A ópera costuma causar calafrios em grande parte do público, que trocaria assistir a essa grande desconhecida por qualquer programa na televisão.
Por isso é excelente que o III Festival de Ópera do Paraná, que vai até 29 de outubro no Teatro Guaíra, tenha escolhido algumas coisas boas: 1) entrada franca, 2) peças de apelo entremeadas por outras de inovação mais visível, 3) operetas em português. A direção musical e versão em português são de Abel Rocha, que vem pesquisando e divulgando em São Paulo a transposição de óperas para nosso vernáculo.
Entre elas, A solteirona e o ladrão, apresentada no Guairinha, mostrou o quanto o idioma influi na fruição da obra, ou seja, talvez não seja o canto lírico e a música erudita que assustem o público, mas [highlight color=”yellow”]a baixa compreensão proporcionada por legendas que raramente permitem o acompanhamento simultâneo de palco e leitura.[/highlight]

Aqui, não. Entendo quase tudo, salvo um ou outro verso que tenham dificultado a compreensão ao serem cantados, a plateia gargalhava. E olha que a trama criada por Carlo Menotti em 1939 passa ao largo das preocupações politicamente corretas atuais (o que é óbvio). Fala em tom chistoso do estupro, por exemplo. No enredo, a patroa e a empregada disputam o amor de um mendigo que recolhem à casa, e ele tem um corpão. (Digamos que não é raro o teatro musicado trazer uma dramaturgia fraca, mas, por incrível que pareça, não é o caso aqui.)
O texto traz ainda outras questões. O desespero pelo casamento; a lei seca; ostentar diante da sociedade mesmo que não se tenha um tostão, até onde vai a ética e a moral…
O texto traz ainda outras questões. O desespero pelo casamento; a lei seca; ostentar diante da sociedade mesmo que não se tenha um tostão, até onde vai a ética e a moral…
Na montagem, com direção cênica de Edson Bueno, algumas referências a pessoas e locais do nosso entorno ampliam a comicidade. Aliás, como dito, o público gargalhava. As alusões começam com o presídio de Piraquara. Agora imagine a palavra Pi-ra-qua-ra entoada por uma soprano em canto lírico. Exige um certo esforço. Deu certo.
A interação empática com a plateia passa ainda por citações metatextuais, como nomear a preparadora vocal Denise Sartori como uma das fofoqueiras da cidade, e atribuir um barulho qualquer a “erro da pianista”. Aliás, [highlight color=”yellow”]que bálsamo a música ao vivo no lugar das gravações costumeiras.[/highlight]
A repetição de frases do cotidiano (“olha que tempo feio!”) atinge na obra o ápice do cômico, compensando o final um tanto repentino e ausência de maior carga dramática. O que importa: a audiência gargalhava.
FICHA TÉCNICA
‘A Solteirona e o Ladrão’ (The Old Maid and the Thief), de Carlo Menotti (1939)
Daniele Oliveira – Dona Jô (A Solteirona);
Marcelo Dias – Zé (O Ladrão);
Luciana Melamed – Letícia (A Empregada);
Luísa Favero – Dona Ursula (A Vizinha);
Direção Musical e Artística – Abel Rocha (São Paulo);
Direção de Cênica – Edson Bueno;
Direção do Coro e Maestrina – Mara Campos (São Paulo);