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Entre o corpo e a terra perdida, ‘Repatriação’ é uma travessia sem retorno

Em ‘Repatriação’, romance de estreia de Ève Guerra, o luto de uma filha se confunde com a impossibilidade de retorno a uma pátria — seja ela o corpo do pai, a memória da infância africana ou a língua francesa que a narra.

porAlejandro Mercado
13 de novembro de 2025
em Literatura
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Ève Guerra venceu prêmio por seu primeiro romance, 'Repatriação'. Imagem: JF Paga / Divulgação.

Ève Guerra venceu prêmio por seu primeiro romance, 'Repatriação'. Imagem: JF Paga / Divulgação.

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“Eu matei meu pai.” A frase, repetida como um refrão ao longo de Repatriação, é o eixo que sustenta o romance de estreia da franco-congolesa Ève Guerra (2025, Companhia das Letras, trad. Diogo Cardoso). A narradora, Annabella Morelli, vive em Lyon quando recebe a notícia da morte do pai, um engenheiro italiano que passou a vida entre obras, florestas e fantasmas em países africanos. A partir desse telefonema — trivial e devastador — começa uma travessia que é, ao mesmo tempo, geográfica, afetiva e linguística: repatriar o corpo do pai morto e, ao fazê-lo, tentar repatriar a si mesma.

A autora estrutura o livro em dois planos que se entrelaçam como as margens de um mesmo rio: o presente, em que Anna lida com a burocracia, a culpa e o colapso emocional após a morte do pai; e o passado, que retorna em fragmentos, memórias da infância no Congo e no Gabão, onde o cotidiano doméstico se confundia com o eco violento do colonialismo. Não há linearidade. A narrativa avança como uma correnteza de lembranças quebradas, entre a febre e a lucidez, entre a perda e a revelação.

Com uma escrita de fôlego poético e desarticulada de qualquer lógica convencional, Ève Guerra transforma o relato íntimo em uma experiência de linguagem. O texto pulsa como uma ferida aberta, feito de repetições, elipses e imagens de dissolução — portas que batem, corpos em trânsito, a água como fronteira e purgação. Há momentos em que a prosa beira o delírio, evocando Marguerite Duras, Annie Ernaux e Marie NDiaye; mas Guerra não se contenta em reproduzir uma tradição. Seu gesto literário é o de uma arqueóloga da voz mestiça, alguém que cava nas ruínas coloniais da língua francesa para reconstruir um pertencimento possível.

‘Repatriação’ é o primeiro romance de Ève Guerra, conhecida pela poesia. Imagem: Companhia das Letras / Arte: Escotilha.

A repatriação do corpo paterno, que move a ação, nunca se cumpre plenamente. É antes um processo simbólico de retorno impossível. O pai morto — branco, europeu, autoritário — encarna a presença espectral da Europa em solo africano. Já a filha, entre a França e o Congo, entre o amor e o ressentimento, representa uma geração que vive o desamparo pós-colonial como destino íntimo. Ao buscar o corpo do pai, Anna confronta não apenas a ausência dele, mas também o colapso de toda uma genealogia moral e política.

A força de Repatriação está nesse cruzamento entre o íntimo e o histórico. O que começa como o drama de uma mulher tentando lidar com a morte se transforma num retrato da herança colonial inscrita nos corpos e nas línguas. Cada gesto da narradora — preencher um formulário, pedir ajuda à embaixada, tentar telefonar de uma cabine — torna-se um ato de resistência contra a dissolução de si. A dor privada encontra sua medida no desastre coletivo.

O que começa como o drama de uma mulher tentando lidar com a morte se transforma num retrato da herança colonial inscrita nos corpos e nas línguas.

A linguagem de Ève Guerra é de uma intensidade física rara. As palavras parecem carregadas de suor e poeira, como se tivessem atravessado os mesmos caminhos que a protagonista. Há algo de brutalmente verdadeiro na forma como a autora retrata o corpo feminino como território de memória e de culpa. A sexualidade, a violência e o silêncio se misturam a uma busca obstinada por expressão, como se cada frase fosse um modo de exorcizar o não-dito.

Se Repatriação é um romance sobre o luto, é também sobre o fracasso da tradução entre mundos — entre a África e a Europa, entre pai e filha, entre passado e presente. Guerra escreve como quem tenta recompor, palavra a palavra, uma língua que já nasceu exilada. O resultado é uma prosa de assombro e beleza, em que a dor se torna a única forma possível de pertencimento.

Ao final, o leitor compreende que o título do livro é irônico: repatriar é impossível. O corpo do pai, como a identidade da narradora, jamais encontrará solo firme. A viagem de Anna é o retrato de uma geração que vive no entre-lugar, “sem país, sem corpo, sem nome”. Ève Guerra, com seu lirismo seco e cortante, faz dessa errância um gesto literário e político. Repatriação não é um retorno, mas um recomeço — um nascimento às avessas, feito de perda e linguagem.

REPATRIAÇÃO | Ève Guerra

Editora: Companhia das Letras;
Tradução: Diogo Cardoso;
Tamanho: 184 págs.;
Lançamento: Julho, 2025.

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Tags: Companhia das LetrasÈve GuerraLiteraturaRepatriação

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