David A. Graham parte de um arquivo: não um documento acadêmico elegante, mas um manual prático — o Diretrizes para os Líderes do chamado Projeto 2025 — e transforma aquilo que poderia ser apenas matéria-prima burocrática em uma narrativa de alerta democrático. Em O Projeto: Como a extrema direita está transformando os Estados Unidos (2025, Zahar; trad. Berilo Vargas), ele demonstra que não estamos diante apenas de um conjunto de proposições ideológicas, mas de um roteiro com meios técnicos, pessoas e estratégias detalhadas para redesenhar o funcionamento do Executivo estadunidense. Graham é jornalista político com extensa experiência cobrindo a política estadunidense (The Atlantic, Newsweek, The Wall Street Journal). Seu principal mérito na obra é, justamente, tornar visível o mecanismo: ideias que, quando encadeadas com pessoal, ordens executivas esboçadas e um banco de nomes para ocupar cargos, convertem-se em instrumentos de poder.
O retorno de Donald Trump ao governo dos Estados Unidos causou espanto global, já que o político nunca escondeu seus desejos (e métodos) para deteriorar a chamada (um tanto arrogante) “maior democracia do mundo”. Mas quem acompanha a política do país de perto notou que as estruturas conservadoras do país não pararam entre um mandato e outro, na realidade, seguiram firmes na construção das estruturas que pudessem sedimentar a “tomada” do poder.
A investigação de Graham cruza leituras atentas do texto do próprio Diretrizes para os Líderes, perfis dos arquitetos do projeto e o acompanhamento de atos administrativos que, segundo o autor, espelham o plano traçado pelos think tanks. O leitor é guiado por capítulos que explicam, com paciência jornalística, como se operacionaliza a captura do aparato estatal: desmonte do serviço público meritocrático, expansão de nomeações políticas, uso estratégico de agências como o Departamento de Justiça, e preparação de ordens executivas prontas para implantação. Essa atenção ao detalhe burocrático é uma das forças do livro: ele transforma o prosaico — formulários, listas de pessoal, rascunhos de ordens — em evidência política.

Graham também aponta o caráter normativo do projeto: não se trata apenas de reforma administrativa, mas de uma reprogramação dos valores que devem guiar o Estado — restaurar “a família”, criminalizar práticas reprodutivas, enquadrar ciência e educação a um eixo conservador e reconfigurar a política externa. Ao fazê-lo, o livro posiciona o Projeto 2025 no espectro mais amplo das estratégias contemporâneas de direita para institucionalizar mudanças duradouras sem recorrer a rupturas extra-constitucionais. Essa sutileza — transformação via técnica e decisão administrativa — é o que torna a leitura perigosamente persuasiva: o golpe não é sempre espetacular, às vezes é burocrático.
Há, no entanto, limites a considerar. Primeiro: Graham joga com um gênero híbrido — reportagem investigativa e ensaio de ciência política — e, em alguns momentos, privilegia a urgência interpretativa sobre a comparação sistêmica. Leitores com formação acadêmica desejariam um enquadramento teórico mais robusto — por exemplo, comparações com outras experiências históricas de captura burocrática ou modelagens prospectivas mais detalhadas. Segundo: o autor, embora rigoroso com documentos e nomes, tende a assumir correlações causais entre plano e ação governamental que, por mais plausíveis, exigiriam maiores provas processuais para serem apresentadas como determinísticas. Em outras palavras: Graham demonstra forte correlação e plausibilidade causal, mas o salto para inevitabilidade das transformações permanece uma inferência — e o livro reconhece as incertezas desse processo.
O livro posiciona o Projeto 2025 no espectro mais amplo das estratégias contemporâneas de direita para institucionalizar mudanças duradouras sem recorrer a rupturas extra-constitucionais.
No campo jornalístico, o livro se mostra exemplar: documentação abundante, leitura crítica do material de origem e capacidade de tradução para o público geral sem perda do rigor. Para repórteres, acadêmicos e leitores politicamente engajados, O Projeto funciona como um manual de verificação — uma lente para interpretar nomeações, ordens e reestruturações quando elas surgirem no noticiário. Para o cidadão preocupado com instituições democráticas, a leitura serve como aviso prático: as fragilidades que permitem transformações profundas são menos espetaculares e mais técnicas, e por isso, talvez, mais difíceis de detectar e combater.
A contribuição final do livro é dupla. Primeiro: explicitar que a ação política hoje se dá tanto nas grandes narrativas públicas quanto em manuais administrativos e listas de pessoal. Segundo: tornar público um conhecimento que, se ficasse restrito a corredores ideológicos, poderia operar sem escrutínio. Assim, Graham presta um serviço civicamente relevante: não apenas descreve um projeto de poder, mas providencia aos leitores ferramentas para reconhecê-lo quando ele se manifesta em atos governamentais. Como leitura de ciência política aplicada ao jornalismo, O Projeto cumpre sua função crítica — com clareza, documentação e o tipo de inquietação que deve incomodar gestores, legisladores e eleitores.
O PROJETO: COMO A EXTREMA DIREITA ESTÁ TRANSFORMANDO OS ESTADOS UNIDOS | David A. Graham
Editora: Zahar;
Tradução: Berilo Vargas;
Tamanho: 176 págs.;
Lançamento: Agosto, 2025.
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