Ao acender a luz para a cena inicial, fica claro que Ana Lívia, peça de Daniela Thomas com dramaturgia de Caetano Galindo, aposta na estranheza. O que vemos são duas mulheres nas pontas de uma longa mesa, com roupas pretas, e que se estendem sobre o móvel enquanto mantêm diálogos difusos. Há uma sensação de espelho, mas elas não são iguais.
De um lado, está Ana (Bete Coelho), que tenta entregar uma notícia a Lívia (Georgette Fadel, sensacional), que não quer ouvir o que ela tem a dizer. Aos poucos entendemos que elas conversam sobre uma peça, que ele escreveu (quem é “ele” é algo que permanece em suspenso o tempo todo, ainda que possamos imaginar que elas falem de Galindo, o autor).

A sensação que o espetáculo vai nos trazendo é que Ana e Lívia convivem dentro de si e falam o tempo todo da função do teatro.
Mas elas falam de outras coisas: sobre a morte, sobre a vida, sobre o fazer teatral e sobre as possibilidades da dramaturgia. Ao mesmo tempo, Ana faz anotações em um caderno e elas discutem sobre suas dores.
Quem é Ana e quem é Lívia? No texto intrincado da peça encenada pela Cia. BR116, podemos entender que ambas são uma: Ana Lívia, e juntas elas representam dois lados de uma atriz. O primeiro deles, presente em Ana, é mais dramático, pesado, intenso. Já o lado de Lívia é mais leve, jocoso, e corporal.
A sensação que o espetáculo vai nos trazendo é que Ana e Lívia convivem dentro de si e falam o tempo todo sobre a função do teatro. Não por acaso, os mecanismos teatrais estão desnudos no palco, ao olhar da plateia, valorizados pelo desenho de luz de Beto Bruel e por uma cenografia sucinta e industrial. A ideia é justamente trazer à tona o funcionamento da “máquina” invisível que fica por trás de qualquer encenação.
Há também um comentário de fundo sobre James Joyce, autor traduzido por Caetano W. Galindo em 2012. Os dois nomes que batizam a peça, aliás, parecem remeter a Anna Livia Plurabelle, personagem de Finnegans Wake, romance de Joyce. Somam-se a isso menções a Emily Dickinson, Dylan Thomas e Adélia Prado, entre outros nomes. Todas estas referências se colam e se sobrepõem uma peça que lembra um monólogo, ainda que haja duas atrizes no palco.
Nas palavras de Daniela Thomas, Ana Lívia é “um fado de duas mulheres que contemplam o fim, enfim (pero sin perder el humor, jamás!)”. A celebração ao teatro vem à tona também na tônica do exagero das performances, matizado por exercícios e uma cena hilária em que Bete imita Georgette e vice-versa. Ao invés de apostar no realismo, aposta-se no muito, no over, no exageradamente explícito.
Por fim, permanece o tempo todo no palco um terceiro (ou quarto) personagem: o mar. A água, com sua fluidez, aparece enquanto som, símbolo e presença física que parece falar sobre o próprio teatro: belo e fugidio na mesma medida. Tal como a vida.
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