“Coração do mar / É terra que ninguém conhece / Permanece ao largo / E contém o próprio mundo / Como hospedeiro”. Assim Elza Soares abre A Mulher do Fim do Mundo, seu primeiro trabalho contendo só inéditas em mais de 60 anos de carreira. Mas seu lançamento é muito mais que apenas e tão somente um disco na prateleira das lojas, sejam as físicas ou virtuais. Todas as páginas do suingue carioca desta mulher ímpar estão preenchidas com sua arte multifacetada.
Elza subverte a própria música mainstream se valendo dela, o que já denota o quão especial a cantora é. E saber de sua carreira, das dificuldades em ser mulher e negra neste país onde a cultura do opressor é vista quase como uma benção, e ver que Elza não se vitimiza, mas toma a bandeira dos que precisam de sua voz, é ter a certeza que vivemos para ter a oportunidade de presenciar momentos como este.

Seu sorriso, tão característico quando no palco exercendo sua alma de artista, ganha as nuances da garoa paulistana em A Mulher do Fim do Mundo, o que garante um arco-íris ao ver sua luz refletida nestas gotículas de musicalidade. Produzido por Guilherme Kastrup, que já emprestou seu trabalho para artistas como Badi Assad e a doce Márcia Castro, o disco contou com a participação de grandes músicos como Kiko Dinucci, Marcelo Cabral, Rodrigo Campos, Felipe Roseno e a banda Bixiga 70, uma das mais inventivas da cena paulistana.
Ao jornal Zero Hora, Elza contou que sua forte ligação com São Paulo levou a estas escolhas. “Tenho uma ligação muito grande com São Paulo, comecei minha carreira lá”, disse. Ao longo de 11 faixas do álbum, contemplado pelo edital Natura Musical, ouvimos canções que atravessam muitos temas caros à carreira da cantora carioca. Sexo, morte e negritude são abordados pela voz inconfundível da mulher vinda do “planeta fome”.
Elza literalmente bota “Pra Fuder” (quinta faixa do disco) em A Mulher do Fim do Mundo. Seu samba rápido despeja metáforas que “soltam a fera para correr”, desafiando que enfrentemos a tensão que suas músicas nos impõem. Elza Soares está mais moderna que nunca, mais difícil, mais complexa, mais mulher, mais negra, mais indispensável. Aos jornalistas, disse que sabia que seria um disco que soaria diferente, mas que era, acima de tudo, uma necessidade da própria cantora, um “disco de salvação”.
Elza Soares está mais moderna que nunca, mais difícil, mais complexa, mais mulher, mais negra, mais indispensável.
Talvez ela nunca antes tenha sido unanimidade para o público, um verdadeiro crime com a cantora que rasgou a garganta em “A Mulher do Fim do Mundo”, canção que batiza seu novo trabalho, dizendo que vai, até o fim, cantar. Do Cóccix até o Pescoço, seu disco de 2002, é uma pérola da música brasileira. Dois anos antes, a BBC de Londres a elegeu cantora do milênio. “Se Acaso Você Chegasse”, “Só Danço Samba” e “Cadeira Vazia”, por exemplo, são músicas necessárias à compreensão de parte de nossa história musical.
Elza Soares, a quem falar sobre homofobia e preconceito de gênero é quase tão necessário quanto exterminá-lo – afinal, nossos fantasmas precisam tomar corpo para que possamos expurgá-los -, reforça a voz para dar vazão à sua negritude e, desta forma, dar voz aos negros, escondidos e marginalizados – apesar de que, para alguns, o brasileiro seja imune ao preconceito racial. Enquanto arte, A Mulher do Fim do Mundo não causa espanto a quem acompanha sua carreira, mas soa mais alto, com uma dose de liberdade criativa maior, como se Elza abraçasse as canções com a alma antes de entregá-las para nossa audição. Talvez isso exerça, também, influência nos arranjos do disco, como operetas subvertidas pelo peso do que a cantora diz em cada uma das faixas, ao contrário do que se esperaria da “pequena ópera” italiana.
A Mulher do Fim do Mundo é um dos melhores trabalhos do ano e mais um presente da fundamental e inigualável Elza Soares, um desafogo libertário nessa maré de caretice e conservadorismo. Obrigado, Elza.