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‘Lincha Tarado’: #VivaDalton

Em 'Lincha Tarado', Dalton Trevisan, provoca o leitor: o realismo arredio, sem cores ou pudores, esboçado em uma prosa concisa e irresistível.

porAnna Carolina Azevedo
22 de junho de 2015
em Literatura
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O autor Dalton Trevisan

O autor Dalton Trevisan. Imagem: Reprodução.

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O “Desafio dos 50 livros” – meta pessoal para 2015 – teve início a partir da leitura de relatos biográficos, uma estratégia para ganhar ritmo rumo às linhas vertiginosas da ficção. Em seguida, a curadoria inclinou-se à produção literária contemporânea. A tarefa de pinçar apenas oito nomes em um universo de bons autores estrangeiros em atividade foi um tanto ingrata. Instigada por algumas pesquisas e muitas indicações, histórias de Jeffrey Eugenides, Juan Pablo Villalobos, Jennifer Egan, Neil Gaiman, Junot Díaz, Valter Hugo Mãe, Alejandro Zambra e J.M. Coetzee foram eleitas para habitarem os meus dias e as páginas desta Contracapa nos últimos meses.

Chega a vez de uma nova etapa. Depois de viajar o mundo, os olhos voltam-se para o nosso chão, o nosso pinhão. Eis uma expedição que pretende percorrer nossas entranhas angustifólicas sob a ótica de escritores daqui, da gente. Nos próximos capítulos, o desafio é descobrir os territórios de Leminski, Karam, Snege e de outros autores paranaenses.

Para assinalar a estreia da série Pinheiros-do-paraná, prestemos reverência à maior de nossas araucárias: Dalton Trevisan, autor agraciado, em 2012, com o Prêmio Camões – a principal honraria literária da língua portuguesa – e que, no último dia 14, completou 90 anos.

Dalton é o mais ativo dos contistas brasileiros. À exceção do romance A Polaquinha, de 1985, a obra do curitibano se faz sobre os livros de contos. Dentre mais de quarenta títulos lançados ao longo de sua carreira, optei por um que se exibe ousado desde a capa até a última frase: Lincha Tarado, de 1980.

Trata-se de um texto transgressor, destituído de idealizações ou de qualquer romantismo barato, que se expõe na frieza da realidade ordinária. Um livro em consonância com a obra, distinta pela revelia aos padrões culturais dominantes.

No livro, Dalton instiga o leitor com aquilo que faz dele um dos grandes nomes da literatura em língua portuguesa: o realismo arredio, esboçado em uma prosa concisa e irresistível. A insensatez das relações humanas – das mais pervas às puritanas – bem como o universo “desgracido” tipicamente daltoniano, das prostitutas frias, das mulheres frígidas, dos velhos fracos por meninas, estão presentes na coletânea. Trata-se de um texto transgressor, destituído de idealizações ou de qualquer romantismo barato, que se expõe na frieza da realidade ordinária. Um livro em consonância com a obra, distinta pela revelia aos padrões culturais dominantes. Um livro em dissonância com os olhares moralistas que pululam redes sociais e nas esquinas da “Curitiba que eu viajo“. Lincha tarado, (re)lincha “família brasileira”.

Os textos reservam clara identidade narrativa entre si. O enredo vai se completando a cada novo conto sobre Maria, João e André, sustentando um eixo narrativo central intercalado por pequenas tramas adjacentes. “Todas as histórias – a mesma história e uma nova história”. Nesse sentido, Lincha Tarado pode funcionar tal qual uma novela dividida em capítulos. Os contos parecem repetir-se em ecos contínuos; em verdade, as repetições vão revelando novas pistas, que fazem com que o leitor descubra outras camadas de interpretação a partir de detalhes acrescidos à trama. O efeito de redundância criado por Dalton revela uma visão mais abrangente dos personagens e dá ainda mais impacto ao discurso.

Desde sempre e para sempre, a transgressão aos modelos da prosa tradicional (tanto em relação à linguagem, como em relação às temáticas e abordagens) e também da sociedade tradicional é a espinha dorsal da literatura de Dalton. Na voz de um narrador esquivo, à margem, sua obra escarra a vida privada, sem excesso, sem comédia, sem pudor, sem juízo de valor. Lincha Tarado é assim. O Vampiro de Curitiba é, pois, assim. Assim é Dalton Trevisan.

Durante pouco mais de um ano, fui vizinha do mais importante dos nossos autores. Poucos passos separavam o meu apartamento da sombria fachada daquela esquina entre a Amintas de Barros e a Ubaldino do Amaral. O Alto da XV, eu e o vampiro, unidos pelas mesmas ruas, calçadas, sirenes. Todos os dias, meu caminho cruzava seu reduto, naquela esperança tímida de flagrá-lo, descobri-lo. Nada. A mim, Dalton Trevisan revelou-se de outras formas, na plenitude de sua criação literária. Encolhido em seu espaço, agigantado em suas páginas, “o autor não vale o personagem“; não é preciso vê-lo para que se faça protagonista desta famigerada Curitiba perdida. Em sua obra, Dalton vive. #VivaDalton

O Contra dessa capa representa uma bravata: leia mais. Descubra o Paraná.

LINCHA TARADO | Dalton Trevisan

Editora: Record;
Tamanho: 144 págs.;
Lançamento: Setembro, 1980.

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Tags: contosCrítica LiteráriaDalton TrevisanLincha TaradoLiteraturaLiteratura CuritibanaO Vampiro de Curitiba

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