Pensar em tragédias, estar diante delas ou, ao cabo, vivê-las é reconhecer a fragilidade da existência. É encarar a inclemência da condição humana, predestinada a conflitos internos e/ou coletivos. É experimentar a jornada do herói grego e, mesmo que em instâncias remotas, revisitar as tradições cívica, mítica, narrativa e teatral da cultura helênica. Isso porque existe uma clara relação entre os possíveis significados do termo tragédia em sua origem na Grécia Antiga e a carga semântica moderna.
Em uma concepção contemporânea, tragédia é substantivo que diz respeito a infortúnios de consequências amargas – do atentado terrorista ao rompimento da barragem de rejeitos. Concebem-se como trágicos os episódios em que se configura o irromper do cotidiano por uma calamidade com certo impacto social e que se associam a conflitos da ordem do indivíduo. No classicismo helênico, a essência do trágico também está densamente relacionada a aspectos da experiência individual, fixados em tramas permeadas por apelos sentimentais dos personagens e em que o desfecho implica, em boa parte dos enredos, na(s) desventura(s) do herói.
Um dos principais ensaios teóricos acerca da Tragédia Clássica grega – tanto como gênero a ser contemplado, quanto como representação da sociedade – foi promovido por Aristóteles em seus escritos estéticos datados do século IV a.C., reunidos no cânone Arte Poética. Dentre outras observações pertinentes às representações deste viés do Drama, Aristóteles afirma que, ao assistir a peças de teor trágico, o espectador seria submetido a um ritual de purificação das almas, a que chama de catarse. Essa purgação se daria por meio da identificação coletiva com os personagens, seus conflitos, vícios e paixões; assim, as tragédias despertariam sensações de compaixão e, ao mesmo tempo, de temor no público.
Na concepção aristotélica, o típico herói trágico é um homem bom que se precipita no vício e no erro. O desfecho trágico é resultado da corrupção ou da ignorância de um indivíduo de caráter elevado quanto aos seus atos – e, por consequência, quanto ao seu destino. Na instância da representação artística, a atitude benigna do personagem trágico, bem como suas ações e relações pessoais patentes ao indivíduo são estampadas pela imitação da atitude humana – seja ela idealizada ou pejorativa.
Édipo_2: Párodo, que esteve em cartaz na Mostra DRAMA_1 no último fim de semana, parte da desconstrução das convenções teatrais em busca dos flagelos de Édipo, transmutados em tragédia coletiva (e/ou na tragédia de cada um), espalhados pela ruas da cidade. Em quase duas horas de errâncias pelo São Francisco, o espetáculo da Companhia Subjétil oferece uma libertação radical do modus operandi a que estamos acostumados a compor/consumir/pensar o teatro e, por que não, a própria arte. E mais: aponta para uma transgressão da ordem da “Polis falida”.
O conflito proposto por Édipo_2: Párodo funciona, dentre outras coisas, porque traz à cena o bairro-símbolo da divergência ideológica na cidade. Eis um São Francisco que suscita pena e, ao mesmo tempo, encanto.
Não me parece à toa a escolha do diretor Darlei Fernandes por desconstruir um texto tão paradigmático na história do teatro ocidental. Édipo Rei, de Sófocles, é exemplo de composição trágica ideal, vide o modelo de construção narrativa, a grandiosidade do protagonista, as questões existenciais com as quais ele se depara, os conflitos retratados e suas representações. Romper com o cânone, nesse caso, é retirá-lo dos terrenos da idealização, dessacralizá-lo e aproximá-lo da experiência coletiva. É promover o diálogo entre Édipo e a “travesti assassinada”, a “mulher estuprada”, a “bicha suicida”.
Não se trata, portanto, de mais uma releitura da história de Sófocles. Orquestrada por um diretor que assume o papel de Corifeu na condução do Coro, trata-se de uma procura por Édipo – embora, desde o começo do espetáculo, sejamos avisados de que “Édipo não está e nem virá”. Os contornos melodramáticos da primeira cena (que acontece dentro do casarão do Teatro Novelas Curitibanas, enquanto o público “espia”, pelas janelas, no estacionamento) sinalizam a ruptura com as convenções teatrais, em um pastiche do mito grego.
