• Sobre
  • Apoie
  • Política de Privacidade
  • Contato
Escotilha
Sem Resultados
Veja Todos Resultados
  • Reportagem
  • Política
  • Cinema
  • Televisão
  • Literatura
  • Música
  • Teatro
  • Artes Visuais
  • Reportagem
  • Política
  • Cinema
  • Televisão
  • Literatura
  • Música
  • Teatro
  • Artes Visuais
Escotilha
Home Literatura

A união feminina como sobrevivência em ‘As Primas’

Em 'As Primas', Aurora Venturini conta uma história sobre a solidariedade entre primas de uma família miserável para poder fugir de seu destino.

porMaura Martins
27 de fevereiro de 2026
em Literatura
A A
A escritora argentina Aurora Venturini. Imagem: Nora Lezano / Reprodução.

A escritora argentina Aurora Venturini. Imagem: Nora Lezano / Reprodução.

Envie pelo WhatsAppCompartilhe no LinkedInCompartilhe no FacebookCompartilhe no Twitter

Autora de mais de quarenta obras, a argentina Aurora Venturini só alcançou verdadeiro reconhecimento em seu país aos 85 anos, com o romance As Primas (editora Fósforo, 2022; tradução de Mariana Sanchez), pelo qual recebeu o prêmio Nueva Novela. Sua reação foi algo debochada. Mas o chiste parecia ter consonância com a obra, na qual Aurora pega elementos biográficos de sua família que, segundo ela, tinha ares “monstruosos”, para falar da realidade de Yuna.

Espécie de romance de formação passado nos anos 1940, As Primas transita entre o trágico, o cômico e o miserável. As primas do título, na verdade, abrangem toda a família de Yuna Riglos, formada sobretudo por mulheres. Os homens ou deram no pé, ou são figuras frágeis, ou se revelam abusadores. Mas os primeiros parágrafos do livro já dão a letra pelo choque: “não éramos comuns, para não dizer que não éramos normais”.

O que vamos logo entendendo é que a vida de Yuna e de suas primas, irmã, tias e mãe é cercada de limitações, sordidez, pobreza e exploração. Sua irmã, Betina, é acometida por uma deficiência severa, tem idade mental de um bebê e mal pronuncia alguma palavra. A própria Yuna assume que tem algum tipo de comprometimento intelectual (mais adiante, ela fala de dislalia, o que explicaria uma dificuldade com as palavras e sua facilidade com a pintura). Sua prima Carina tem dedos a mais nos pés e nas mãos. Ela é abusada por um vizinho, engravida e obrigada por uma tia a passar por um aborto clandestino.

A precariedade da situação enfrentada por Carina é terrível. A narradora nos conta a cena como se nos desferisse um soco: “Veio a doutora que não parecia doutora de tão ordinária. Perguntou qual era a paciente e de quantos meses estava então tia Nené respondeu que de três e uns quebrados e eu entendi por que dizem que os filhos são a riqueza do pobre, mas parece que tia Nene que não comia todos os dias por falta de dinheiro não perdoava o bebê nem pelos trocados que poderia conseguir com ele”.

A miséria e a injustiça de gênero

Capa da edição brasileira de ‘As Primas’. Imagem: Editora Fósforo / Arte: Escotilha.

Fica claro no trecho acima uma das razões que explica as controvérsias levantadas pela obra de Aurora Venturini: sua vontade de denunciar a desigualdade de gênero nessa sociedade em que as mulheres (e ainda mais as meninas) são condenadas a tolerar os piores fardos possíveis. É a mãe de Yuna que precisa cuidar de Betina e da casa quando o pai delas some e nunca mais dá notícias; é a jovem que passa pelo aborto, enquanto o sujeito que a engravidou não arca com nada; são as meninas que aguentam os olhares e a luxúria dos velhos mesmo que eles não lhes apeteçam.

Os talentos de Venturini – que elegeu As Primas como a sua maior obra – se provam nos recursos estéticos e narrativos que ela emprega aqui. A autora constrói a estrutura do pensamento de Yuna como a de alguém que passa por limitações cognitivas, que frequentemente precisa procurar palavras para se expressar (usa-se então o artifício de mencionar a consulta ao dicionário).

A beleza de As Primas está em fazer-nos reconhecer a força da união dessas mulheres.

