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De onde vem o riso

porFrancisco Mallmann
7 de julho de 2015
em Teatro
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A improvisação, em relação às teorias do teatro, pode ser encarada e efetivada de diversas maneiras. Alguns pontos, no entanto, são recorrentes. A noção de que há um jogo teatral, que acontece no momento presente e que carece de uma disponibilidade para ocorrer é um deles – ainda que esses elementos sejam intercambiáveis e discutíveis. Patrice Pavis relaciona a improvisação a algo “inventado no calor da ação”, em que a “criatividade espontânea” é, incessantemente, ativada. As formas de se usar a improvisação são múltiplas: como uma metodologia processual, como um exercício, como algo a ser estudado, pesquisado que pode ou não ter a finalidade de ser mostrada ao público. São vários os teatrólogos que se dedicam ao tema, de modos tão plurais quanto possível. Artaud, por exemplo, encara a improvisação como a possibilidade da desconstrução verbal e de uma pesquisa de uma nova “linguagem física”.

Há alguns anos parecem ter se popularizado no país as produções de teatro e televisão que usam a improvisação para fazer rir, munidos de jogos teatrais cujas regras se alteram mediante as propostas, temáticas e finalidades. A improvisação não como um recurso que visa à cena, mas enquanto cena, propriamente. Eventos cênicos em que é possível ser cúmplice de construções de narrativas que ali surgem e ali mesmo se encerram. O tempo, portanto, é primordial nesse processo – porque há o entrecruzamento de temporalidades, além de tudo.

O humor parece precisar sempre de uma reciprocidade para se efetivar. Quando não se está de acordo, dificilmente se ri. Por isso, de alguma maneira, a proximidade é sempre requerida. Algum fator deve ser próximo a ponto de criar identificação e, consequentemente, gerar reações. O riso, no caso.

Florence Baillet e Clémence Bouzitat quando falam sobre humor, ironia e o grotesco no teatro, afirmam que essas são noções aliadas a uma comicidade “fustigada pela dúvida e pelos contrastes, inquieta e até inquietante, de modo que suscita um riso amarelo” – um teatro que, segundo eles, revela tensões que não se apaziguam com um happy end e tampouco com o desfecho de um conflito. Por isso, essas peças/cenas costumam terminar teatralmente de forma brusca, “num ponto de interrogação, dando uma impressão de inacabamento ou desagregação da forma dramática tradicional, fundada numa progressão linear”.

O riso, como sugerido, se dá por questões que nem sempre são de fácil evocação em determinado contexto. O sorriso amarelo e o final com ponto de interrogação nos mostram algumas coisas e revelam questões morais, culturais, ideológicas e discursivas tencionadas. Um dos motivos pelos quais o “humor” é tão discutido é uma aparente irresponsabilidade (que, muitas vezes, é bastante intencional) no trato com temas necessários – e bem por isso, “esquecidos”.

A narrativa que se vê tem como plano de fundo uma narrativa outra, que é apropriada, re-significada e, então, novamente apresentada.

No entanto, é interessante como no trabalho Histórias Extraordinéditas, da Antropofocus (companhia curitibana que comemora 15 anos em 2015), há um distanciamento disso que se convencionou como sendo um procedimento padrão. O fato de o principal estímulo ser de histórias da plateia, coletadas antes do espetáculo começar, afasta a ideia do jogo, puramente, e apresenta uma metodologia que, de certa maneira, se constitui como colaborativa na relação ator-espectador. Cada um dos seis atores (Anne Celli, Andrei Moscheto, Edram Mariano, Kairo Bankhardt, Kauê Persona e Marcelo Rodrigues) conversa com uma ou duas pessoas a fim de criar um ponto de partida para o que é feito no palco. A narrativa que é vista tem como plano de fundo uma narrativa outra, que é apropriada, re-significada e, então, novamente apresentada. Isso tudo em um processo que se dá a olhos vistos, tendo o espectador como cúmplice e parceiro.

É sempre importante pôr em questão o que torna o riso possível e quem ri (aqui, o público do teatro Regina Vogue, que fica dentro de um shopping, o Estação). Não há como distanciar a linguagem de uma realidade, de um posicionamento e de um ímpeto – os efeitos e consequências são tão reais quanto os discursos. Para além dos assuntos, nesse caso, há os próprios trajetos cênicos e os recursos teatrais utilizados. Há quem ria, simplesmente, porque vê o esforço existente para se criar uma narrativa rápida e espontaneamente. As ideias, os movimentos, a criatividade e o quão sofisticada uma saída é são motivos para rir.

(E é impressionante o quanto se ri. Uma moça sentada próximo a mim, se contorcia e parecia perder o ar enquanto gargalhava. Em determinado momento, no meio de um riso louco, ela disse efusivamente: “Eu vou morrer de tanto rir” – e eu achei que fosse verdade. Terminou bem, derramando lágrimas que tornavam sua figura dúbia – se eu não soubesse o lugar em que estava poderia facilmente dizer que sofria).


* Nova temporada * – Atualizado em 20/10, às 11h.

SERVIÇO

História Extraordinéditas

Onde: Teatro Regina Vogue – Av. Sete de Setembro, 2775 – Shopping Estação;
Quando: De 28/10 a 01/11. De quarta a sábado, às 20h30; Domingo, às 19h;
Quanto: R$ 20 (inteira); R$ 10 (meia);
Classificação: 12 anos.

OBS: Espetáculo contará com uma apresentação gratuita na quarta-feira, 28 de outubro. Sujeito a lotação do teatro.

Tags: AntropofocusCrítica TeatralCuritibaHistórias ExtraordinétidasImprovisaçãoTeatroteatro em curitibaTeatro Regina Vogue

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