Há espetáculos que se impõem menos pela grandiosidade do que pela precisão com que articulam cada gesto, cada mínimo ruído, cada deslocamento. (Um) Ensaio Sobre a Cegueira, nova empreitada do Grupo Galpão sob direção de Rodrigo Portella, é justamente esse tipo de obra: um teatro que nasce da depuração, da escuta e da confiança radical entre artistas e espectadores. Assistir à montagem em São Paulo é perceber como uma companhia de mais de quatro décadas de trajetória ainda é capaz de reinventar-se a partir da própria maturidade — sem complacência, sem maneirismos, mas com o frescor de quem segue disposto a experimentar.
Tomando como ponto de partida a célebre alegoria concebida por José Saramago, o espetáculo reinscreve no palco a fábula da cegueira branca que desorganiza uma cidade e desvela a falência moral de seus habitantes. Mas o interesse da montagem não está em ilustrar o romance nem em dramatizar literalmente suas cenas mais emblemáticas. Portella — cujo trabalho recente já vinha revelando habilidade para articular rigor formal e apelo emocional — usa o texto como trampolim para criar uma dramaturgia que se sustenta na participação, na fisicalidade e na ideia de comunidade.
Há uma pequena ação durante o espetáculo — moedas que giram sobre uma tábua, iluminadas por um foco preciso — que evidencia a assinatura estética da peça: simplicidade que não é sinônimo de pobreza, mas de escolha. Cada som metálico reverbera como parte de uma coreografia maior, que combina organicidade e controle. É um gesto que já diz muito sobre o Galpão: o detalhe mínimo se transforma em signo, e a técnica, quando invisível, ganha força simbólica.
A encenação explora a noção de cegueira não apenas como afastamento visual, mas como estado moral. Os atores jogam com essa ambiguidade, deslocando-se entre o narrado e o vivido, entre a distância brechtiana e a imersão sensorial. Em alguns momentos, os intérpretes assumem personagens; em outros, comentam a própria cena, revelando o mecanismo teatral — estratégia que ecoa tanto o romance quanto a tradição épica que inspira Portella. Nada disso, porém, é apresentado de maneira hermética. O espetáculo se comunica com clareza, amparado por um elenco afinado e por uma direção que privilegia a compreensão do público sem subestimar sua inteligência.

A participação de parte da plateia — alguns espectadores vendados, conduzidos pelos atores — cria um deslocamento interessante. Ainda que a proposta não busque choque, a experiência coloca o público em contato direto com a vulnerabilidade e a confiança que atravessam a narrativa. É um recurso que dialoga com a ideia de comunidade tão cara ao Galpão e que, aqui, encontra um ponto de equilíbrio: o espetáculo jamais transforma o voluntário em objeto ou em distração, preservando o sentido ético da obra.
Entre os destaques, está a construção de “A mulher que vê”, figura interpretada com sensibilidade por Fernanda Vianna. Ao eliminar o nome relacionado ao marido e elevar sua função narrativa, a montagem reforça o protagonismo silencioso das mulheres, cuja lucidez e disposição para o cuidado sustentam o grupo em meio ao colapso. Também chama atenção a forma como o espetáculo trata a violência e a degradação moral: sem espetacularização, mas com firmeza. O horror está sugerido mais do que representado, e o afeto, quando surge, não é idealizado — é fruto da resistência. Aspectos que saltam da simbologia e ecoam a realidade de uma encenação em dia de manifestação Brasil afora contra o feminicídio.
Cenografia e iluminação cumprem um papel central. Poucos elementos, todos utilizados com exatidão. O espaço parece estar em constante transformação, não porque mudem os objetos, mas porque a luz, os corpos e o som reorganizam a percepção ambiental. Federico Puppi (parceiro de Portella em Ficções) assina uma trilha que funciona como lente emocional — não narrativa —, ampliando o impacto sensorial da encenação.
Se a peça encontra ecos na pandemia recente ou nas crises políticas atuais, é porque o texto de Saramago permanece inquietantemente atual.
Se a peça encontra ecos na pandemia recente ou nas crises políticas atuais, é porque o texto de Saramago permanece inquietantemente atual. Mas a montagem não se limita a comentários de ocasião. Seu mérito está em criar uma espécie de ritual coletivo: o público, guiado, desorientado ou apenas observador, atravessa um percurso que parte do medo, passa pela desumanização e desemboca na necessidade de reconhecimento mútuo.
Ao final, o espetáculo entrega algo raro no teatro contemporâneo: um gesto de lucidez. Não esperança fácil, não catarse redentora — mas a sensação de que, diante do caos, ainda é possível sustentar vínculos, inventar modos de ver e, sobretudo, não abandonar o outro.
(Um) Ensaio Sobre a Cegueira confirma o Grupo Galpão como uma das companhias mais importantes do país. E confirma, também, que o teatro — quando busca menos o virtuosismo e mais a experiência compartilhada — pode iluminar regiões que a visão cotidiana insiste em obscurecer.
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