Há algo de desconcertante em Reparação, espetáculo dirigido por Carlos Canhameiro e apresentado no Festival de Curitiba, no palco do Teatro Sesc da Esquina. Não apenas pelo tema que aborda — a violência contra uma jovem no interior de São Paulo dos anos 1980 —, mas pela forma como constrói sua encenação: um território de choque entre o documental e o novelesco, entre a crueza dos fatos e a gramática emocional do entretenimento.
O que está em jogo não é apenas a reconstituição de um crime. É a exposição de uma estrutura: a misoginia como força histórica, a violência contra o corpo feminino como sintoma social e o conservadorismo moral como dispositivo de julgamento moldado por uma lógica patriarcal que atravessa décadas.
A peça é clara ao mostrar que não se trata de um episódio isolado. O que vemos em cena é a repetição de um padrão: mulheres que continuam sendo julgadas não apenas pela violência que sofrem, mas pelos códigos morais que a sociedade insiste em impor a seus corpos e comportamentos. O patriarcado aparece aqui não como conceito abstrato, mas como prática cotidiana.
Os depoimentos reais incorporados à dramaturgia — interpretados pelo elenco — funcionam como eixo de verdade. São vozes que trazem o peso do vivido e impedem que o espetáculo escorregue para a ficção confortável.
Nesse sentido, os depoimentos reais incorporados à dramaturgia — interpretados pelo elenco — funcionam como eixo de verdade. São vozes que trazem o peso do vivido e impedem que o espetáculo escorregue para a ficção confortável.
Em contraponto, a trilha formada por canções românticas do Roupa Nova introduz uma camada emocional que dialoga diretamente com o imaginário popular dos anos 1980. Mas o efeito está longe de ser apenas nostálgico. Essas músicas operam como comentários críticos das cenas, criando um contraste perturbador entre a leveza sentimental da cultura pop e a brutalidade das histórias narradas.
É justamente nesse atrito que a montagem encontra sua potência. O público é levado a transitar entre a reflexão e a indignação, mas também pela imersão própria das narrativas de massa. A encenação faz com que o espectador reconheça os códigos do melodrama — e, ao mesmo tempo, perceba o quanto eles podem ser insuficientes diante da violência real.
O resultado é uma experiência que revela um paradoxo incômodo: para que certas violências sejam ouvidas, elas ainda precisam assumir a forma de espetáculo. Reparação expõe esse mecanismo sem suavizá-lo. Mostra como a brutalidade da vida real frequentemente só ganha atenção quando convertida em narrativa consumível.
Ao inserir em cena profissionais reais, como uma manicure e uma cabeleireira, que participam da ação sem o filtro completo da representação, Canhameiro reforça essa fricção entre vida e teatro. O palco torna-se um espaço onde a realidade insiste em não se deixar domesticar.
Mais do que contar uma história, Reparação constrói uma pergunta: o que mudou, de fato, na forma como a sociedade olha para a violência contra as mulheres? A resposta que a peça sugere é dura. Mudam os discursos, surgem novas palavras, mas a estrutura moral que legitima o julgamento feminino permanece assustadoramente reconhecível.
Sem oferecer consolo, a montagem cumpre um papel raro: transformar o desconforto em pensamento.
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