É também curioso e rico notar que Yuna interpela diretamente o leitor em vários momentos, em uma espécie de “quebra da quarta parede”. Como se escrevesse um diário (e nós fôssemos, de alguma maneira, as páginas dele), ela solicita por momentos de descanso e pede desculpas pelos seus erros. Ao avançar do livro, a fala da narradora vai se tornando mais fluida e empoderada – e ela inclusive revela ciência de sua evolução.

Outro aspecto que é preciso destacar como uma escolha inteligente da autora é construir Yuna como uma personagem ingênua, pura, tal como um bebê (algumas análises chegaram a compará-la a Bella Baxter de Pobres Criaturas). Mas diferente da protagonista do filme de Yorgos Lanthimos, que era inocente, mas curiosa perante à vida, Yuna se escandaliza. Aos 19 anos, ela sabe muito menos sobre sexo que suas primas mais novas, e qualquer descrição dos atos sexuais a faz querer vomitar.

Mas a beleza de As Primas está em fazer-nos reconhecer a força da união dessas mulheres. Yuna é inexperiente, mas é esperta. Sua potência cresce ao juntar-se com a malícia das ruas da prima Petra, que tem nanismo e é praticante da “profissão mais antiga do mundo”, pela qual ela articula uma vingança.

Somando suas astúcias, essas meninas que foram lançadas à rabeira do mundo conseguem escapar do destino social imposto a elas e construir a própria história. Só isso é mais do que suficiente para explicar a importância desta escritora.

AS PRIMAS | Aurora Venturini

Editora: Fósforo;
Tradução: Mariana Sanchez;
Tamanho: 179 págs.;
Lançamento: Setembro, 2022.

COMPRE NA AMAZON

ESCOTILHA PRECISA DE AJUDA

Que tal apoiar a Escotilha? Assine nosso financiamento coletivo. Você pode contribuir a partir de R$ 15,00 mensais. Se preferir, pode enviar uma contribuição avulsa por PIX. A chave é pix@escotilha.com.br. Toda contribuição, grande ou pequena, potencializa e ajuda a manter nosso jornalismo.

CLIQUE AQUI E APOIE

Tags: As PrimasAurora VenturiniEditora FósforoLiteraturaLiteratura Argentina

VEJA TAMBÉM

O escritor sul-africano J.M. Coetzee, vencedor do Nobel de Literatura. Imagem: Divulgação.
Literatura

Em ‘O Polonês’, Coetzee faz da paixão um ensaio sobre a morte

13 de fevereiro de 2026
Sigrid Nunez com seu gato durante a década de 1980. Imagem: Reprodução.
Literatura

Sigrid Nunez dá voz à macaquinha de Virginia Woolf em biografia ficcional

11 de fevereiro de 2026

FIQUE POR DENTRO

A escritora argentina Aurora Venturini. Imagem: Nora Lezano / Reprodução.

A união feminina como sobrevivência em ‘As Primas’

27 de fevereiro de 2026
Zach Condon retorna com o Beirut após quase 12 anos. Imagem: Lina Gaisser / Divulgação.

C6 Fest – Desvendando o lineup: Beirut

27 de fevereiro de 2026
Jane Fonda em Hanói, no Vietnã. Imagem: Pentimento Productions / Divulgação.

‘Jane Fonda em Cinco Atos’: as muitas vidas de uma estrela ativista

26 de fevereiro de 2026
'Sirât' é um dos principais concorrentes ao Oscar da categoria de melhor filme internacional. Imagem: Filmes da Ermida / Divulgação.

‘Sirât’ é um filme de atmosfera e experiência sensorial

26 de fevereiro de 2026
Instagram Twitter Facebook YouTube TikTok
Escotilha

  • Sobre
  • Apoie
  • Política de Privacidade
  • Contato
  • Agenda
  • Artes Visuais
  • Colunas
  • Cinema
  • Entrevistas
  • Literatura
  • Crônicas
  • Música
  • Teatro
  • Política
  • Reportagem
  • Televisão

© 2015-2023 Escotilha - Cultura, diálogo e informação.

Sem Resultados
Veja Todos Resultados
  • Reportagem
  • Política
  • Cinema
  • Televisão
  • Literatura
  • Música
  • Teatro
  • Artes Visuais
  • Sobre a Escotilha
  • Contato

© 2015-2023 Escotilha - Cultura, diálogo e informação.