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Home Literatura

A prosa hipnótica de Karl Ove Knausgård

porEder Alex
3 de agosto de 2016
em Literatura
A A
Karl Ove Knausgard

Foto: Divulgação.

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A série de livros Minha Luta é composta por 6 tijolões de aproximadamente 500 páginas cada um e basicamente tudo isso aí se resume a apenas um cara escrevendo sobre si mesmo. Sério. Aí você pode pensar, ok, então a vida desse narcisista deve ter sido muito incrível, né? Resposta: não, nem um pouco, pois em diversos momentos a vida retratada nesses calhamaços pode ser tão banal quanto a minha ou sua. E por incrível que pareça, esse é justamente um dos motivos pelos quais esses livros fazem tanto sucesso pelo mundo todo, pois no fundo as pessoas veem a si mesmas ali naquelas páginas (ou seria no reflexo do lago?).

As obras não seguem exatamente uma ordem cronológica, o primeiro livro, A Morte do Pai, fala sobre vários períodos da vida de Karl Ove Knausgård, em especial o início da adolescência. O segundo, Um Outro Amor (o meu favorito até o momento), trata do casamento e da paternidade. Já no terceiro, A Ilha da Infância, ele retoma a seus tempos de criança e a relação problemática com o pai. Uma Temporada no Escuro é o quarto livro lançado aqui no Brasil pela Companhia das Letras, sempre com a tradução direta do norueguês de Guilherme da Silva Braga.

No livro 4, Karl Ove está com dezoito anos, acabou de se formar no colégio e passará um ano dando aulas (reza a lenda que isso era uma prática comum na Noruega) numa ilha de pescadores que fica localizada mais ou menos no fim do mundo. Ali o protagonista viverá uma experiência de isolamento intenso, enquanto dá os primeiros passos como escritor, inicia a sua vida sexual e se afunda no consumo de álcool.

É bem difícil explicar para uma pessoa que nunca leu Karl Ove, o porquê de tanta badalação (o escritor foi recebido na Flip deste ano com ares de rockstar). O fato é que se você consegue mergulhar fundo naquele nível de detalhamento quase absurdo, que para muitos pode ser só uma chatice qualquer ou uma cópia de Proust, a tendência é ficar completamente hipnotizado por uma prosa encantadora que você torce para que não acabe. Comigo sempre acontece isso, durante os quatro livros me flagrei arrastando a leitura para que aquilo não acabasse tão cedo, para que eu não tivesse que abandonar aquele mundo gelado, por mais que o escritor apenas estivesse narrando algo absolutamente banal.

O fato é que se você consegue mergulhar fundo naquele nível de detalhamento quase absurdo, que para muitos pode ser só uma chatice qualquer ou uma cópia de Proust, a tendência é ficar completamente hipnotizado por uma prosa encantadora.

O que fascina é a forma como o norueguês capturar a beleza dos momentos mais simples e tem a sensibilidade de reconstruí-los através da linguagem, como por exemplo o momento em que ele descreve um simples abraço em sua avó: “Ela tinha o mesmo cheiro de sempre, e era sempre como se toda a minha infância se repetisse dentro de mim quando eu o sentia”. Ou ainda quando descreve um passeio de ônibus: “Ah, as luzes discretas e os sons abafados dos ônibus ao entardecer! Os passageiros escassos, cada um sentado em um mundo particular! O panorama que desliza no escuro do outro lado da janela! O ruído do motor! Quando alguém pensa na coisa mais bonita que existe, naquilo que há de mais precioso, e simplesmente deseja estar lá, por assim dizer fora do mundo, no caminho entre um lugar e outro, não é justamente nessa hora que realmente estamos em algum lugar? Quando nos sentimos preenchidos pelo mundo?”. Isso nos faz direcionar um olhar mais atento para nossas próprias vidas e enxergar, quem sabe, uma beleza ou um significado até então despercebidos.

Há quem dedique tempo discutindo autoficção, o que tem de verdade naquilo tudo, etc. Acho isso bem válido, mas prefiro ler a obra apenas como um romance e pronto, por mim foda-se se aquilo ali aconteceu de verdade ou se o autor está apenas inventado (o que é muito mais provável). O que importa, a meu ver, é a maneira como Karl Ove nos pega pela mão e nos leva lá para o cafundó do Judas congelado, para nos colocar na situação de um jovem completamente perdido na vida, que tenta encontrar o seu caminho agindo de maneira estúpida, equivocada e aprendendo virar gente grande a cada tropeço, a cada desilusão.

Algo bastante tocante no conjunto da obra e que se destaca muito em Uma Temporada No Escuro é a relação de Karl Ove com seu pai. A figura um tanto sombria que havia nos sido apresentada nas obras anteriores, agora aparece aqui de uma forma muito mais fragilizada e envelhecida, mas ainda assim impactante. É curioso perceber como a relação dos dois se estabelece através daquilo que não é dito quando ambos estão sóbrios, já que tudo é permeado pelo medo de uma explosão de fúria que quase nunca chega, e também pelo consumo excessivo de álcool. Quando está perto do pai, o jovem tem uma espécie de obsessão em tentar tomar o maior número de cervejas possível sem que ele perceba e o recrimine. Eles estão próximos um do outro, mas tentam fugir para um paraíso etílico onde a existência seja mais suportável e simplesmente desapareça da memória no dia seguinte.

Karl Ove bebe pra caralho, ouve muito rock n’ roll (sua carreira de escritor começa, na verdade, com resenhas de discos) e os seus dias de colégio têm momentos insanos num nível Superbad, com direito a uma casa sendo destruída numa festinha e com gente pelada dançando em cima do carro. Fora isso, ele tem inúmeras neuras a respeito do sexo e da masturbação, o que torna a sua relação com as garotas uma coisa bem complicada e dramática. Enfim, ele é um adolescente do tipo normal.

Uma Temporada No Escuro é o livro que parece ter o ritmo mais ágil entre os que foram lançados até agora, provavelmente por causa desse clima de sexo, drogas e rock n’ roll. Trata-se de uma história tão divertida, quanto tocante, já que a solidão que o personagem sente é um tanto devastadora. Ele está sozinho num lugar onde praticamente só há escuridão ao longo de boa parte do ano, então lidará com isso estabelecendo novas relações pessoais e se escondendo atrás de doses cada vez mais fortes.

Este é mais um daqueles livros que acaba e você lamenta por não ter mais 500 páginas pela frente para saber o que aconteceu com todos aqueles personagens. No ano que vem, quando lançarem o quinto livro, nós talvez tenhamos algumas destas respostas.

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Tags: Companhia das LetrasCríticaCrítica LiteráriaKarl Ove KnausgardLiteraturaLiteratura NorueguesaMinha lutaReviewUm Temporada no EscuroUma Temporada no Escuro

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