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‘Indagações de ameixas’, de Vássia Silveira, transforma o insignificante em poesia

Em 'Indagações de ameixas', Vássia Silveira persegue a delicadeza no cotidiano.

porMarilia Kubota
15 de maio de 2018
em Literatura
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'Indagações de ameixas', de Vássia Silveira, transforma o insignificante em poesia

Imagem: Reprodução.

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Indagações de ameixas (Redondezas Crônicas,  2011), de Vássia Silveira, é um livro de crônicas selecionadas do blog Toda quinta, em que a autora escreve desde 2008. As crônicas descrevem seu cotidiano em Florianópolis, cidade para o qual se mudou, com as filhas, depois de ter morado em várias cidades brasileiras. No blog, Vássia adverte: escreve crônicas “como um véu que escapa da mão da moça e ameaça cair no chão, brincando antes com o vento”, piscando matreiramente ao mestre Rubem Braga.

Tudo é tema para a autora: o senhor de quem aluga a casa; sua vizinha; personagens com os quais convive no trajeto de ônibus para o trabalho; sua filhas, Clara e Anaís; uma folha; o mar; a luta contra vícios, o cigarro e o chocolate; problemas domésticos; a dificuldade de escrever. Num tempo em que o cotidiano é banalizado, Vássia transforma o insignificante em matéria poética.

Vássia não teme a melancolia. Muitas crônicas falam sobre a tristeza dos desencontros na vida: a solidão, a falta de comunicação. Num breve texto sobre o finado Orkut, capta a ditadura da felicidade imposta pelas redes sociais. Contrastar a “vida de vitrine” e o mergulho interior exposto em suas crônicas é um choque.

Sem perder a ternura, a pitada de amargura nas crônicas de Vássia indica que a vida não é um conto de fadas.

Ainda que, por definição, a crônica tenha que sugerir leveza em seu conteúdo e linguagem, como ensinou o velho Braga, pode funcionar como uma cápsula de lucidez. Sem perder a ternura, a pitada de amargura nas crônicas de Vássia indica que a vida não é um conto de fadas.

Para a boa literatura, o que a autoajuda define como “sentimentos negativos” são o ponto de partida para desvencilhar da superficialidade do cotidiano e entregar-se a uma realidade mais profunda: vislumbres, paixões, frustrações, emoções difusas causadas pelo fato de sermos imperfeitos e humanos. Realidade a que a maioria tem se recusado a enxergar para manter-se à tona na feroz luta pela sobrevivência. E à qual Vássia não recua, fazendo da escrita mais que terapia ou confessionário. Nas crônicas e poemas, a autora busca a essência da vida. Ainda que a essência possa estar contida apenas num pálido instante de felicidade.

“Mas um dia, não sei o que me deu. Esqueci das bobagens que justificavam a escolha da pipoca, estendi a mão ao senhor de camisa verde e pedi, sem pestanejar, um algodão doce cor-de-rosa. Podia ser azul, amarelo, branco. Mas queria o cor-de-rosa. E feliz pela escolha, fui seguindo grupo.

Dávamos uma das muitas voltas na praça, quando um rapaz jogou-me uma flor de hibisco. Consumida pelo susto, tropecei e acabei dobrando os joelhos no chão. Era a primeira vez que eu via, no meio do alegre grupo de meninas, alguém me notar: uma novidade que invadiu meu mundo interior sem tempo nem espaço para outra reação que não o choro.” (página 43)

Não se pode esquecer da matéria de que somos feitos: nossos sonhos. Quando os sonhos e desejos são reprimidos, nos tornamos medíocres. Essa, talvez, a virtude de Vássia: o desejo de partilhar inquietações, mesmo que entre essas esteja incluída a dor. A partilha amplia horizontes, transforma o coração tímido num músculo pulsante e corajoso.

“Há três dias vivo exilada e somente hoje meu espírito rendeu-se à essa experiência permitindo que eu descansasse os olhos e mirasse a natureza e a vida ao meu redor. Dito isso, uma preocupação perturba minha mente: estarei eu desaprendendo a olhar o simples? É possível que as preocupações cotidianas invadam de tal maneira a existência a ponta de fazer com que esqueçamos a essência, o que realmente importa?” (página 101)

Vássia nasceu em Belém, em 1971, mas ainda criança voltou para o Acre. Filha de “comunista com hippie”, como ela mesma define, seu nome reflete a combinação inusitada. Vássia é homenagem a um personagem de Dostoievski e à atriz Vanessa Redgrave. Morou alguns anos no Rio, mas voltou para a Amazônia, onde passou os últimos dez anos trabalhando como jornalista. Em 2013, a autora teve um livro de poesia – Febre Terçã – publicado pelo selo off-flip. Também escreveu os infantojuvenis Quem tem medo do Mapinguari, Braboletas e Ciuminsetos e Balaio de Ideias.

INDAGAÇÕES DE AMEIXAS | Vássia Silveira

Editora: Multifoco;
Tamanho: 142 págs.;
Lançamento: 2011.

Tags: Book ReviewCrítica LiteráriacrônicasEditora MultifocoIndagações de ameixasLiteraturaRedondezas CrõnicasResenhaReviewVássia Silviera

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