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Em ‘Análise’, Vera Iaconelli emociona ao deitar-se no divã para revisitar a própria vida

Em 'Análise', seu livro de memórias, a psicanalista e escritora Vera Iaconelli revisita o passado enquanto faz considerações valiosas sobre as contribuições da psicanálise para a constituição de uma vida plena.

porMaura Martins
12 de novembro de 2025
em Literatura
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A psicanalista Vera Iaconelli. Imagem: Folhapress / Reprodução.

A psicanalista Vera Iaconelli. Imagem: Folhapress / Reprodução.

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De que consiste a análise de uma analista? Esta é certamente uma curiosidade pulsante na mente de todos que já se colocaram na posição vulnerável de analisando/ analisanda. O senso comum consiste em imaginar que os terapeutas sejam pessoas que construíram uma vida perfeita, que já superaram seus sofrimentos do passado, e seria isso que os habilitaria a lidar com as fragilidades alheias. Isso, claro, é apenas uma ilusão.

Em Análise (editora Zahar, 2025), a celebrada psicanalista Vera Iaconelli encara um desafio que certamente não é para todos: o de revisitar a própria história e oferecê-la à luz do seu público leitor. O resultado é enternecedor. O livro revela um delicado processo de revisão da sua vida, atravessada por um histórico familiar repleto de delicadezas e desestruturação. Seu pai, que era violento, constituiu duas famílias – uma oficial, com a mãe de Vera, e outra com a sua secretária. No total, foram oito filhos, seis “oficiais” e dois extraconjugais.

Ao desmoronar a visão pública que provavelmente muitas pessoas têm dela (vale lembrar que Vera Iaconelli está entre os nomes mais conhecidos da psicanálise no Brasil), a escritora nos presenteia com um relato muito potente sobre a força do próprio desejo. Sobre como é possível assumir quem se é – e saber o que se quer – para perseverar em condições adversas.

Assim, sua narração biográfica vai nos apresentando a autoanálise de Vera (sempre condicionada à visão de si mesma, à mercê das interpretações pessoais) à medida em que é costurada pelas quatro análises que atravessou. Deste modo, a obra também se presta como um testemunho sobre como um trabalho dedicado a encarar os abismos internos, embora nunca seja fácil, pode render frutos para uma vida mais valiosa.

Uma dura revisão da própria história

Capa de ‘Análise’, obra publicada pela editora Zahar. Imagem: Zahar / Arte: Escotilha.

Talvez essa seja a primeira vez que um psicanalista exponha com crueza tantos detalhes de sua vida pregressa. Vera é descendente de imigrantes italianos em São Paulo, e nasceu de um casal que não tinha um casamento exatamente feliz. O pai, autoritário e com dificuldade de se estabelecer na vida, descontava suas frustrações na esposa e nos filhos. A mulher, chamada Vera, seria o que, nos olhares contemporâneos, seria chamada de esposa submissa. Além disso, dois dos seus irmãos morreram precocemente, configurando uma grande tragédia familiar.

O que Análise nos oferece não é pouca coisa. Sobretudo às mulheres que, num país machista como o Brasil, são ainda mais pressionadas pela cultura para abrir mão dos seus desejos em prol de mitos embalados em expressões vazias como “valores familiares”

Dela, Vera ganhou o nome e os olhos, e cresceu sendo Verinha. As dificuldades enfrentadas não foram a de nascer em uma família exatamente miserável, mas na qual muita coisa faltava. A riqueza de Análise é costurar essas constatações com as descobertas possibilitadas por uma terapia bem feita. Ter em falta ou em excesso na infância: o que seria mais prejudicial? “O grande valor está em ter a sorte de ser cuidado por alguém que se deixe descartar no momento oportuno, que permita que os filhos se desloquem para além das expectativas de reparação ou da confirmação das fantasias transgeracionais”, escreve.

De fato, é preciso ser dito, Vera Iaconelli escreve lindamente, mesclando a revisão biográfica, o discurso objetivo e o tom poético. Ao seu leitor, ela oferece o tempo todo luzes de esclarecimento sobre qual seria a função da psicanálise. Será que ela é capaz de nos salvar de uma vida de sofrimentos? “Uma análise não vai dar um jeito no marido insuportável, na chefe assediadora, nem trazer de volta a alegria de um passado idílico (…). Análise não é Procon. (…) Freud estava certo ao procurar fazê-la entender que não há como ser parte da solução sem ter se reconhecido antes como parte do problema”.

Obviamente, Vera nos conta, assumir-se como parte do problema não é tarefa fácil: envolve o famoso desafio de bancar o próprio desejo – o que significa, em boa parte das vezes, decepcionar as expectativas familiares para ir atrás do que se quer. Isso pressupõe, frequentemente, um afastamento dos parentes – seja emocional ou fisicamente – para poder buscar a própria vida.

O que Análise nos oferece não é pouca coisa. Sobretudo às mulheres que, num país machista como o Brasil, são ainda mais pressionadas pela cultura para abrir mão dos seus desejos em prol de mitos embalados em expressões vazias como “valores familiares”. Por fim, Vera olha para a mãe com orgulho e admiração pelo que ela conseguiu fazer da própria vida depois que o marido faleceu. “Cada mulher que dá um passo em direção ao próprio desejo oferece uma chance para as demais”.

É uma mensagem potente e necessária, mesmo que já estejamos em 2025. Análise é um livro corajoso e delicado, que assegura Vera Iaconelli não apenas como uma grande psicanalista, mas como uma escritora que merece todos os louros.

ANÁLISE | Vera Iaconelli

Editora: Zahar;
Tamanho: 208 págs.;
Lançamento: Julho, 2025.

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Tags: AnáliseEditora ZaharLiteratura BrasileiraSigmund FreudVera Iaconelli

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