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Home Literatura

Ponto de vista

porEder Alex
5 de outubro de 2016
em Literatura
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vladimir nabokov

Vladimir Nabokov. Foto: Reprodução.

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Como o próprio autor explica no prefácio, o título original deste livro é Soglyadatay, antigo termo militar da Rússia que significava “espião” ou “observador”, que dá uma dimensão bem apropriada do que vem pela frente. O Olho, lançado no Brasil pela editora Alfaguara, com tradução de José Rubens Siqueira, não é um livro de espionagem, mas se apropria de elementos deste gênero (informação x contrainformação, por exemplo), bem como o de romances policiais (pistas a serem seguidas, revelação bombástica ao final, etc) para compor uma obra que não é uma coisa nem outra. Trata-se, na verdade, de um drama psicológico com um pezinho ali na filosofia.

A ação em si nem impressiona muito: o narrador-protagonista é um russo pobretão que vive em Berlim, não tem um puto no bolso, arruma um emprego de tutor, bem como uma amante casada. É lógico que dá merda e então, se sentindo muito humilhado, ele acaba tentando suicídio. Eis que a história dá uma virada muito louca e o livro vai de “legalzinho” para “nossa, que foda!”.

O escritor apenas brinca com esse negócio de mistério, pois o seu interesse maior não é trapacear e esconder as informações do leitor para depois fazer alguma revelação superficial, mas sim discutir profundamente a composição da alma humana.

É que Vladimir Nabokov começa então a dar uma aula de como desenvolver um foco narrativo. Há uma leve composição de um painel histórico e social (coisa que, sei lá por que, o escritor nega no início do livro), já que a história se passa no pós-Guerra Civil e após a morte de Lênin, mas o que realmente importa, ou, pelo menos, o que realmente impressiona é a estrutura narrativa que o autor da obra-prima Lolita adota para despertar curiosidade a respeito da figura de Smurov, um sujeito bem esquisito. Embora frequente o apartamento de alguns conhecidos, ninguém sabe direito quem ele é, então o narrador começa a colher informações dispersas a respeito do cara até conseguir formar uma imagem aproximada de quem ele seja.

O escritor apenas brinca com esse negócio de mistério, pois o seu interesse maior não é trapacear e esconder as informações do leitor para depois fazer alguma revelação superficial, mas sim discutir profundamente a composição da alma humana (contudo, achei meio sacanagem meterem um spoiler já na primeira linha da contracapa da edição brasileira. Eu não a leria se fosse você).

O Olho fala sobre como construímos uma imagem a partir da visão das outras pessoas, como se o discurso do outro fosse o alicerce mais confiável daquilo que nos compõe. Smurov é um personagem que vai sendo criado conforme o narrador investiga contradições a seu respeito (se você já assistiu Cidadão Kane, sabe que esse é um recurso narrativo que pode alcançar resultados impressionantes). Jacobina, famoso personagem do conto O Espelho, de Machado de Assis, testemunha seu reflexo se desintegrar diante dos seus próprios olhos já que a percepção distorcida que tem de si mesmo, na verdade foi criada pelos outros que já não estão mais lá. Já Smurov só pode ser visto através de múltiplos reflexos, já que a sua alma (ou a percepção que temos dela) é constituída a partir deste espelhamento. E o que o torna o livro ainda mais interessante é fato de que talvez nenhum desses reflexos seja o verdadeiro.

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Tags: CríticaCrítica LiteráriaEditora AlfaguaraLiteraturaLiteratura AmericanaLiteratura RussaResenhaReviewVladimir Nabokov

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