• Sobre
  • Apoie
  • Política de Privacidade
  • Contato
Escotilha
Sem Resultados
Veja Todos Resultados
  • Reportagem
  • Política
  • Cinema
  • Televisão
  • Literatura
  • Música
  • Teatro
  • Artes Visuais
  • Reportagem
  • Política
  • Cinema
  • Televisão
  • Literatura
  • Música
  • Teatro
  • Artes Visuais
Escotilha
Home Literatura

O mundo sombrio da literatura infantil

Repletas de sexo e violência, primeiras versões das histórias clássicas da literatura infantil estavam mais para Quentin Tarantino do que para Walt Disney.

porEder Alex
26 de agosto de 2015
em Literatura
A A
O mundo sombrio da literatura infantil

Imagem: Reprodução.

Envie pelo WhatsAppCompartilhe no LinkedInCompartilhe no FacebookCompartilhe no Twitter

Era uma vez um menino que matou o próprio irmão numa brincadeira com facas no quintal. A mãe deles estava dando banho no bebê no andar de cima e quando ouviu a gritaria dos filhos lá fora, desceu as escadas correndo para ver o que havia acontecido. Em meio ao sangue e ao nervosismo tentou tirar a faca das mãos do garoto, mas acabou o matando. Quando voltou em prantos para dentro de casa, percebeu que havia esquecido o bebê na banheira e ele tinha morrido afogado. Ela, então, não viu outra saída a não ser enforcar-se. Poderíamos parar a desgraceira por aqui, mas é que o pai dessa família chegou do trabalho, viu aquela cena horrível, não conseguiu superar tamanha tragédia e acabou morrendo de desgosto.

História fofinha, não? Poderia ser um filme do Lars von Trier, mas é um conto infantil dos Irmãos Grimm (século XIX), chamado, veja só que sugestivo, “Quando Crianças Brincam de Açougueiro”.

A literatura infantil, tal como a de gente grande, nasceu das tradições orais, das histórias contadas pelas pessoas comuns, geralmente iletradas. Volta e meia alguém com mais estudo resolvia pesquisar e anotar essas narrativas, então, com o passar dos anos, foram pipocando nomes que seriam lembrados até hoje, como os irmãos citados ali em cima e também La Fontaine, Charles Perrault e Fénelon. A importância deles e de vários outros autores é muito maior na questão da curadoria, de reunião de informações, bem como o aspecto sociolinguístico de resguardar a memória oral de tais narrativas, do que de criação em si. Em resumo, as histórias já existiam, eles “só” colocaram no papel e foram reformulando tudo com o passar do tempo.

Charles Perrault (XVII), por exemplo, escreveu um livro que hoje encontramos com o título Contos da Mamãe Gansa, mas que havia sido lançado como Histórias ou narrativas de tempo passado com moralidades. Ele, inclusive, nem assinou o livro na época, pois pegava meio mal entre os intelectuais esse negócio de escrever para crianças, e resolveu atribuir a autoria da obra a seu filho.

A importância deles e de vários outros autores é muito maior na questão da curadoria, de reunião de informações, bem como o aspecto sociolinguístico de resguardar a memória oral de tais narrativas, do que de criação em si.

É de Perrault uma das versões mais antigas e macabras do famoso conto Chapeuzinho Vermelho. Nela, Chapeuzinho segue feliz e saltitante rumo à casa da Vovó e quando chega lá, percebe que ela está meio estranha, pois pede para que a menina tire a roupa (!?) e se deite com ela na cama. Depois a garota percebe os olhos grandes, dentes grandes, etc. O Lobo, como sabemos, devora a avó e a netinha vira a sobremesa. Depois disso, sabe o que acontece? Nadinha de nada. É isso, ele devora as duas e não aparece ninguém pra salvá-las. Já era, perdeu. Séculos depois os Irmãos Grimm tentaram dar uma amenizada na história e enfiaram o Lenhador no meio da treta (amenizaram mais ou menos, pois na primeira versão deles, após as duas coitadas serem salvas a machadadas, eles enchem a barriga do Lobo de pedras, ele não consegue andar e acaba morrendo. Pelo menos aqui o bem vence o mal e assim temos menos crianças deprimidas).

Os Grimm reescreveram todas as histórias (são mais de cem) algumas vezes para adaptá-las aos pequenos leitores, mas antes disso, nas versões tidas como originais, nos deparamos, por exemplo, com o fato de que a Bela Adormecida foi estuprada pelo príncipe; que as irmãs malvadas da Gata Borralheira cortaram os próprios dedos para fazer caber os pés cheios de sangue no sapatinho de cristal; que o príncipe engravida a Rapunzel, depois arranca os próprios olhos e se joga da torre; que a princesa não beija o sapo, ela o atira contra a parede para que ele exploda; e assim por diante.

