Como satirizar um tema já batido e ainda assim tão cheio do que ser dito? Esse era o grande desafio dos produtores e criadores da série Silicon Valley: John Altschuler, David Krinsky e Mike Judge, todos três mentes criativas por trás do seriado O Rei do Pedaço. Judge ainda é conhecido por ser o criador de Beavis e Butt-Head, seriado cult da MTV e febre durante a década de 1990.

Esqueçam IT Crowd (sitcom inglês que retratava o dia a dia e as trapalhadas da equipe de suporte técnico da fictícia Indústrias Reynholm) e The Big Bang Theory, seriados que já tiveram como premissa satirizar a vida e os costumes de pessoas do mundo da ciência e tecnologia.
Silicon Valley é um grande presente trazido a nós pela HBO, tão acostumada a oferecer comédias satíricas, ou seja, séries de humor que ridicularizam determinado tema. Um bom exemplo disto é o seriado Veep (clique aqui e leia nossa análise sobre ela).
Caracterizadas por trabalhar seus roteiros entre o humor inteligente e o absurdo, seriados nesta pegada costumam por vezes deslizar no segundo ponto, ultrapassando a linha entre o divertido e exagerado. Há ainda o obstáculo de driblar o espectador acostumado a seriados de estúdio e claque (aquelas risadas pós piada, comum em seriados como Friends e The Big Bang Theory), já que o humor empregado exige uma leitura mais aprofundada do contexto que circunda a anedota.
Silicon Valley narra a história de Richard (Thomas Middleditch de O Lobo de Wall Street), um programador tímido e introvertido que trabalha na “empresa mais inovadora do mundo”, a Hooli. Subaproveitado e particularmente não conseguindo se encaixar na filosofia “Google” da empresa (aquele duplo “o” no nome da Hooli não é à toa), investe seu tempo procurando desenvolver um software/ aplicativo (o Pied Piper) que lhe permitirá vencer no Vale do Silício (região do estado da Califórnia onde estão instaladas diversas empresas dos segmentos de eletrônica, informática e tecnologia).
Apesar de centrado na história de Richard e de sua empresa, o seriado apresenta um ótimo elenco e diálogos afiados, principalmente os que acontecem entre Dinesh (Kumail Nanjiani) e Gilfoyle (Martin Starr), uma dupla de programadores que se juntam à equipe da Pied Piper, mas procuram muito mais se dar bem com as mulheres (o que para eles é um dos benefícios de serem donos de uma grande empresa de tecnologia) do que serem bem sucedidos profissionalmente.
O melhor personagem sem dúvida é Erlich (T.J. Miller de Cloverfield e Como Treinar Seu Dragão 1 e 2), programador e sócio de Richard na Pied Pieper. Nele encontram-se todos os clichês do mundo tecnológico, inclusive a adoração e bajulação à persona de Steve Jobs, seu grande ídolo, reverenciado em diversos momentos ao longo da primeira temporada, desde a vestimenta até falas e o gestual da mente criativa da Apple.
O seriado é uma construção completamente distorcida do ramo da tecnologia (caçoando inclusive dos estereótipos dos gênios do Vale) e, até certo ponto, uma crítica às filosofias corporativas como as do Google e Facebook.
Sem nenhuma espécie de filtro mental, Erlich dispara ao longo de todos os episódios palavrões, preconceitos (a misoginia por vezes é exarcebada) e frases de cunho sexual. Sem dúvida é a personificação do que o senso comum imagina sobre as pessoas que trabalham no Vale do Silício.
Há ainda outros personagens coadjuvantes que conseguem, por vezes (mas nem sempre com mérito como os demais), trazer momentos divertidos e ímpares ao seriado, como Jared, interpretado por Zach Woods de The Office (a cena do container é impagável) e Gavin Belson (Matt Ross de Psicopata Americano), o antagonista da série, ávido por marcar sua existência no mundo como alguém que tornou a vida melhor através de suas criações.
O seriado é uma construção completamente distorcida do ramo da tecnologia (caçoando inclusive dos esteriótipos dos gênios do Vale) e, até certo ponto, uma crítica às filosofias corporativas como as do Google e Facebook, e também da própria cultura “geek”. Tudo, é claro, sempre com a elegância e sutileza típica das produções da HBO.
Vale a menção ainda para a abertura da série, uma animação feita tendo como conceito a Pixel Art (forma de arte digital na qual as imagens são criadas ou editadas tendo como elemento básico os pixels; os elementos gráficos provenientes de sistemas computacionais antigos, como consoles de video games e telefones celulares são considerados como pixelados). É uma síntese dos últimos 30 anos da região, com o surgimento e a derrocada de grandes empresas, contada em 12 segundos. Através dela o espectador é inserido no contexto que abrange a série.
A SEGUNDA TEMPORADA DE SILICON VALLEY
A segunda temporada começou duas semanas atrás (a série é exibida aos domingos à noite na grade da HBO Plus). Os primeiros episódios não apresentaram a mesma criatividade que marcou a série, entretanto, fica a tranquilidade de que há muita terra fértil a ser explorada.
O maior desafio, creio eu, será conseguir contornar a seriedade da nova abordagem (o mundo dos jovens empresários e as aceleradoras de start-ups), já que os diálogos tendem a fugir um pouco da compreensão do telespectador médio, não acostumado aos jargões do mundo especulativo do mercado financeiro e das bolsas de valores.
Com Mike Judge na direção criativa, fica a torcida para que batalhas jurídicas, intrigas e termos contratuais consigam continuar a nos roubar boas risadas. Foi uma das melhores séries do último mid season*, então, a expectativa é grande. Veja abaixo um pequeno trecho do primeiro episódio da segunda temporada.
* N.E: A programação televisiva americana corresponde a um sistema de temporadas, a season. Os principais programas da rede aberta americana iniciam com a Fall Season em setembro, enquanto a Mid Season ocorre – em geral – entre de abril e setembro. Ela é muito utilizada para testar novas séries e/ou apresentar séries que terão curta duração.