Falar da estética numa peça como Selvageria pode dar a entender que você não entendeu nada do que aconteceu no palco. Mas vamos falar dela sim, já que o conteúdo documental é tão fantástico que merece um respiro até que se chegue a ele.
Ao entrar no auditório do Sesc Vila Mariana, em São Paulo, onde o trabalho mais recente de Felipe Hirsch com o agrupamento Ultralíricos fica em cartaz até dia 17 de dezembro, vê-se uma pilha de sacos de lixo, e é ao redor dela e sobre ela que as 11 cenas transcorrem.

Os efeitos obtidos entre uma escalada e outra dos atores nessa montanha negra associam elementos como a luz de Beto Bruel, quadros-vivos compostos pelas poses dos atores que se prolongam em seu absurdo e figurinos e adereços que remetem a imaginários de Brasil colônia.
Os efeitos obtidos entre uma escalada e outra dos atores nessa montanha negra associam elementos como a luz de Beto Bruel.
Aliadas à música experimental e feita ao vivo (ambos adjetivos raros de se encontrar nos palcos) por Arthur de Faria e equipe, alguns trechos lembram a boa fase vanguardista de Robert Wilson, incluindo os figurinos. Blackyva, performer carioca negra que está no elenco, é a encarnação de Helga Davis em seus suspensórios em Einstein on the beach.
Outra escolha, vinda de Portugal, Crista Alfaiate, executa a primeira narrativa sobre o Brasil escrita por uma mulher, Mrs. Jemina Kindersley. [highlight color=”yellow”]O trecho é musicado de uma forma que faz ver como a música tem influenciado a obra de Hirsch desde seus primórdios curitibanos.[/highlight] Blackyva também canta sua própria letra, uma forma impactante de abrir o segundo ato e que prenuncia um pouco do que está por vir.
Se Hirsch era mais comportado em cena em suas peças bem acabadas com altas doses de cultura pop, do rock aos quadrinhos, agora é uma palavra crua e documental que se entoa.
Os documentos costurados na dramaturgia por trechos narrativos foram encontrados no livro Bibliographia Brasiliana (Edusp), organizado por Rubens Borba de Moraes com obras publicadas fora do Brasil de 1504 a 1900, e entre preciosidades do acervo da Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin. Sempre escritos por estrangeiros, um olhar de fora sobre a colônia.
Ouvimos coisas como cartas escritas por escravos, ou pagas por eles para que algum letrado escrevesse, falando de suas agruras. Documentos que poderiam estar nas escolas, se as aulas de história não passassem tão por cima do que foi a escravidão.
Quanto custavam os escravos, e o fato de que eles próprios eram estimulados (inclusive com a ingestão de estimulantes) a se exibir para vender a mercadoria. As atrocidades dos navios negreiros e dos castigos impostos em fazendas e cidades brasileiras incomodam. A peça toda incomoda, salvo em momentos de respiro cômico.
No primeiro ato, os relatos europeus sobre os selvagens brasileiros permitem ao diretor explorar a fundo a questão linguística, em que todas as falas existem, menos a do próprio índio, trocada por grunhidos animalescos.
Algumas das frases adicionadas pela dramaturgia a essa costura arrancam gargalhadas, como “Toda vez que aqui vem um Cabral dá merda”. Ajuda a quebrar um pouco do pessimismo, apesar dessa montanha de lixo que não para de crescer.
SERVIÇO | Selvageria
Onde: Sesc Vila Mariana | R. Pelotas, 141, São Paulo;
Quando: Quinta a sábado, às 20h, e domingo, às 18h;
Quanto: R$ 60 e R$ 30 (meia);
Duração: 180 minutos (com intervalo de 10 minutos);
Classificação indicativa: 16 anos.
[box type=”shadow” align=”” class=”” width=””]FICHA TÉCNICA
Direção: Felipe Hirsch;
Elenco: Blackyva, Bruno Capão, Caco Ciocler, Crista Alfaiate, Danilo Grangheia, Georgette Fadel, Isabel Zuáa e Magali Biff;
Ultralíricos Arkestra: Arthur de Faria, Adolfo Almeida Jr., Bella, Dhieego Andrade, Mariá Portugal, Thomas Rohrer e Georgette Fadel;
Cenografia: Daniela Thomas e Felipe Tassara;
Trilha Sonora Original: Arthur de Faria;
Iluminação: Beto Bruel;
Figurinos: Verônica Julian;
Direção de Movimento: Alejandro Ahmed.[/box]