A nova série da Netflix, 13 Reasons Why, é baseada no livro de Jay Asher, lançado no Brasil com o título Os 13 Porquês (Ática, 2009, 256 págs), e acompanha os resultados do suicídio da jovem Hannah, que deixa fitas cassetes que trazem as tais razões do título. Como uma forma de vingança, ela envia essas gravações para um grupo de adolescentes de sua escola e acompanhamos o dia a dia de Clay, um dos destinatários das fitas, enquanto ele escuta aos poucos as gravações. Criada por Brian Yorkey, autor premiado com o Pulitzer, a série é dirigida por Thomas McCarthy, vencedor do Oscar por Spotlight.
Falar sobre o suicídio é um tema espinhoso, que infelizmente muitas vezes se deixa por baixo dos panos, pelo medo de tratar isso de forma errônea. Considerando-se o fato de que a cada 40 segundos um suicídio acontece no mundo e de que esta é a segunda forma de morte mais comum entre jovens de 15 a 29 anos, é fundamental que se fale disso de forma direta e interessante para os jovens e é nisso que 13 Reasons Why acerta: de caráter quase didático, a série usa conceitos das obras de mistério e ação para criar uma ambiência que envolve e que leva ao clássico binge-watching típico das séries da Netflix.
Esse didatismo pode ser um empecilho para alguns espectadores, mas é fundamental para a comunicação com seu público-alvo. Por exemplo, o R.E.M., quando do lançamento da faixa “Everybody Hurts”, disse que a faixa tinha um caráter antissuicida direto, pois a intenção era falar com os adolescentes de forma verdadeira, sem rodeios, sem tanta poesia. É nesse sentido que a série expõe as situações de forma bem clara e vai formando um quebra-cabeças que contribui para a situação limite da protagonista Hannah. Com base nos conceitos de coming-of-age, a história se comunica com outras experiências do gênero, desde as mais pops, como Gossip Girl, até as mais alternativas, como As vantagens de ser invisível (é quase impossível não linkar ambos, especialmente pelo fato de Dylan Minette ter feições semelhantes às de Logan Leman).

É sobre a dificuldade de se encaixar no mundo e em nossos próprios corpos que 13 Reasons Why versa, transitando por entre as relações de Hannah com seus colegas, com sua sexualidade e com toda a superexposição de nosso tempo. A internet, portanto, é parte fundamental das relações dos jovens, tanto que numa das cenas, Hannah diz “sem chances da internet piorar tudo, como sempre faz”. É sobre essa sociedade de stalkers (denominação utilizada na série) que a narrativa se desenrola: todos observamos uns aos outros o tempo todo, mas não sabemos realmente muito uns dos outros. E é esse desconhecimento que gera muitas das questões da série: o que afinal aconteceu com Hannah que não percebemos? Esse questionamento doloroso é ainda mais forte nos pais da adolescente, especialmente na mãe, interpretada por Kate Walsh (Grey’s Anatomy), que aparece aqui despida de maquiagem, envelhecida, entregue a essa dor dilaceradora.
A cada 40 segundos um suicídio acontece no mundo e esta é a segunda forma de morte mais comum entre jovens de 15 a 29 anos.
Nisso tudo, a série vai e vem em sua narrativa com um ritmo interessante, que cria ganchos incluindo uma cena na outra e instiga a nossa curiosidade, que buscamos a cada episódio tentar montar esse quebra-cabeça. Essa construção vai humanizando seus personagens e podemos perceber como pequenos erros de cada um foram criando terreno fértil para o desastre, porém, muitas vezes compreendemos os erros de cada um e entendemos a dificuldade de todos em se relacionar. É sobre isso que a série mais reverbera: o quanto nos falta empatia para pensar no outro, enxergar o outro e que o outro também perceba nossas dificuldades. Numa época em que a depressão é a maior causa de doenças e invalidez (segundo a OMS), é fundamental que se fale de saúde mental para distintos públicos e que se busque essa compreensão de que não podemos deixar essas coisas para depois.
O suicídio é um tabu em nossa sociedade, mas é algo que faz parte da minha memória desde a infância. Cresci numa cidade pequena, porém, com altos índices de suicídio: de 2008 a 2013, foram 40 suicídios consumados e 65 tentativas em Santiago (RS). Esse é um tema que permeou toda a minha vida: na sexta série, tive um novo colega de classe na escola que havia sido transferido depois do suicídio de sua irmã adolescente no ano anterior. A alguns quarteirões da minha casa, um homem enforcou-se e, pela manhã, as crianças a caminho da escola, avistaram o cadáver pendurado na forca em seu quintal. No ensino médio, o pai de uma das minhas amigas cometeu suicídio. E assim eu poderia seguir aqui enumerando outros casos que me lembro em minha cidade, mas, de qualquer modo, o tema sempre foi conversado de forma obtusa, em conversas tímidas, nunca de frente.

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Agora, já na vida adulta, lutando contra minha ansiedade e minhas crises de pânico, já vivenciei uma tentativa de suicídio, que me gerou apenas mais medo, dor e culpa. O suicídio surge como uma opção em momentos de desespero, em que não parecemos mais perceber saídas e, portanto, é ainda mais complicado na adolescência, quando ainda não temos uma noção realmente ampla do quanto a vida é complicada, porém, mutável. Na adolescência, temos essa sensação de que tudo é maior e de que nossos erros ali reverberarão em toda nossa existência, nos corroendo por dentro. E demora para que entendamos que a vida é bem mais que a adolescência, que fazemos novos amigos, que mudamos de cidade, que vivenciamos muitas coisas boas e ruins de amplas formas.
É esse medo que permeia 13 Reasons Why: aquela dor demasiada da adolescência. Sob essa égide, a série se desmembra em um entretenimento eficaz e em um debate necessário. Selena Gomez, cantora e atriz, que produz a série, afirmou durante a divulgação que sua intenção ao buscar a adaptação da história era mostrar para outros jovens esse cenário e mostrar que eles não estão sozinhos. Selena já falou inúmeras vezes sobre sua saúde mental e a série apenas joga mais uma vez luz nesses dramas que precisam ser falados. Nesse sentido, a série já está cumprindo sua função: no final de semana, com o buzz do lançamento, a hashtag #NãoSejaUmPorque viralizou no Twitter e as pessoas compartilharam experiências e dores.
No final das contas, 13 Reasons Why é uma série que fala muito sobre nosso tempo e que é necessária. Ela é fundamental para que repensemos um pouco mais em nós mesmos, nossa saúde e que olhemos para o outro com mais compreensão. E lembrem-se: não estamos sozinhos!
Assista ao trailer de ’13 Reasons Why’
https://www.youtube.com/watch?v=yB5JQr8jw7w