Debí Tirar Más Fotos, sexto álbum de estúdio de Bad Bunny, nasce de um gesto essencialmente político de olhar para trás quando as coisas ao redor parecem exigir um movimento contínuo, reinvenção constante e esquecimento rápido. O porto-riquenho, ao contrário, convida o ouvinte a parar, revisitar, lembrar e, sobretudo, recusa a ideia de que a modernidade cultural precise se dar à custa da memória. Lançado em 5 de janeiro de 2025, às vésperas do Día de los Reyes, o disco se apresenta menos como um produto de mercado e mais como um documento afetivo, histórico e musical sobre Porto Rico em um momento de risco existencial.
O título (em português “Eu devia ter tirado mais fotos”) opera desde o início como chave simbólica. Não se trata apenas do arrependimento íntimo diante de pessoas ou amores que já não estão ali, mas do temor coletivo de que um país inteiro se torne apenas registro, lembrança, ruína turística. Bad Bunny transforma a nostalgia em linguagem política. Lembrar, aqui, é resistir.
Essa postura se anuncia logo em “NUEVAYoL”, faixa de abertura que condensa boa parte do projeto estético do álbum. Ao grafar “Nova York” segundo a fonética boricua, Benito desloca o centro do discurso: a diáspora não é assimilação, mas reinvenção identitária. Quando pergunta “¿Cómo Bad Bunny va a ser rey del pop / Con reggaetón y dembow?”, ele não ironiza apenas o rótulo que a indústria insiste em lhe atribuir, mas questiona a própria lógica do “pop” como categoria universalizante, historicamente empenhada em absorver (e esvaziar) expressões culturais periféricas.
Ao longo do disco, essa recusa se materializa musicalmente. Debí Tirar Más Fotos é, talvez, o álbum em que Bad Bunny mais se afasta da ideia de gênero como vitrine e se aproxima da música como herança. Salsa, plena, bolero, bomba, música jíbara e reggaeton convivem não como fusão cosmética, mas como continuidade histórica. Em “BAILE INoLVIDABLE”, uma salsa de fôlego longo e emoção contida, o luto amoroso se expressa por meio de uma tradição musical que carrega décadas de dor e celebração coletiva. Quando canta “Tú me enseñaste a querer / Me enseñaste a bailar”, o “você” deixa de ser apenas uma pessoa: pode ser a ilha, a cultura, a infância.
Essa ambiguidade atravessa o registro e encontra sua forma mais acabada na faixa-título, “DtMF”. Construída sobre uma plena de espírito comunitário, a canção alterna melancolia e celebração, individual e coletivo. “Ojalá que los mío’ nunca se muden” ecoa como desejo íntimo e alerta social: em um Porto Rico marcado por gentrificação, êxodo e precarização, permanecer tornou-se privilégio. Tirar fotos, aqui, é tentar fixar aquilo que o capital insiste em mover.
Depois de conquistar o mundo, Bad Bunny não busca mais provar nada à indústria global.
O álbum não evita o confronto direto quando necessário. “LO QUE LE PASÓ A HAWAii” é a declaração política mais explícita da obra, traçando um paralelo incômodo entre dois territórios colonizados pelos Estados Unidos e transformados em paraísos turísticos à custa de suas populações locais. A estrutura musical truncada, os silêncios abruptos e a recusa do clímax funcionam como metáfora sonora do apagamento cultural que a letra denuncia. Não é uma canção de protesto tradicional, é um lamento contido, quase exausto, que reconhece o risco real de um futuro sem povo.
Ainda assim, Debí Tirar Más Fotos jamais se deixa capturar por uma solenidade estéril. Há festa, desejo, humor e reggaeton sujo — porque a cultura que Bad Bunny defende é viva, contraditória e sensual. Faixas como “EoO”, “PERFuMITO NUEVO” e “KETU TeCRÉ” reafirmam que o prazer também é território político, especialmente quando historicamente criminalizado. O perreo, como o próprio artista já afirmou em outras ocasiões, é manifesto.
O que diferencia este álbum de momentos anteriores de sua discografia é a clareza do gesto. Depois de conquistar o mundo, Bad Bunny não busca mais provar nada à indústria global. Ao contrário, volta-se deliberadamente para dentro, para sua comunidade, sua história e seus mortos. Em um cenário em que a música latina corre o risco constante de se tornar apenas mais uma commodity multicultural, Debí Tirar Más Fotos propõe outro caminho, mais lento, mais denso e mais comprometido.
No fim, o disco não pergunta se Bad Bunny ainda é o “rei do pop”. Pergunta algo muito mais urgente: o que resta quando o sucesso não basta? A resposta está nas fotos que não foram tiradas, nas músicas que insistem em existir e na recusa obstinada de desaparecer. O porto-riquenho mostra que lembrar se tornou um ato radical.
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