Fazer justiça: moralismo progressista e punitivismo na luta contra o sexismo (Ubu Editora, 2025; tradução de Mariana Echalar), da francesa Elsa Deck Marsault, pertence a uma categoria rara na literatura: a de obras que produzem fissuras dentro do próprio campo político ao qual se dirigem. O livro é parte integrante da coleção Explosante, coordenada por Vladimir Safatle, destinada a títulos que procuram tensionar categorias estabelecidas e produzir deslocamentos políticos, estéticos ou teóricos.
Publicado originalmente na França em 2023, o livro não tardou a se tornar objeto de intensa controvérsia dentro da esquerda europeia. A razão não estava em uma pretensa negação à existência da violência sexista ou na relativização de desigualdades estruturais, leitura atribuída pelos críticos do trabalho de Marsault. Na realidade, o que a autora faz é deslocar o foco da análise sobre o tema, voltando sua atenção para os modos como movimentos emancipatórios passaram a administrar conflitos internos e demandas por justiça. O gesto da militante é delicado e politicamente arriscado.
Já nas páginas iniciais do livro, a autora deixa claro que escreve a partir de dentro das comunidades feministas e queer das quais participa. Ou seja, o ponto de partida dela não é teórico, mas experencial. Elsa acompanhou e observou processos recorrentes de exclusão coletiva, campanhas públicas de denúncia e rupturas comunitárias em sua atuação no coletivo francês Fracas, organização dedicada à mediação de “conflitos e violências interpessoais, intracomunitários ou coletivos”. Isso não é um mero detalhe, e faz ecoar uma pergunta ao longo do livro, mais política do que moral: por que espaços que se propõem a combater a violência acabam reproduzindo dinâmicas punitivas semelhantes às do sistema penal?

De acordo com a hipótese central levantada por Marsault, parte do progressismo contemporâneo teria internalizado o que denominou “moralismo progressista”, um conceito que dialoga diretamente com reflexões de Wendy Brown sobre a substituição da ação política estrutural por regime de vigilância moral. Ela defende na obra que, ao invés de enfrentar relações materiais de poder, a militância deslocaria o conflito para o plano interpessoal, transformando divergências, erros ou danos em questões de pureza política. E nesse processo, a justiça passa a assumir a forma de sanção social.
A influência de Foucault no trabalho de Elsa Deck Marsault é evidente. Ao ecoar a análise do filósofo sobre a difusão social das tecnologias disciplinares, a autora sugere que o modelo penal não desaparece quando se abandona o Estado ou o tribunal. Para Marsault, o que passa a ocorrer é sua reconfiguração nas comunidades. Expulsões simbólicas, campanhas de ostracização e denúncias públicas funcionariam, assim, como extensões informais da lógica punitiva moderna.
É justamente aqui que Fazer justiça ganha contornos mais chamativos. Maursault passa a ocupar uma posição incômoda quando criticar as práticas associadas ao “cancelamento”. Isso ocorre porque ela é, simultaneamente, apropriada pelos setores conservadores interessados em atacar pautas progressistas e rejeitada por parcelas da esquerda francesa que veem em sua crítica um risco de que as denúncias de violência passem a ser deslegitimadas.
Marsault dialoga com tradições do feminismo abolicionista penal, especialmente autoras como Angela Davis e Mariame Kaba, ao defender modelos de justiça restaurativa e transformadora.
A própria autora demonstra consciência desse impasse. Em entrevista à Friction Magazine, ela afirma que “Este livro vem de um lugar de raiva”, indicando que a escrita nasce da observação de danos reais produzidos dentro de espaços militantes. Sua declaração evidencia que o leitor não está distante de uma intervenção acadêmica distanciada, mas de uma tentativa de compreender processos que, segundo ela, resultaram em isolamento social prolongado e sofrimento psíquico entre militantes.
Outro trecho da entrevista de Marsault ajuda a compreender a dimensão política do argumento. Elsa observa que muitos movimentos passaram a concentrar energia em conflitos simbólicos internos porque enfrentam dificuldades crescentes para transformar estruturas sociais mais amplas. O rigor moral funcionaria, assim, como compensação diante da impotência política percebida.
Essa leitura ajuda a explicar por que Fazer justiça gera interpretações diametralmente opostas. Para alguns leitores, o livro oferece uma crítica necessária ao que percebem como deriva moralizante do ativismo digital. Para outros, ele corre o risco de subestimar assimetrias reais de poder ao propor processos comunitários de responsabilização. E a tensão não é acidental, pelo contrário. Ela constitui o próprio objeto da obra.
Marsault dialoga com tradições do feminismo abolicionista penal, especialmente autoras como Angela Davis e Mariame Kaba, ao defender modelos de justiça restaurativa e transformadora. A responsabilização, em sua formulação, não se confunde com punição. Trata-se, na realidade, de compreender o dano, reparar relações quando possível e transformar as condições que o produziram. O deslocamento é profundo e faz a pergunta pender de “quem deve pagar?” para tornar-se “como impedir que a violência se repita?”. Nesse ponto, a leitura brasileira ganha particular ressonância.
O Brasil é um país marcado pelo encarceramento em massa, pela seletividade penal racial e pela militarização da segurança pública. Sendo assim, o diagnóstico de Marsault encontra paralelos evidentes em nosso território. A crítica ao reflexo punitivo, inclusive em espaços progressistas, encontra eco nos debates nacionais sobre justiça restaurativa, políticas abolicionistas e práticas comunitárias de resolução de conflitos. Não por acaso, o prefácio da edição brasileira, assinado por Juliana Borges, situa a obra no contexto de um sistema penal historicamente incapaz de produzir reparação social efetiva.
O incômodo provocado por Fazer justiça talvez decorra de sua recusa em oferecer respostas simples. Marsault não propõe abandonar denúncias nem minimizar violências. O que questiona é a naturalização da punição como horizonte inevitável da justiça, inclusive entre aqueles que pretendem construir alternativas ao sistema penal. Ao fazê-lo, a francesa expõe uma contradição central das esquerdas contemporâneas. Como enfrentar a violência sem reproduzir as estruturas que historicamente produziram exclusão? E aí, mais do que tomar partido, o livro obriga o leitor a reconhecer que a disputa em torno da justiça permanece aberta. E que, talvez, o desafio político mais difícil não seja identificar o inimigo externo, mas compreender os mecanismos que operam dentro dos próprios espaços de emancipação.
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