Quem viveu o fim dos anos 1990 deve lembrar o fascínio que existia em torno do mundo da moda, que era o espaço dos sonhos das adolescentes que habitavam nesta década. Simplesmente todas nós almejávamos um dia nos tornar supermodelos – o equivalente às Cinderelas pós-modernas, as escolhidas para reinar em um mundo cosmopolita. Era um Olimpo para poucas, e que já tinha suas deidades, como Linda Evangelista, Cindy Crawford, Naomi Campbell, Kate Moss, Claudia Schiffer.
Um sonho para pouquíssimas, claro. Mas até esse sonho poderia ser comercializado. Quem se deu conta disso foi a modelo estadunidense Tyra Banks, que conseguiu viabilizar a ideia de lançar, em 2003, o reality show America’s Next Top Model, uma competição entre garotas que queriam conquistar um lugarzinho nesse reino. O programa foi lançado por uma emissora obscura chamada UPN e, inesperadamente, virou um grande sucesso. Durou 24 temporadas e, no auge, chegou a atingir 100 milhões de espectadores.
Tyra era então uma modelo negra de menos destaque que Naomi Campbell, e que lutava para obter as mesmas oportunidades que as modelos brancas. Ela então passa a se colocar no mercado da moda como uma defensora das diferenças: alguém que advoga pela inclusão nas passarelas de mulheres etnicamente diversas e com corpos fora do padrão. Mas, ao longo das temporadas de ANTP, o que se viu foi exatamente o contrário: mulheres submetidas a humilhações, solicitadas a emagrecer, chamadas de velhas e vários outros tipos de abusos.
Já tem um bom tempo que sabemos (e tem até uma boa série, chamada UnReal, que fala sobre isso) que bastidores de realities costumam ser chocantes. Agora, a série documental America’s Next Top Model: Choque de Realidade, da Netflix, chega justamente para jogar na nossa cara que os anos que nos divertimos vendo ANTP não foram nada inocentes.
O que a atração nos conta é que estávamos – feliz ou infelizmente, sem nos dar conta – sendo coniventes ou mesmo cúmplices de um programa escandaloso, que exibia cenas de violência psicológica em prol do entretenimento, esmigalhando a alma de mulheres vulneráveis que eram levadas a acreditar que a humilhação era um passaporte obrigatório para finalmente fazer parte desta indústria.
Mais o mais interessante de America’s Next Top Model: Choque de Realidade é que a atração traz muito depoimentos para analisar tudo isso, como de ex-participantes que escancaram o que sofreram, mas também da própria Tyra.
O choque de realidade do mundo dos reality shows
A melhor parte dessa série documental, que foi dirigida por Mor Loushy e Daniel Sivan, é que ela não está de modo algum conectada a Tyra Banks ou a ninguém de seu staff. Os produtores executivos, inclusive, declararam que a ex-modelo não teve acesso antecipado a perguntas e só pode assistir ao resultado como todos os espectadores: com a estreia na Netflix. A resenha do The New York Times, jocosa, publicou: “nesta série documental, Tyra não está mais no controle”.
O chiste se dá porque todos os depoimentos – que incluem o de Ken Mok, produtor executivo e braço direito de Tyra, e do trio de jurados e auxiliares técnicos Miss J. Alexander, Jay Manuel e Nigel Barker – deixam claro o quanto a “patroa” era centralizadora em todas as decisões do programa. Embora ela houvesse chamado amigos próximos para compor a equipe (Miss J. era seu treinador de desfile e Jay Manuel, seu maquiador), o reality, que começou de forma bem amadora, logo se tornou uma febre no país e no mundo e a ambição foi crescendo.
O que vamos entendendo é que ANTM era menos sobre as modelos e mais sobre as premissas básicas de um reality show: precisava-se de muito drama e de narrativas, mesmo que elas fossem distorcidas. Por isso, as histórias tristes das modelos eram constantemente reiteradas e, caso elas estivessem levemente acima do peso (para os padrões infames das passarelas, claro) era comum e aceitável que fossem esculachadas pelos jurados e que a mesma imagem de uma delas comendo um doce fosse repetida diversas vezes.
Mas nada era tão ruim que não pudesse piorar. Com o decorrer da temporada, segundo Tyra (sua defesa é que vivia-se a era dos realities de sobrevivência, como Survivor, e o público queria mais e mais), os desafios do programa foram ficando cada vez mais questionáveis. As participantes foram “convidadas” a fazer ensaios fotográficos em caixões, como mortas; como se estivessem tendo uma overdose; como se tivessem acabado de ser assassinadas. No último caso, uma modelo posou como se tivesse levado um tiro na cabeça – sendo que sua mãe havia ficado paraplégica ao tomar um tiro na cabeça de um ex-namorado.
São muitas e muitas situações terríveis narradas – tanto pelas participantes, quanto pelos jurados do ANTM que, em certo momento, acabaram demitidos e perderam o contato com Tyra. Citá-las por completo extrapolaria os limites deste texto. Mas vale destacar a que talvez seja a pior de todas: o caso de Shandi Sullivan, da temporada 2, que fez parte de um episódio em que as modelos foram fotografar em Milão.

Lá, em determinado momento, as modelos resolvem jantar com italianos, em um encontro regado com muito vinho. Shandi bebe duas garrafas e fica praticamente inconsciente, e vai parar em uma banheira com um dos sujeitos, onde é gravada aos beijos com ele. Ao acordar, ela mal se lembra do que aconteceu, e só a vemos de pijama, chorando copiosamente. Mas tudo foi filmado.
No próximo episódio, Shandi é exibida como “a garota que traiu”, enquanto é recomendado que ela ligue para o seu namorado nos Estados Unidos para contar que havia feito sexo com outro homem. A reação do outro lado da linha é horrível. Em seguida, o programa mostra um encontro de Tyra Banks com as meninas em que ela faz um longo discurso moral sobre fidelidade, e Shandi fica por anos ligada ao estigma e à vergonha de traidora.
America’s Next Top Model: Choque de Realidade consegue a façanha de colocar todos os coniventes com estes anos na berlinda para ver o que eles têm a dizer.
Muitos anos depois, com a repercussão de ANTM nas novas gerações, a história é finalmente esclarecida: Shandi foi estuprada, uma vez que foi tomada sexualmente por um homem sem que tivesse qualquer condição para dar algum consentimento. Tudo estava sendo filmado, mas não passa na mente de ninguém interferir naquela cena – nem nas colegas, nem na equipe do programa. A edição simplesmente a roteiriza como alguém culpada pelo que aconteceu.
America’s Next Top Model: Choque de Realidade consegue a façanha de colocar todos os coniventes com estes anos na berlinda para ver o que eles têm a dizer. E, de fato, não há muito o que argumentar: o que se fala é que “eram tempos diferentes”, “o mundo mudou”, “eram tempos difíceis”, etc. Em parte eles têm razão, o que nos chama a lembrar que nós, espectadores, também éramos de certa forma coniventes com o que ocorria nas telas. Também nem sempre enxergávamos as humilhações que aquelas moças passavam.
Mas é claro que isso não significa eximir-se da responsabilidade. Dito isso, o que fica de mais revoltante dessa série é o cinismo na figura de Tyra Banks, cujas respostas soam como a de um coach treinado para sutilmente empurrar a culpa para outro lugar ou usar a carta do “crescimento” (o papo de “todos vamos evoluir com nossos erros”, “sua hora vai chegar”). A sensação que fica é que ainda há muita justiça a ser feita.
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