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‘No seu pescoço’: Chimamanda desconstrói mitos sobre a África

Em 'No seu pescoço', Chimamanda Ngozi Adichie apresenta histórias sobre a Nigéria contemporânea.

porMarilia Kubota
26 de setembro de 2017
em Literatura
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'No seu pescoço': Chimamanda desconstrói mitos sobre a África

Imagem: Reprodução.

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Ler No seu pescoço (Companhia das Letras, 2017) é arrepiar-se com a lucidez de Chimamanda Ngozi Adichie sobre como o Outro – o estrangeiro, a mulher, o de classe inferior – é visto numa sociedade hierárquica. Apesar do enfoque social, as narrativas não são panfletárias, muito menos estereotipadas. Não espere encontrar paisagens selvagens e personagens esfomeados. Há complexidade em cada drama, vivido por nigerianos em seu país natal ou nos Estados Unidos.

A autora não entrega todas as informações ao leitor. Cita a Guerra de Biafra, que devastou a Nigéria, de 1967 a  1 970; o vento harmatã, que sopra de dezembro a março em toda a África Ocidental, vindo do Saara; a língua igbo, falada por um dos maiores grupos étnicos do continente. Tudo é incorporado à narração e torna-se familiar, sem muitas explicações a fatos históricos, geográficos ou culturais.

A construção da estrutura narrativa não é linear. Parte do que é contado se passa na cabeça dos personagens. O leitor familiariza-se com os dramas íntimos dos personagens. Em “A Embaixada Americana”, conhecemos o conflito de uma jornalista na fila da embaixada, em Lagos, para tirar seu visto. Seu filho de 4 anos foi morto por policiais que procuravam seu marido, um jornalista antigovernista. Dias antes, ela o ajudou a fugir para o país vizinho e ele emigrar. Ao rememorar a tragédia, a mulher recua e vai embora sem tirar o visto.

A construção da estrutura narrativa não é linear. Parte do que é contado se passa na cabeça dos personagens.

Outro conto em que a alteridade prevalece é “Uma experiência privada”. Durante um conflito entre muçulmanos e cristãos na cidade de Kano, na Nigéria, a estudante de medicina, Chika é salva por uma feirante muçulmana. Para se protegerem, elas se escondem numa loja abandonada. Ali, compartilham uma relação temporária de intimidade.

“’Eu me lavar e rezar’, diz a mulher, falando mais alto. Ela sorri pela primeira vez, mostrando dentes todos do mesmo tamanho, os da frente manchados de marrom. Suas covinhas formam buracos em suas bochechas, fundos o suficiente para engolir a metade de um dedo e incomum num rosto tão magro. A mulher lava desajeitadamente as mãos e o rosto na torneira e então tira o lenço do pescoço e o estende no chão. Chika desvia o olhar. Ela sabe que a mulher está de joelho, virada para Meca, mas não observa. A prece é como o choro da mulher, uma experiência privada, e Chika lamenta não poder deixar a loja. Ou não poder, ela também, rezar, acreditar num deus, ver uma presença onisciente no ar parado da loja. Chika não se lembra de uma época em que sua ideia de Deus não era indefinida, como o reflexo no espelho embaçado de um banheiro, e não se lembra sequer de ter tentado limpar o espelho.” (página 59)

“Jumping Monkey Hill” retrata, com ironia, a perfumaria do ambiente literário, em que o Africanismo rouba as vozes de seus protagonistas, os escritores africanos. O crítico inglês representa a arrogância de uma elite que usa a cultura para sustentar o racismo e o machismo. No seu pescoço apresenta uma face mais intimista deste tema. O relacionamento entre uma nigeriana e um americano faz aflorar o racismo e o classismo. O final aberto indica que há uma chance para o casal interétnico.

As perversões que o machismo cultivado pelas matriarcas nigerianas provocam é o tema de duas histórias. “Cela Um” e “Amanhã é tarde demais”. Nas duas, os meninos são privilegiados na disputa com as irmãs. No primeiro caso, o jovem torna-se delinquente e é preso. No segundo, é a garota, que, movida pelo ressentimento, arma uma trama macabra.

A escritora mostra que nigerianos não têm vida fácil no país hospedeiro, sejam ricos ou pobres, como se vê com os casais nos contos “Réplica”, “Na segunda feira da semana passada” e “O temor”. Já “Os casamenteiros” apresenta cenas iniciais de um casamento arranjado, e como o marido tenta se adaptar à sociedade americana, apagando os traços da cultura nativa.

A sensibilidade de Chimamanda é mais aguçada em contos que resgatam a Nigéria nostálgica, como em “Fantasmas”. Um professor de matemática aposentado ao reencontrar um colega revive os fantasmas da Guerra de Biafra. Embora não tenha sido vitimada no conflito, a mulher do professor, morta, é quem o convoca a recusar o novo mundo pós-guerra.

É “A historiadora obstinada” a mais contundente miniatura da antologia. Ao perder marido, Nwangba é roubada pelos cunhados. Para recuperar as propriedades, entrega o filho a uma missão católica para que aprenda “língua dos brancos”. Mas ele acaba traindo a comunidade, assumindo os valores ocidentais. A redenção de Nwangava vem através da neta. Quando a garota entra na universidade, pesquisa sobre a cultura ancestral e resgata toda a história de seu povo.

Chimamanda Ngozi Adichie nasceu na Nigéria em 15 de setembro de 1977 e aos 19 anos se mudou para os Estados Unidos. Na Filadélfia, cursou comunicação e ciências políticas. É mestre em escrita criativa pela Universidade Johns Hopkins, e mestre de Artes e Estudos Africanos pela Universidade de Yale. É a primeira mulher chefe da Administração da Universidade de Nigéria, hoje se divide trabalhando no seu país de origem e nos EUA com literatura. Em 2003, publicou seu primeiro romance, Hibisco roxo, e o segundo, Meio sol amarelo, em 2006. Americanah só viria em 2013, mas antes disso ela já havia ganhado seis prêmios.

NO SEU PESCOÇO | Chimamanda Ngozi Adichie

Editora: Companhia das Letras;
Tradução: Júlia Romeu;
Tamanho: 256 págs.;
Lançamento: Julho, 2017.

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Tags: Chimamanda Ngozi AdichieclassismoCompanhia das LetrasCrítica LiteráriaFeminismoJulia RomeuLiteraturaLiteratura AfricanaLiteratura NigerianamachismoNigériaNo seu pescoçoRacismoResenha

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