Seria injusto dizer que a cineasta britânica Emerald Fennell não foi ousada ao arriscar mais uma adaptação do romance clássico de Emily Brontë, O Morro dos Ventos Uivantes, publicado em 1847. A trágica história de amor entre Cathy e Heathcliff já foi levada inúmeras vezes às telas desde 1939, quando a primeira versão, dirigida por William Wyler e estrelada por Merle Oberon e Laurence Olivier, chegou aos cinemas.
O longa-metragem de Fennell é o que mais se afasta da obra de Brontë — e não por falta de originalidade, muito pelo contrário. Seu problema é outro: concentra-se excessivamente na relação obsessiva entre os protagonistas, como se o mundo ao redor fosse apenas cenário decorativo, e não força dramática essencial. Esquece dos sons ao redor.
A obra de Brontë possui uma transcendência muito maior do que esta — ou qualquer outra — de suas versões cinematográficas. Heathcliff, adotado ainda menino por Earnshaw, proprietário rural decadente do norte da Inglaterra, é um elemento estranho que desestabiliza o já frágil equilíbrio de forças em Wuthering Heights, propriedade que simboliza uma casta em declínio.
Descrito como um garoto de pele escura — a autora nunca especifica sua origem étnica — Heathcliff é selvagem, sem modos, à margem da civilização, mas em profunda sintonia com a natureza tempestuosa de Yorkshire. Embora tratado como uma espécie de servo, assume função central no cotidiano da casa: faz companhia a Cathy, filha de Earnshaw, órfã de mãe e entregue a uma existência solitária, afastada do chamado mundo social.
A amizade entre Cathy e Heathcliff, à medida que se tornam adolescentes, transforma-se numa paixão tão urgente quanto a paisagem que os cerca, sempre sob o olhar atento da governanta Nelly Dean, narradora da história. Se Earnshaw pretendia domesticar Heathcliff, inseri-lo em seu mundo, é sua filha quem se revela feita da mesma matéria indomável do rapaz.
Emerald Fennell compreende esse substrato do romance, mas investe muito mais no espetáculo do romance do que em sua dimensão existencial. Cathy Earnshaw é vivida pela australiana Margot Robbie (de Barbie), aqui menos heroína trágica e mais musa performática, frequentemente à beira do excesso. Heathcliff, interpretado por Jacob Elordi (de Frankenstein), surge como um outsider de cabelos longos e olhar sombrio — figura que mistura romantismo byroniano e fetiche contemporâneo.
Emerald Fennell compreende esse substrato do romance, mas investe muito mais no espetáculo do romance do que em sua dimensão existencial.
Os dois personagens, que nas páginas de Brontë são complexos e atormentados, parecem saídos de um editorial de moda extravagante: espartilhos rasgados, erotização estilizada e um humor que flerta com o deboche. Falta-lhes densidade, tridimensionalidade.
Fennell faz escolhas interessantes — algumas, notáveis. Embora Heathcliff surja como um homem indiscutivelmente branco, a diretora de Saltburn, vencedora do Oscar de Melhor Roteiro Original por Bela Vingança, ousa na escalação do elenco. A tailandesa Hong Chau (de A Baleia) vive Nelly Dean transformada em uma “bastarda” também marginalizada por sua mestiçagem.
Edgar Linton, o homem rico com quem Cathy se casa para escapar da precariedade e retornar ao mundo da civilização — ou do capitalismo — é interpretado por Shazad Latif, ator britânico de origem indiana. São escolhas deliberadamente anacrônicas, que parecem dialogar mais com o Reino Unido contemporâneo e seu desconforto diante da multirracialidade.
Ainda assim, Fennell simplifica excessivamente o romance original. Elimina personagens, reduz conflitos geracionais, esvazia camadas simbólicas. A tragédia surge envolta em brilho, trilha pop e uma estética que lembra um videoclipe de luxo estendido por mais de duas horas. O filme até ensaia refletir sobre a responsabilidade dos próprios personagens nos mal-entendidos que os destroem, mas prefere a superfície estilizada ao mergulho psicológico.
O resultado é um O Morro dos Ventos Uivantes visualmente exuberante, arrebatador em momentos pontuais, porém essencialmente um espetáculo de emoções encenadas: se pretende erótico, tenta ser romântico, trágico. Mas não passa de um banquete de sentimentos simulados — bonito de olhar, mas menos devastador do que promete e muito aquém da potência da obra que o originou.
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