Em 20 de janeiro de 1996, um fato misterioso mudou para sempre a história de uma pequena cidade em Minas Gerais. Foi nesse dia que três jovens de Varginha disseram ter se deparado com um ser estranho em um terreno baldio. A criatura, segundo os seus relatos, tinha uma cabeça grande com formato de coração, três protuberâncias na testa e olhos vermelhos. Ou seja, a típica figura de um extraterrestre no imaginário popular.
Poderia ser mais uma das tantas histórias sobrenaturais que atravessam a cultura do país. Mas algo a mais aconteceu ali: a imprensa, por razões que até hoje não são bem compreendidas, abraçou esse caso e estendeu uma longa cobertura ao chamado “ET de Varginha”, como a criatura ficou conhecida. Equipes de televisão foram deslocadas para Minas Gerais e até os programas de entretenimento ajudaram a perpetuar o mito, criando essa espécie de híbrido super brasileiro entre o jornalismo e a ficção.
Parece inacreditável que os jornalistas tenham se dedicado tanto a isso, mas é verdade. Todo esse causo é relembrado em O Mistério de Varginha, série documental em três episódios com produção da Globoplay e da EPTV, afiliada da TV Globo. Com direção de Ricardo Calil e Paulo Gonçalves, a atração proporciona um passeio inusitado que nos faz visitar um Brasil caipira durante os anos 1990 para tentar entender o fascínio coletivo por essa história – uma anedota alimentada pela paixão nacional pelos mistérios do além.
Um ET perdido no meio de Minas Gerais
A manifestação do ET teria ocorrido diante de três meninas, que se tornariam quase como representantes nacionais das testemunhas de Fátima. As irmãs Liliane e Valquíria Silva, ao lado de Kátia Xavier, adquiririam ali e no futuro o status de “meninas do ET” pelo que disseram ter visto aquele dia. Enquanto Liliane e Valquíria seguiram suas vidas normais, Kátia se sustenta até hoje por conta da “aparição”, dando palestras e participando de eventos.
Causa perplexidade a recuperação histórica, bastante aprofundada, que foi feita da cobertura jornalística dedicada à época ao caso.
O primeiro episódio da série documental recupera o testemunho das mulheres e busca entender qual o impacto naquela pequena cidade que nunca imaginaria um dia ter como símbolo uma criatura que não existe. Mas, claro, a história rendeu pois havia controvérsias: dezenas de pessoas discorreram sobre teorias conspiratórias que associavam a aparição e o sumiço do ET à interferência do exército, e houve rumores de um homem que teria morrido bruscamente depois de ter entrado em contato com o alienígena.
Tudo puro suco do Brasil. Por isso, dá para dizer que O Mistério de Varginha é diversão garantida. Os três capítulos evidenciam o quanto tramas rocambolescas podem render, criar raízes e dar frutos ao entrar em contato com uma população sedenta por mitos, mesmo que eles sejam memes. Varginha, como o documentário nos esclarece, nunca mais foi a mesma. O tema “ufologia” transformou o turismo e atrai visitantes até hoje para esta região que está povoada de elementos que fazem referência a OVNIs.

Não há exatamente conclusões ao fim da série, mas, como obviamente sabemos, o tal ET nunca foi encontrado nem sua existência foi comprovada. Outro eixo que se destaca na atração é o foco dado à disputa entre ufólogos que tentavam posicionar-se como autoridades sobre o ET de Varginha – o que envolvia inevitavelmente o direito de lucrar com ele. Há até um escândalo em torno da rivalidade entre dois desses especialistas, Ubirajara Rodrigues e Vitorio Pacaccini, que acusam um ao outro de mentir e enganar a opinião pública.
Mas também há a parte séria que foge da piada. Causa perplexidade a recuperação histórica, bastante aprofundada, que foi feita da cobertura jornalística dedicada à época ao caso. A cobertura principal da Globo se deu por meio da afiliada EPTV, que mandou equipes para seguir acompanhando o mistério, em uma dedicação investigativa que ia muito além da importância da história – que, afinal, nunca teve qualquer conclusão.
O que resta no ar é um espanto ao notarmos quantos esforços e recursos as empresas de comunicação são capazes de dedicar para cobrir casos pitorescos que caberiam perfeitamente dentro de um catálogo do anedotário popular, mas não nos noticiários. Talvez seja uma oportunidade para refletir se, trinta anos depois, isso não segue acontecendo.
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