A última cena de (Um) Ensaio sobre a Cegueira não aconteceu no palco do Guairinha.
Quando o público do Festival de Curitiba deixou o teatro, não estava apenas saindo da sala: entrava no desfecho do espetáculo. Do lado de fora, na calçada e no alfalto da Rua XV de Novembro, os atores estavam ali, também. Misturados à cidade, às pessoas. Sem a proteção da caixa cênica, sem a moldura do palco.
O teatro, então, aconteceu no mundo. e dentro de nós, espectadores.
É um gesto simples e simbólico: a distopia imaginada por José Saramago deixa de ser representação e passa a conviver com o ruído real da cidade.
A ficção invade o cotidiano.
E o público, ainda emocionalmente exposto pela experiência vivida minutos antes, percebe que não há mais uma fronteira clara entre espetáculo e realidade. A cegueira coletiva que estrutura a narrativa agora parece menos uma hipótese literária e mais uma pergunta silenciosa dirigida a todos. O que vemos quando voltamos ao mundo?

A adaptação dirigida por Rodrigo Portella encontra nessa escolha uma síntese elegante de sua proposta estética: menos espetáculo, mais experiência. Menos representação, mais presença.
O Grupo Galpão confirma aqui uma de suas maiores qualidades: a capacidade de transformar textos complexos em experiências humanas concretas. O elenco, extraordinário, atua como um corpo coletivo, em que cada gesto depende do outro.
O Grupo Galpão confirma aqui uma de suas maiores qualidades: a capacidade de transformar textos complexos em experiências humanas concretas.
Nada é excessivo. Nada é demonstrativo. Tudo parece nascer de uma escuta atenta entre os atores e o público.
A decisão de trazer espectadores para o palco ao longo da encenação já apontava para essa dissolução de limites. Mas é na cena final, na rua, que essa proposta se radicaliza: não há mais plateia protegida. Todos estão no mesmo espaço.
Todos estão, simbolicamente, expostos à mesma escuridão.
A música de Federico Puppi acompanha esse percurso como uma presença quase invisível, criando um campo emocional que sustenta a travessia sem jamais impor uma leitura.
Quando a cena termina, não há um corte claro. Não há a sensação convencional de encerramento. Há apenas a cidade retomando seu fluxo — e o público, ainda parado por alguns instantes, como quem precisa reorganizar a própria percepção antes de seguir caminho. Eu, que moro a duas quadras do teatro, levei o espetáculo comigo.
Talvez seja essa a maior qualidade do espetáculo: entender que algumas histórias não terminam quando acabam.
(Um) Ensaio sobre a Cegueira propõe justamente isso — que o teatro não seja apenas um lugar para assistir, mas um lugar para atravessar. E que, ao final, a pergunta mais importante não seja sobre o que vimos, mas sobre como voltamos a ver.
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