Para quem cresceu com uma visão “disneylândica” da infância, essas versões estilo Quentin Tarantino podem soar meio insanas, pois o que a maioria de nós leu/assistiu foram aqueles textos reescritos pelos Irmãos Grimm. E antes deles, lá no início, esses livrinhos que hoje os pais leem para os seus filhos não tinham exatamente a criança como seu público-alvo (no caso de Perrault, o público eram as mulheres, então suas histórias eram cheias de “ensinamentos morais”, tal como nas fábulas, que visavam fazê-las se comportarem de uma determinada maneira e não caírem na lábia de qualquer malandrão. “Encontrar o Lobo” era sinônimo de perder a virgindade, inclusive). Isso de ver a criança como criança mesmo, do jeito que a gente vê hoje, e não como praticamente um anão, só ocorreu no período da Revolução Industrial, com a ascensão da burguesia e aquela coisa toda das aulas de História. Foi ali que a criança deixou de ser vista como um mini adulto, pois percebeu-se que ela não poderia trabalhar nas fábricas imundas (até porque isso agravava o desemprego e a miséria) e passou a representar o centro da família, um ser frágil que requeria todos os cuidados, etc.

A ideia de escrever livros para crianças poderia ter uma origem nobre e emocionante, inclusive em alguns momentos pode até ter sido, mas na real mesmo, os adultos perceberam que os pequenos, agora alfabetizados, pois a escola passara a ser obrigatória para todas as classes, poderiam representar um mercado consumidor importante. Basicamente eles olharam para aquelas carteiras cheias de alunos e ouviram um som de caixa registradora no subconsciente, foi então que resolveram entupir a criançada de livros e McLanches Felizes.

Em resumo, lá pelas tantas saíram o sangue e o sexo, e entraram o amor idealizado e as grandes virtudes. Boa parte das histórias ficaram mais fofinhas e coloridas, muita gente entrou nessa só para ganhar dinheiro, mas pelo menos assim evitou-se que toda uma geração crescesse tendo que tomar Rivotril.

Bibliografia

Contos Maravilhosos Infantis e Domésticos, de Jacob e Wilhelm Grimm (editora Cosac Naify);
Literatura Infantil Brasileira, de Marisa Lajolo e Regina Zilberman (editora Ática);
Contos da Mamão Gansa, de Charles Perrault (editora L&PM).

ESCOTILHA PRECISA DE AJUDA

Que tal apoiar a Escotilha? Assine nosso financiamento coletivo. Você pode contribuir a partir de R$ 15,00 mensais. Se preferir, pode enviar uma contribuição avulsa por PIX. A chave é pix@escotilha.com.br. Toda contribuição, grande ou pequena, potencializa e ajuda a manter nosso jornalismo.

CLIQUE AQUI E APOIE

Tags: Chapeuzinho VermelhoCharles PerraultCríticaCrítica LiteráriaIrmãos GrimmLiteraturaLiteratura Infantil

VEJA TAMBÉM

Novas obras da autora neozelandesa começam a ganhar corpo no Brasil. Imagem: Alexander Turnbull Library / Divulgação / Montagem: Escotilha.
Entrevistas

Katherine Mansfield no Brasil; agora, por inteiro

9 de abril de 2026
Autora conversou com exclusividade com nossa reportagem. Imagem: Sebastián Freire / Divulgação.
Entrevistas

Mariana Enriquez: “Minha primeira impressão do mundo foi sob um regime autoritário muito feroz”

25 de março de 2026
Please login to join discussion

FIQUE POR DENTRO

'Apopcalipse Segundo Baby' foi produzido ao longo de dezoito anos. Imagem: Dilúvio Produções / Divulgação.

‘Apopcalipse Segundo Baby’ ilumina a jornada musical e espiritual de Baby do Brasil – É Tudo Verdade

17 de abril de 2026
Documentário sobre David Bowie abriu a edição 2026 do É Tudo Verdade. Imagem: ARTE / Divulgação.

‘Bowie: O Ato Final’ aponta para a genialidade do artista em seus momentos finais – É Tudo Verdade

15 de abril de 2026
Registro de 'Piracema', do Grupo Corpo. Imagem: Humberto Araújo / Divulgação.

Crítica: ‘Piracema’ e o Corpo que insiste no movimento – Festival de Curitiba

14 de abril de 2026
Malu Galli em 'Mulher em Fuga'. Imagem: Annelize Tozetto / Divulgação.

Crítica: ‘Mulher em Fuga’ é encontro de Malu Galli e Édouard Louis em cena – Festival de Curitiba

13 de abril de 2026
Instagram Twitter Facebook YouTube TikTok
Escotilha

  • Sobre
  • Apoie
  • Política de Privacidade
  • Contato
  • Agenda
  • Artes Visuais
  • Colunas
  • Cinema
  • Entrevistas
  • Literatura
  • Crônicas
  • Música
  • Teatro
  • Política
  • Reportagem
  • Televisão

© 2015-2023 Escotilha - Cultura, diálogo e informação.

Sem Resultados
Veja Todos Resultados
  • Reportagem
  • Política
  • Cinema
  • Televisão
  • Literatura
  • Música
  • Teatro
  • Artes Visuais
  • Sobre a Escotilha
  • Contato

© 2015-2023 Escotilha - Cultura, diálogo e informação.