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‘Humilhado: Como a Era da Internet Mudou o Julgamento Público’: a lógica perversa da humilhação online

Em 'Humilhado: Como a Era da Internet Mudou o Julgamento Público', Jon Ronson investiga como redes sociais nos tornaram algozes cruéis em nome do civismo.

porMaura Martins
29 de janeiro de 2016
em Literatura
A A
Jon Ronson

O autor Jon Ronson. Imagem: Reprodução.

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Se você habita algum ambiente virtual, certamente já riu da foto de alguém que fez alguma bobagem, ou revoltou-se com o post de alguma pessoa que lhe pareceu preconceituosa. Talvez tenha compartilhado no seu perfil a piada infame de Kim Kataguiri sobre as feministas, ou simplesmente curtido quando alguém postou. Quem sabe você se associou a alguma corrente contra alguma pequena empresa ou serviço e distribuiu um protesto alheio em sua página. Mas dificilmente você já parou para refletir sobre as possíveis consequências desta “ferramenta do civismo” – a internet – que todos temos em mãos. Será que você já ajudou a destruir a vida de alguém que (seja honesto) talvez não tenha feito nada de tão grave assim?

O novo livro do jornalista Jon Ronson – conhecido por obras como O Teste do Psicopata e Os Homens que Encaram Cabras – investiga um fenômeno urgente: a potencialização da humilhação em tempos de redes sociais. Humilhado: Como a Era da Internet Mudou o Julgamento Público (Editora BestSeller, do grupo editorial Record) parte, inicialmente, de uma hipótese bastante interessante: a de que as condenações feitas nas redes teriam um funcionamento semelhante às punições públicas, vigentes até o século XIX, nas quais os condenados sofriam suplícios na frente de todos, de forma a servir de exemplo para a sociedade. A expectativa da ostentação da punição era de educar a plateia e evitar novos crimes. Este sistema acaba sendo superado e o corpo do condenado passa a ser escondido (ele sofre nas prisões, longe da visão de todos, e não mais em praça pública). Ao observar o que fazemos na internet, Ronson começa a crer numa espécie de reavivamento desta lógica, com uma diferença: ao invés de operar por um sistema penal autorizado para isso, por mais cruel que ele fosse, na internet, todos somos os algozes a condenar e conspirar, supostamente, por “justiça”.

Assim, Ronson se dedica a esmiuçar o fenômeno atual da vergonha, ao assistir cotidianamente ao destroçamento das vidas de muitos. Pessoas que fizeram piadinhas machistas e foram fotografadas ou filmadas por alguém que estava sentado ao seu lado, e acabaram perdendo seu emprego quando o comentário chegou nas redes; autoridades que tiveram casos sexuais revelados e tiveram que dar justificativas sobre suas vidas pessoais em público; jornalistas que cometeram erros e tiveram suas reputações, construídas por anos de trabalho, destruídas em poucos segundos.

Ao observar o que fazemos na internet, Ronson começa a crer numa espécie de reavivamento desta lógica, com uma diferença: ao invés de operar por um sistema penal autorizado para isso, por mais cruel que ele fosse, na internet, todos somos os algozes a condenar e conspirar, supostamente, por ‘justiça’.

Nada disso é novo, poderia dizer alguém, não sem razão; afinal, a vergonha e a humilhação não nascem nem dependem do surgimento da internet. Mas há um elemento crucial ligado à tecnologia, que é o fato de ela perpetuar a memória e torná-la disponível ad eternum, ao alcance de um clique. Ou seja, a perversidade dos resultados do Google torna o “crime” da pessoa condenada nas redes para sempre cravado no seu corpo, tal qual a letra escarlate costurada na roupa da adúltera no romance de Nathaniel Hawthorne. Além disso, em razão de os algozes estarem revestidos de anonimato – são muitos os dedos desconhecidos que apontam -, esta punição costuma ser ainda mais cruel e sem qualquer tipo de empatia.

As histórias investigadas por Jon Ronson são impressionantes. Algumas são bastante famosas, como o caso da relações públicas Justine Sacco, que postou tweets de mau gosto em sua conta pessoal (ao estilo: “Indo para África. Espero não pegar AIDS. Brincadeira. Sou branca!”), enquanto embarcava para a Cidade do Cabo, virou trending topics no Twitter durante o voo e teve sua carreira encerrada ao aterrissar. Com prazer sádico, milhares esperavam o momento em que Justine chegasse ao destino e visse o estrago feito por eles (até uma hashtag foi criada, #hasjustinelandedyet). Mesmo que tenha sido um tanto sem graça, fica claro que a punição sofrida por Justine foi muito maior que o feito. Há histórias de homens de negócios que passaram incólumes por escândalos sexuais. Há ainda a investigação de toda uma “indústria da vergonha”, destinada a resgatar carreiras nos tempos digitais ou fazer as vítimas de humilhação “expurgarem” aquilo que as consome. Um dos grandes trunfos de Humilhado, portanto, é que o autor não simplesmente relata as histórias, mas se dedica a toda uma investigação sobre o fenômeno contemporâneo da humilhação.

Assim, o texto de Jon Ronson se enriquece por trazer não apenas os resultados de sua análise, mas expor os processos de sua produção. Explico: Ronson começa a obra com algumas certezas que vão sendo desconstruídas ao longo do livro. É como se caminhássemos na pesquisa junto com ele. Por exemplo, em certo momento, ele entrevista Max Mosley, um chefão da Fórmula 1 que, inacreditavelmente, saiu ileso do seguinte escândalo: ele, que é filho de colaboradores do nazismo, foi flagrado em uma orgia sadomasoquista com prostitutas vestidas com uniformes nazistas. O jornalista queria entender o que Mosley fez para sair do episódio com mais simpatia das pessoas do que tinha antes. Sua primeira conclusão – a de que a franqueza de Max teria feito com que a vergonha não colasse nele – é desmentida logo adiante, após investigar outros casos. Jon Ronson conclui que escândalos sexuais não tendem a ser ligados a homens, que sofrem humilhações de outros tipos, mas apenas às mulheres.

Com texto leve, no qual o autor ri inclusive de si mesmo, repleto de metáforas espirituosas, inspiradas em referências da cultura pop (que poderão irritar alguns e agradar outros leitores), o estilo de Jon Ronson ainda faz que tenhamos uma boa fruição deste tema, que é denso e precisa ser enfrentado. Ele mesmo não deixa de enfrentar um paradoxo do livro: o fato de que, ao esmiuçar os casos das pessoas humilhadas, ele inevitavelmente colabora para eternizar as humilhações sofridas por elas. O fim da leitura deixa um gosto amargo de culpa (certamente, eu e você já colaboramos em algum momento para a vergonha de alguém) e algum sentimento de paranoia, fazendo o leitor pensar muitas vezes antes de postar alguma coisa nas nossas páginas. Talvez todos devêssemos ler este livro.

HUMILHADO: COMO A ERA DA INTERNET MUDOU O JULGAMENTO PÚBLICO | Jon Ronson

Editora: BestSeller;
Tradução: Mariana Kohnert;
Tamanho: 304 págs.;
Lançamento: Outubro, 2015.

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Tags: Book ReviewEditora RecordHumilhadoHumilhado: Como a Era da Internet Mudou o Julgamento PúblicoInternetJon RonsonJornalismoLiteraturaMax MosleyPuniçãoResenha

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