recusam a ser meros registros passivos de um tempo sombrio – são facas fincadas na pele da realidade. Como leitor, é incontornável a identificação, passados alguns ano desde o fim de pandemia. As histórias, os insights de Pellanda, são, também, um pouco nossos.
Ler A Crônica Não Mata é um desafio estimulante, um convite para encarar de frente o vazio e as incertezas que ainda nos rondam, apesar de a pandemia hoje parecer algo remoto. Pellanda não nos entrega um relato complacente, ou condescendente – ele nos sacode, nos obriga a ver o que o isolamento revelou: um mundo frágil, uma cidade em suspensão, uma humanidade sempre à beira do colapso, carente, por vezes alheia e egoísta – como não pensar aqui nos homens que jogam tênis nas quadras do clube Círculo Militar, para quem a tragédia ao redor parece mero detalhe. Mesmo nas ruínas, no entanto, há beleza. E talvez seja exatamente isso que nos salva.
Escritor e jornalista, Pellanda nasceu em Curitiba (PR), em 1973, e atuou como editor e repórter em diversos veículos de comunicação, incluindo a Gazeta do Povo e a Revista Bravo!. Autor de obras como O Macaco Ornamental (2009), Nós Passaremos em Branco (2011) e Calma, Estamos Perdidos (2019), consolidou-se como um dos mais importantes cronistas brasileiros da atualidade, explorando com precisão a intersecção entre os espaços urbanos e a fragilidade humana.
A CRÔNICA NÃO MATA: NOTAS DO ISOLAMENTO | Luís Henrique Pellanda
Editora: Arquipélago;
Tamanho: 144 págs.;
Lançamento: Março, 2025.
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