Aos 85 anos, o sul-africano J.M. Coetzee – um dos grandes escritores vivos, vencedor do Nobel de literatura em 2003 – está refletindo sobre a proximidade da morte. Pelo menos é o que sugere seu livro mais recente, o surpreendente O Polonês (editora Companhia das Letras, 2025; tradução de José Rubens Siqueira), um romance com ares de novela que imagina um encontro amoroso inusitado.
A história começa quando um pianista polonês, intérprete de Chopin, é convidado por um conselho de concertos para ir se apresentar em Barcelona. Ele se chama Witold Walccyzkiecz. Lá, é ciceroneado pelos membros do conselho, entre os quais está Beatriz, uma dona de casa que dedica seu tempo livre ao hobby da música erudita. Em um jantar, tudo ocorre normalmente, mas a tônica que permeia o romance já está ali: as trocas (e as barreiras) linguísticas. Witold é nativo no polonês, Beatriz e os colegas de conselho no espanhol, arranham no francês, mas a conversa entre todos acontece no inglês.
O polonês retorna para o seu país, e envia para Beatriz um CD contendo gravações de suas interpretações de Chopin. Ela fica inquieta: o que será que aquele velho (ele tem 72 anos; ela está chegando aos 50) está querendo dizer? Quando retorna à Espanha para dar oficinas de música, Witold convida para que ela o encontre, e então declara a sua paixão. Está encantado – Beatriz, para ele, é idealizada como Beatrice, a musa de Dante em A Divina Comédia.
Contido em seu estilo, o que O Polonês vai nos entregando não é exatamente uma história de amor entre um homem e uma mulher. Coetzee parece propor mais uma reflexão sobre a mortalidade e sobre os afetos possíveis que surgem com a maturidade quando já não resta muita coisa.
‘O Polonês’ e os limites da linguagem

Diferente das abordagens estereotipadas das paixões, o encontro entre Witold e Beatriz não é marcado por arroubos. Ao contrário. A paixão do polonês é sobretudo platônica, e ele parece satisfeito em conformar-se com a mera existência da sua amada, caso ela nunca ceda aos seus pedidos. Beatriz, que centraliza o foco da narrativa, sente uma mistura de pena e repulsa por aquele homem que a cobiça.
Ao mesmo tempo, ele a lembra o tempo todo que ainda provoca desejo sexual – algo que não está mais presente em seu casamento. Toda a paixão sentida por Witold é compartilhada com o marido, que parece não sentir ciúmes, e até estimula Beatriz para que confira até onde o velho será capaz de ir (ela, por outro lado, tolera passivamente os casos do cônjuge).
O quanto o domínio da língua determina a nossa identidade? Esta parece ser uma das questões provocadas por Coetzee.
O estilo seco de Coetzee (já conhecido de seus muitos de leitores, em suas obras como Desonra e A infância de Jesus) causa alguma contradição com a temática tristemente afetuosa deste romance. Mas faz sentido, uma vez que estamos diante de um livro que encara os dramas de um homem que se vê perante os últimos anos de sua vida. O amor por Beatriz aparece, então, como parte do seu legado ao mundo – e aí, talvez, associe-se à grandiosidade da Beatrice de Dante.
A última parte do livro, contudo, potencializa uma temática muito importante e que perpassa todo o romance: sobre o quanto as relações estão sempre limitadas pelas fronteiras da língua, que servem como as pontes que tornam a comunicação possível. Sem trazer spoilers, há questões que aparecem associadas a traduções de poemas escritos em polonês. O próprio Witold, em certos momentos de O Polonês, aparece como alguém que apenas brilha quando se expressa pela música, e que se apaga quando se expressa em palavras.
O quanto o domínio da língua determina a nossa identidade? Esta parece ser uma das questões provocadas por Coetzee. Em um dos diálogos mais marcantes da obra, Witold se define: “Tenho sido um homem que toca piano. Como o homem que fura os bilhetes no ônibus. Ele é um homem que fura bilhetes, mas não é um bilheteiro”.
Como se sua existência no mundo fosse marcada pela sua arte, Witold se coloca apenas como uma peça banal de uma roda que não para de girar. Um raciocínio tão belo quanto trágico. Caso esse seja um Coetzee de despedida (e oremos para que não seja), será uma saída de luxo da literatura.
O POLONÊS | J. M. Coetzee
Editora: Companhia das Letras;
Tradução: José Rubens Siqueira;
Tamanho: 130 págs.;
Lançamento: Outubro, 2025.
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