Com os “pés inchados” em fuga, destitui-se o público passivo e propõe-se a formação do Coro: força não-individualizada, abstrata, protagonista do espetáculo. “Pensar Édipo é reexplorar a cidade, entender que a cidade é um corpo amorfo que cresce e se molda ao seu coro de vozes dissonantes”, diz um texto do fanzine entregue ao público antes da peça. Mais do que uma opção meramente estética, a expansão cênica para além dos limites do palco, mesmo que em ritmo muitas vezes lento, revela um certo ativismo em relação à (re)ocupação e (re)significação da coisa pública e das relações sociais e artísticas que dela derivam. Como pontuou Francisco Mallmann em sua crítica sobre o espetáculo (leia aqui), a Subjétil faz da rua – “ambiente de experimentação que envolve o imprevisto, a desestabilização e a possibilidade de alteração da visualidade e da sensibilidade coletivas” – o seu espaço de criação. E em um trajeto incógnito, a busca pela causa trágica vai ganhando sentido a cada esquina da Curitiba-Tebas.
Cabe ressaltar o quanto a região em que a trama se estabelece é decisiva na composição não apenas do cenário, como, sobretudo, da dramaturgia. O conflito proposto por Édipo_2: Párodo funciona, dentre outras coisas, porque traz à cena o bairro-símbolo da divergência ideológica na cidade, a ambiguidade edípica por excelência. Eis um São Francisco que suscita pena e, ao mesmo tempo, encanto. Belo em sua podridão obscura; triste à sombra dos palacetes e discursos moralistas. O orgulho e a vergonha da “urbe-projeto-esgotado”. Um São Francisco esposa e mãe. Gozo e leite.

Em uma das cenas, numa potente performance na Praça Odilon Mader, Carol Damião, Ricardo Nolasco e Daniele Cristyne personificam a concepção do trágico: a instantânea alteração de um cotidiano, as causas imprevisíveis, o desdobramento das consequências, os sentimentos ambíguos despertados. Os movimentos circulares do elenco não reproduzem, necessariamente, uma composição coreográfica; ainda assim, evocam a estética da dança-teatro de Pina Bausch, inclusive nos tons do figurino. Sobre os saltos fincados na lama, estão o desequilíbrio, a dessincronia harmônica, a repetição suscetível ao tropeço, o devaneio. Sob a chuva, a poeticidade cênica se eleva.
É no Reservatório do Alto São Francisco, no entanto, que o espetáculo atinge o auge. Na escuridão, os fogos parecem confirmar o início do ritual de purgação. “Eu sou os meus complexos”, “a caveira da sua bolsa”, “o pinheiro que tomba”, “a borboleta quase morta usada em um lindo matrimônio”, “a barriga do Rafael Greca”, “o pior que há em você”. Ao confessar publicamente seus próprios vícios e virtudes, as vozes provocam uma sensação de vulnerabilidade coletiva e induzem, ainda que sutil ou insuficientemente, que também nos declaremos. Em sinal da legítima aceitação do trágico, elenco e Coro à espera da aceitação/purificação de seus erros cometidos. A catarse.
Ao fim do percurso, “o marco final da vida”, a certeza do destino inescapável: a peste impera por todos os caminhos. Édipo está ali: na fusão entre flagelo e êxtase, entre o lamento pela queda do homem e o regozijo pela ressurreição de seu espírito, na dicotomia entre os desígnios dos deuses e o livre arbítrio. Talvez estejamos, Édipo-Nós, fadados ao incesto, ao assassinato, a Mariana, a Paris. À tragédia, dor e delírio, de cada um.
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Em tempo: é louvável a iniciativa independente da Companhia de Bife Seco de estimular a criação cênica e dramatúrgica de trabalhos inéditos na cidade. A realização da Mostra DRAMA_1 é uma tentativa legítima de fortalecimento da cena autoral curitibana, de criação de novas interfaces entre artistas, companhias e espetáculos e de formação de plateia.