Shonda Rhimes e Viola Davis são duas das mulheres mais potentes da televisão mundial na atualidade. Enquanto a primeira tem o toque de Midas em todos os shows que cria, produz e/ou escreve – Grey’s Anatomy, Scandal, Private Practice, The Catch e How to Get Away with Murder –, a segunda é uma gigante em frente às câmeras da TV e do cinema, indicada duas vezes ao Oscar e acumuladora de prêmios, incluindo um Emmy de melhor atriz em série dramática. E adivinha só? Ganhou por uma série de Shonda.
Mas o que fez de How to Get Away with Murder um sucesso repentino, especialmente no Brasil? Shonda, ainda que não a tenha criado, é produtora executiva do show, o que já seria um indicativo. Acontece que Peter Nowalk criou um drama criminal repleto de detalhes extremamente a cara de Shonda Rhimes, e escalou Viola Davis para o papel principal, o da advogada e professora universitária Annalise Keating. Annalise é a perfeita anti-heroína: egoísta, vingativa, vaidosa. Mas é, também, o perfil exato de mulher empoderada que Shonda gosta de ver em suas protagonistas.
Além do exercício da advocacia, ministra aulas de Direito Penal na (fictícia) Universidade de Middleton, na Filadélfia. Seu estilo de ensinar é extremamente prático, por isso, costuma trazer seus casos para a sala de aula, onde coloca seus alunos para pensarem, juntamente com ela, em soluções para os casos mais tensos e difíceis. Como ela atua como advogada de defesa, quase todos seus clientes são pessoas mal vistas em virtude dos crimes pelos quais são acusados: assassinato, roubo, estupro, traição… a lista é extensa e o interesse de Annalise por casos complicados é maior ainda. Já há neste ponto uma grande força: Shonda dá voz a quem a sociedade já retirou a presunção de inocência.

Com duas temporadas já passadas e uma terceira em andamento, How to Get Away with Murder é o exato exemplo de telenovela que o canal ABC, no qual a série é transmitida, gosta. Há um eixo central na trama e que se arrasta entre a primeira e a terceira temporada: o assassinato de uma jovem garota que estava grávida do marido de Annalise, o psicólogo Sam Keating, e que envolve a professora, seus assistentes e o grupo de alunos que estagiam em seu escritório.
É louvável a importância de um show como esse, no qual negros e negras, mulheres e homossexuais são naturalizados na trama, dentro de um show de um canal de tevê aberta nos Estados Unidos, o país que ainda dita tendência comportamental.
Quem acompanha as séries que levam a assinatura de Shonda Rhimes sabe que minorias de poder costumam ter voz ativa em seus shows. E daí surge um ponto que é visto sob diferentes óticas, apontado por alguns como a força de seus roteiros e por outros como a grande fraqueza. Raramente você verá algum personagem feio nas séries de Shonda, ou miséria e pobreza, por exemplo. Nos universos criados por Shonda, homens são tão objetificados quanto as mulheres, talvez até mais. E por mais complexos que os personagens negros e negras, bem como mulheres de uma forma geral, possam ser, eles estão sempre nos cargos altos, em situações estratégicas para as séries, tal como acontece com Viola Davis.
Deixando de lado as críticas, é louvável a importância de um show como esse, no qual negros e negras, mulheres e homossexuais são naturalizados na trama, dentro de um show de um canal de tevê aberta nos Estados Unidos, o país que ainda dita tendência comportamental (inclusive na cultura pop) para todo o mundo. Importante frisar que, enquanto um simples beijo entre duas pessoas do mesmo sexo só foi mostrado recentemente, RuPaul ganhou um Emmy de melhor apresentador de reality show por RuPaul’s Drag Race. Ou seja, tanto a série quanto a vitória do apresentador, ator, cantor e drag queen não se tratam de ser politicamente correto, mas, acima de tudo, de representatividade (e justiça, diga-se).
Mas frente a todos protagonistas criados por Rhimes, a Annalise de Davis é diferente pelo enorme talento da atriz. Isso fica mais evidente com o passar das temporadas – e com as crescentes quedas nos números de audiência. How to Get Away with Murder possui uma trama exageradamente rocambolesca, surreal, e que às vezes tem cara de Malhação nos seus piores dias. Nestes momentos, Viola entra em cena e resgata toda a atenção para si, conduzindo a grande quantidades de atores novatos que com ela atuam e oferecendo a carga dramática na dose necessária, provocando um equilíbrio raro nos shows da criadora de Grey’s Anatomy.
Aos amantes de uma boa novela, a série é um prato cheio, com reviravoltas mirabolantes e plots um tanto “curiosos”; para os fãs de Viola Davis, a oportunidade de ver na televisão uma das maiores atrizes de nossa geração no auge de sua carreira.